03/10/2019

Rio Perdido - meu prefácio




A cidade, conquanto de concreto, asfalto, tijolo, vidro --sem falar de horríveis esquadrias de alumínio--  é também um ser vivo. Ela nasce e, um dia, morrerá. Seu tempo é diferente do humano. Vivem e morrem numerosas gerações enquanto a Cidade segue em frente. Claro, há cidades que não existem mais, se perderam no tempo histórico, nos desastres ecológicos e geológicos, nas guerras. De algumas não sobra quase vestígio que não seja arqueológico. Penso em Cartago, arrasada até o chão e salgada pelas legiões romanas. Pompeia engolfada na lava do vulcão Etna. Muito recentemente, a prosaica Paradise, na Califórnia, totalmente arrasada por um desses incêndios florestais que vão tornar-se cada vez mais frequentes e arrasadores com a mudança climática. O que será das cidades litorâneas –inclusive do Rio de Janeiro--  com a elevação do mar, nas próximas décadas e séculos? 

 Esse livro tangencia a vida e morte de cidades mas na escala humana. Naquela das edificações que a mão de obra, arquitetura, engenharia e economia em algum momento entenderam construir e, noutro momento, por força do mercado  ou, quase sempre, decisões do poder político, literalmente sumiram do mapa. Foram perdidas para as gerações atuais enquanto a Cidade foi se modificando, crescendo, mudando seus modos de mobilidade, necessidades de moradia e trabalho, distribuição de negócios,  formatos e modos do comércio. O Rio de Janeiro, aterrou-se praticamente para todos os lados que sua geografia permitisse, desmatou e reflorestou, avançou sobre a baía e para tanto arrasou seu morro central, o do Castelo. O Rio foi também pontilhado de destruições numa escala micro: construções vítimas de conjunções  do econômico com o político, de interesses e ambições e, não raro, de idiossincrasias obtusas que uma ou duas gerações mais tarde tornam-se incompreensíveis, abjetas.

 Existe um Rio Perdido. Ficava naquele lugar mas não mais. Alguns de seus espectros já não povoam a memória de ninguém vivo.  Encontramos suas imagens em branco e preto nos livros de fotos antigas de nossa Cidade. Ninguém mais está vivo para se recordar do Convento da Ajuda, dos pavilhões das Exposições de 1908 e de 1922 ou do próprio Morro do Castelo. Outros permanecem na memória da geração dos mais idosos.  Outros ainda na nossa,  de meia idade. Tenho meu quinhão de memória do Rio Perdido:  me lembro, em cores vivas,  do Palácio Monroe no final a Av. Rio Branco.  Senado Federal e, depois, QG do EMFA(Estado Maior das Forças Armadas) demolido no que é, até hoje, uma  história  bizarra, mal contada,  dos anos do governo Geisel.

  Era pequeno demais para me lembrar do Mourisco cujo pavilhão foi abaixo quando eu tinha um ano de vida,  mas que junto com a estátua do Manequinho, mijão,  permaneceu no nome do lugar. Não faz parte desse livro,  mas meu pedaço de Rio Perdido mais candente –literalmente candente--  é o Hotel Vogue. Uma das minhas primeiras recordações. Tinha quatro anos, estava na cozinha da casa de minha vó Vera, na Avenida Atlântica, num prédio depois demolido para duplicar a Avenida  Princesa Isabel, e vi o Vogue pegar fogo: a tragédia de suas escadas de jacarandá alimentando as labaredas, um turista se atirando para a morte pela janela, os caminhões dos bombeiros –passei uns anos depois sonhando ser bombeiro também--   as sirenes uivando, as escadas Magirus, os esguichos das mangueiras,  as nuvens de fumaça e de vapor.  Hoje, passo por ali, vejo a pista que sobe para a esquina da  Avenida Atlântica com aquele horrível prédio envidraçado. Me lembro da maresia na varanda do apartamento da vovó e do farol da Ilha Rasa que, naquela época,  projetava dois fachos amarelos e um verde, sucessivamente. 

 Poderia, mas não me lembro da demolição, em 1962, do mercado municipal da Praça XV para dar lugar ao elevado com sua via expressa que agora também faz parte de um Rio perdido, esse certamente, menos deplorado. Também me eludiu completamente o fim, em 1970, da fábrica do Elixir de Nogueira, um esquisito palacete na Praia do Russel. Lembro me bem, no entanto, dos antigos postos de Salva Vidas que não sobreviveram à duplicação da Av. Atlântica e ao alargamento da Praia de Copacabana, em 1970. Me faz lembrar das dunas onde, clandestino, namorava.

  Esse livro também pinta uma história de sobrevivência. Prédios que sobreviveram até chegar num tempo em que o antigo “retrofitado” virou bacana. O edifício da Sul-América e o  Nigri Palace, no centro; a Vila Aymoré, na Glória, o antigo Hotel Serrador e o antigo prédio da Standard Oil,  na saída da Cinelândia. Cujos cinemas, aliás, foram quase todos perdidos com a notável exceção do Odeon,  último dos moicanos. Fazem parte de um outro  Rio perdido aqui não mencionado, todas aquelas salas transformadas em tempos pentecostais ou Casas Bahia: o Bruni Flamengo, o Ópera. Ah, o velho São Luiz, o Asteca, o Rian, o Miramar. Dá um outro livro, quem sabe.


 Cada um de nós, cariocas, tem seu Rio Perdido, sua memória da cidade como foi aqui e ali e depois deixou de ser. A ideia de preservação percorreu um longo de tortuoso caminho para vencer a cultura do “bota abaixo” e hoje o retrofiting  está em alta, promissor. Quando a Cidade voltar do buraco teremos menos Rio Perdido e mais Rio Recuperado. O passado preservado e enriquecido com novos usos:  combinações criativas entre o que foi e o que será.



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