01/05/2020

A economia pós-corona, o menos-carbono como novo ouro



As consequências econômicas da pandemia serão dramáticas em todo mundo e, particularmente, no Brasil. Que fazer?  Ocorre um choque entre a visão patrocinadas pelos militares do Palácio do Planalto, o pró-Brasil --um pano de obras públicas que chegou a ser comparado ao New Deal--  e aquela do ministro da Fazenda Paulo Guedes --o solitário de máscara-- temendo um rebrote neodesenvolvimenta/estatista.

 A estratégia de Guedes da política clássica de austeridade para devolver confiança e atrair capitais nacionais e, sobretudo, internacionais  já vinha mal das pernas. Foi para o espaço sideral com a pandemia. O paradigma de rigoroso controle do déficit simplesmente virou suco. Países centrais estão apostando em endividamento de 300% do PIB e volta do tipo de tratamento do déficit dos tempos do New Deal, da II Guerra e do pós-guerra, de onde vem a lembrança do Plano Marshall. 

 Homens do capital financeiro como Guedes estão atônitos com essa situação não têm a menor ideia de como continuar brandindo sua ferramenta favorita, a tesoura.  Não percebem o quanto a pandemia explodiu todo o paradigma do capitalismo “financiarizado”:  globalização extrema, o movimentação vertiginosa dos capitais especulativos, sua relativa desvinculação de investimentos produtivos e sua capacidade de colocar de joelhos os governos nacionais. 

Há certamente um renascimento de Lord Keynes, da ação intervencionista do estado --de diversas maneiras, nem todas amigáveis à finança--   e  isso ocorre em países governados tanto pela esquerda como pela direita (atualmente a maioria). 

 Isso não dá razão, automaticamente, aos militares do Pro-Brasil. Sim, o Brasil vai necessitar desesperadamente do seu Estado, inclusive como agente econômico mas não  da velha e surrada estratégia nacional-desenvolvimentista de Geisel à Dilma. Do Estado num novo paradigma que consiga enxergar onde está de fato o potencial do país e qual o tipo de investimento público e de infraestrutura que vai de fato funcionar, pois sabemos de sobra, também de Geisel a Dilma, que ele facilmente pode ser desastroso.

 Há um ingrediente patético nessa fé do Brasil que seu futuro está no petróleo e na carne. O petróleo, independentemente da queda atual,  não emplaca mais 20 anos com a decisão da indústria automotiva global de se eletrificar. Já a carne, sinto comunicar aos ruralistas,  mais rápido do que se imagina prescindirá da boiada e do pasto. Está sendo fabricada sinteticamente com o mesmo gosto e barateando exponencialmente. Isso vai conquistar o mundo, inclusive a China. Aguardem.

 Nosso potencial está na biotecnologia, na produção de energia por biomassa, em reflorestamentos naturais e econômicos, absorventes de carbono, numa escala inédita no mundo; na agricultura de baixo carbono e alimentos de qualidade, biológicos,  para um mercado cada dia mais exigente; na agregação de valor aos nosso produtos naturais; nas energias limpas eólica e sola,  com armazenamento, intensivas geradoras de empregos. O Estado não vai financiar isso tudo mas tem  no BNDES um instrumento de alavancagem, via garantias para atrair capitais que estão disponíveis pelo mundo afora em busca de projetos sustentáveis, bem feitos e socialmente vantajosos.

 O Brasil tem que fazer valer a decisão, já prevista no Acordo de Paris, do valor econômico do menos-carbono. Num mundo onde acaba de ocorrer uma perda imensa de riqueza, uma nova fonte de riqueza se levanta! Uma vinculada à sobrevivência da humanidade frente às mudanças climáticas. 

Reduzir e sequestrar carbono da atmosfera é o “novo ouro”  que precisamos apreender a garimpar. Era  exatamente o que fazia, com outra terminologia, o virtualmente finado Fundo Amazônia, faturando a redução anual do desmatamento facilmente conversível em menos-carbono. É possível fazer isso em escala macro e o investimento público, inteligente, ser catalizador do capital privado, nacional e internacional. Para isso, porém,  é preciso ter um presidente com credibilidade capaz de unir o Brasil. Certamente não esse aí...

25/04/2020

Pandemia e Pandemônio

 
O virus do Planalto tem remédio
Não sei quando o capitão aloprado é mais patético, quando agride, insulta, ameaça ou quando tem pena de si mesmo e faz um discurso de autocomiseração  em resposta às declarações contundentes do ex-ministro Moro. 

Consigo imaginar a vergonha de parte daqueles ministros agrupados diante daquele chorilho de baboseiras constrangedoras. Só o Guedes (a bola da vez?) usava máscara. Aliás, não vi o favorito Ricardo Salles, o coveiro do meio ambiente. Tava escondidinho? 

 Não, não quero interferir na Polícia Federal mas como eles não interrogaram ainda aquele porteiro? Porque dão atenção mais ao assassinato de Marielle --que a PF não investigou ainda--   do que à conspiração para me matar com a facada do Adélio?  Mas foi esse crime o que  a PF  investigou, mais exaustivamente,  e  concluiu tratar-se de um psicopata solitário.  Que, aliás, ajudou Bolsonaro a se eleger mais que ninguém

 O "mito" confessou que, afinal,  obteve, sim,   um “favor” da PF:  saber do matador de Marielle Franco,  Ronaldo Lessa que, afinal,  sua filha não havia namorado o 04, filho caçula, do presidente. É que o jovem não era capaz de se lembrar porque havia ficado com --havia orgulho na confidência presidencial--  metade das gatas do condomínio,  onde os Bolsonaros são vizinhos do homem que disparou os tiros que mataram Marielle Franco.  

Acaso essa seria uma tarefa da Policia Federal? Perguntar a um preso de segurança máxima se sua filha namorava ou não com o quarto rebento presidencial? Se Bolsonaro já conseguia esse tipo de desvio de função (é obviamente tarefa de advogado) ainda com o Valeixo, que dizer agora, com seu pretendido  controle total? Um diretor geral da PF que fique trocando figurinhas com ele.

 O ministro Alexandre de Morais já blindou, preventivamente, a equipe que mais preocupa Bolsonaro. É óbvio que o capitão aloprado quer abafar as investigações sobre os trolls do Escritório do Ódio do filho 02, no Palácio do Planalto: quem os financia e organiza os atos pro fechamento do Congresso, do STF e propugna novo AI5.  

 Também teme as ramificações dos esquemas dos gabinetes bolsonarianos --rachadinha é o de menos--  com as milícias, inclusive aquela  dos dois executantes do assassinato de Marielle Franco, o Escritório do Crime, de Rio das Pedras, chefiado até recentemente pelo capitão Adriano, do BOPE, morto pela polícia baiana, cuja mãe e mulher foraram lotadas no gabinete do 01, tendo ele próprio  sido condecorado pelo dito cujo com a medalha Tiradentes.  

 Bolsonaro faz juras de austeridade pessoal. Não gasta nadinha do cartão corporativo de 23 mil reais a que tem direto e manda até desligar o aquecimento da piscina do Palácio da Alvorada pra economizar. Isso sim que é ser  honesto!  

 Colocou Moro no governo para capitalizar o lavajatismo e Moro prestou-se a esse imperdoável e triste papel. Agora sai atirando. O ex-prefeito Marcello Alencar, meu saudoso amigo, certa feita referiu-se a um político mordido pela mosca azul: “tem a voracidade do lobo mau e a ingenuidade da chapeuzinho”. Lembra o Moro.  

Como magistrado, comprovadamente,  não foi imparcial e atuou politicamente a favor de Bolsonaro. Caiu no seu canto de sereia, não foi capaz de perceber com quem havia se metido, embora fosse, como diria Nelson Rodrigues, o óbvio ululante. Prognosticam-lhe brilhante futuro político agora que chutou o pau da barraca. Sei não...

 À diferença de outros presidentes que admira: Trump, Orban, Putin, Erdogan, Duterte,  megalômanos funcionais,  Bolsonaro é louco de pedra. Faltam lhe um ou mais parafusos. Aqueles, consituíram maiorias parlamentares e, salvo Trump, têm maioria eleitoral no voto popular.

 Foram habilidosamente controlando as instituições. Trump  corre mais risco mas os outros perigam ficar um bom tempo justamente porque possuem maiorias eleitorais ainda que em eleições condicionadas ou mutretadas e controlam o congresso e o judiciário.

 O governante de perfil psicológico mais parecido com Bolsonaro é Nicolas Maduro o ditador da Venezuela. Ele não possui mais a maioria eleitoral de Hugo Chaves mas reina graças a uma ditadura militar-policial-parapolicial exatamente do tipo que os manifestantes (patéticos gatos pingados) pediam na porta do Forte Apache ao seu caudillo, esse  surrealisticamente de camisa vermelha. O "mito" teve seu momento bolivariano...

Pessoalmente acho mais grave a demissão de Mandetta do que a de Moro. O capitão aloprado surtou contra o ministro Mandetta por ciumeira pura.  Esse vinha fazendo um trabalho, senão brilhante,  pelo menos sensato, ancorado na ciência contra a terrível pandemia que assola o Brasil.  Ao defenestra-lo o "mito" nomeou um débil puxa-saco, um  “sem noção”  desorganizando de vez  nossa caótica resposta ao COVID 19, justamente no momento em que o virus toma embalo e dispara.  

Nosso sistema de saúde pública está claramente entrando em colapso  e isso só tem como piorar com o aumento exponencial de novos casos que Bolsonaro estimula ao promover suas performances contra o isolamento social, o afastamento, as máscaras. Vamos ter muito mais mortos que os 50 mil dos EUA. Perigam serem centenas de milhares. Um genocídio.

Afastar Bolsonaro da presidência o mais cedo possível tornou-se uma questão de segurança nacional e salubridade pública. Há um vírus perigoso no Planalto mas ao contrário do COVID 19 esse já tem remédio. Seus numerosos crimes de responsabilidade serão identificados pelo STF e remetidos ao Congresso. Concordo com o presidente Fernando Henrique Cardoso: o melhor seria que "o mito" renunciasse  para o vice Mourão. É tirar o bode da sala? Vale,  porque o bode é francamente insuportável. Tudo bem que o Mourão seja general e de direita. Parece um homem sensato e mentalmente são. Tem legitimidade.  É o melhor que esse pobre país pode desejar nesse momento atroz.

16/03/2020

Corona: crise e oportunidade

   
No futuro, é provável que historiadores deterministas apresentem a atual pandemia de Corona vírus Covid 19 com seus brutais efeitos econômicos e sociais como “uma vingança” da natureza contra o senhor do Antropoceno, o homo sapiens. Não sou muito dessa escola mas, mesmo assim, vale a pena estabelecer certas correlações entre a sociedade contemporânea, a economia e a mudança do clima com a pandemia. 

Correlações que não são necessariamente de  causa-efeito imediata e se dão dentro de uma teia complexa e intrincada. Vou simplifica-la ao máximo para facilitar o debate. Na origem do vírus está o salto do meio animal para o humano como já ocorreu com inúmeras outras epidemias bacterianas e viróticas. Não sabemos exatamente como o Covid 19 contaminou o primeiro ser humano mas o foco parece ter sido um mercado de Wuhan onde se vendiam animais selvagens. 

 Surgido na China o virus nos remete ao ideograma chinês weiji crise/oportunidade. A pandemia tem consequências climáticas. A curto prazo,  uma delas poderá dar lugar a comemorações descabidas. Esse ano,  as emissões de gases-estufa vão cair em função da brutal recessão que a pandemia provoca, sobretudo na China onde as emissões das usinas elétricas a carvão certamente irão despencar. A retração do transporte aéreo, de industrias, etc... também trarão esse efeito globalmente.  

 Mas nunca é bom comemorar a redução de emissões por causa de recessão porque a posterior retomada, sem uma mutação tecnológica nem mudanças nos padrões de consumo,  costuma ser brutal. Basta olhar para a grande recessão a partir da crise de 2008. É preciso que, dessa vez,  a retomada, quando se der, seja “limpa”. 

 Outra vítima distinta da pandemia é o Consenso de Washington, o receituário de economia clássica feito dogma. Aquilo que a esquerda gosta de chamar de neo-liberalismo. Na verdade a pandemia abala o seu reduto sacrossanto, o "delenda  Déficit Público", esse horror dos horrores. 

 Nas últimas décadas o establishment financeiro internacional, tanto privado quanto público (governos, agencias multilaterais),   fizeram do rigor fiscal seu Santo Graal. A União Europeia com seu limite sagrado  de 3% do PIB e as agencias de “rating” que impõem a países como o Brasil limites arbitrários muito abaixo daquilo  admitido em países europeus,  por uma série de critérios, alguns compreensíveis –histórico de defaut--   outros perfeitamente subjetivos quase exotéricos na sua chutometria.  É uma religião que têm fieis seguidores, entre eles, com devido destaque, o Paulo Guedes. 

 A imprensa aqui não noticiou, mas o presidente francês François Macron deu um golpe mortal –não oficialmente assumido--  na rígida “disciplina fiscal” da UE. Suas medidas de proteção  aos trabalhadores  e às empresas vítimas da recessão provocada pela pandemia mandam para o espaço a “austeridade”. 

 Retomam aquela abordagem dos tempos de depressão e da II Guerra na questão déficit. Franklin Roosevelt era, originalmente,  um ferrenho adepto do “equilíbrio fiscal”, mesmo no início do New Deal,  antes de manda-lo às favas. O investimento público –não confundir com gastança eleitoreira--   permitiu recuperar o capitalismo, ganhar a II Guerra, reconstruir a Europa e garantir os “30 anos gloriosos” do capitalismo com a criação do walfare state  no ocidente. 

 Macron ao garantir recursos do estado francês para compensar os salários dos trabalhadores, submetidos a uma redução brutal da jornada de trabalho e impedir a quebra das empresas,  certamente vai estourar o teto dos 3% e logo, a Alemanha, a mais ferrenha defensora do equilíbrio fiscal –os pobres gregos que o digam—vai acabar entrando na roda também. 

 Do outro lado do oceano, Trump já o fez, só que para dar uma indecente aliviada tributária aos ricaços. Agora vai ter que aprofundar mais ainda o déficit para fazer frente ao tal vírus que junto com Bolsonaro tanto esnobou.  

 Resumo da ópera: quando a poeira baixar  é de se esperar que todos vejam que o rei está nu. O que vale para o Covid 19 deverá valer, muito mais, para a descarbonização. Até porque esse vírus aí  é pinto perto das catástrofes que a mudança climática fora de controle promete à raça humana de aprendizes de feiticeiro.  

28/02/2020

BR-319, o ponto não retorno da Amazônia


   
Publicações científicas vêm alertando que a Floresta Amazônica brasileira que já sofreu um desmatamento próximo de 20% já está se aproximando, aceleradamente, de uma limite  crítico a partir do qual sua função de grande geradora de vapor d’água (tais os “rios voadores”) que distribui chuvas para boa parte do resto do Brasil e do  Continente, ficará comprometida.  Da mesma foram, sua capacidade de absorber de 10% a 15% do carbono globalmente emitido já começa a entrar em colapso. Como nos terríveis anos de seca, de 2005 e 2010, a floresta tornar-se-ia  emissor de líquido de carbono, não mais sua  grande “esponja” natural. Desencadear-se-ia, concomitantemente, um processo de savanização da floresta com um aumento exponencial das queimadas. A perda da biodiversidade seria abissal. 

 O fato do desmatamento ter dobrado,  em janeiro, em relação à 2019, apesar desse ser esse um mês tradicionalmente de chuvas e baixo desmate aponta claramente a tendência de explodir na temporada seca. O “novo normal” deve-se estabelecer num patamar acima de 10 mil km2 capaz de propiciar, num futuro próximo,  uma dinâmica  irreversível em que as emissões se retroalimentam num processo chamado de feadback: a floresta vai perdendo sua capacidade de absorver carbono e suas áreas degradadas passam a emiti-lo.

 O fulcro desse processo será o asfaltamento d BR-319, Manaus-Porto Velho. A estrada existe, desde os anos 70,  e já passa no coração da floresta nas no seu estado precário dificulta a invasão da florestas no seu entorno  por  multidões de grileiros e garimpeiros com capacidade de multiplicar suas “espinhas de peixe”(estradas laterais) e promover a “colonização” de mais um pedaço enorme da Floresta. Isso já ocorre em  Rondônia, em alguns trechos,  o asfaltamento e as concessões florestais por PPI anunciadas pelo governo vão garantir esse resultado. Concessões florestais, em áreas já acessíveis,  não são necessariamente ruins. É possível o manejo sustentável da madeira com uma retirada criteriosa de espécies mas já se criou uma indústria de picaretagem em com derrame de falsas certificações. Com essa bandidagem que orbita em torno desse governo predador e promotor da grilagem e do garimpo ilegais e com o desmantelamento e intimidação dos órgãos ambientais de comando e controle federais tudo é conto de vigário. 

 É uma  tragédia brasileira o fato da obra de asfaltamento da BR 319 ser popular tanto no Amazonas quanto em Rondônia. Há praticamente uma “unanimidade” dos políticos da região e mesmo muitos ambientalistas silenciam, intimidados por ela. Seria um desejo manifestos dos moradores das duas capitais.  Como diria Nelson Rodrigues,  trata-se de uma unanimidade burra.   O asfalto é sonhado como  mirabolante via de progresso e “desenclavamento”, no caso do Manaus,  embora faça pouco sentido do pronto de vista econômico e constitua um desastre ecológico, por suas consequências indiretas,  da mesma forma que foi a  BR- 163, apesar de todas as precauções, regras e das unidades de conservação criadas na época.  Protegida por políticos a sua predação nunca foi contida e só faz piorar. 

  Na verdade há boas alternativas apara o asfaltamento da BR 319: uma ferrovia traria muito menos destruição, faria mais sentido econômico e poderia, inclusive, transportar os veículos, entre as cidades. O upgradeda navegação do rio Madeira, cujo curso é paralelo complementaria.  Seria possível, imediatamente, subsidiar voos diretos Manaus e Porto  Velho, com uma tarifa baixa –paga com créditos de carbono do transporte aéreo internacional--     oferecendo, de lambuja, vauchersde locação de veículo grátis por alguns dias em ambas cidades.  São soluções viáveis, rápidas e muito mais baratas  para melhorar a ligação entre essas duas cidades amazônicas e atender uma aspiração respeitável de moradores não têm conhecimento dessas alternativas. O asfaltamento é a única “solução” que ouviram falar. 

 Desnecessário dizer:  a BR 319 asfaltada vai se deteriorar, rapidamente,  e será um pesadelo de conservação  exigindo vultosos e constantes verbas que dificilmente estarão disponíveis. No entanto, o asfaltamento já terá cumprido seu papel de  promotor de desmatamentos em escala gigantesca o que irão precipitar o dano irreversível temido pelo mundo mas promovido pela barbárie ora encastelada no poder.


16/02/2020

20 anos depois do acidente de petróleo na baia da Guanabara, a realidade do Mangue Vivo

(trecho adaptado do Descarbonário meu proximo livro a ser lançado em maio: )

O famoso Biguá...
Recentemente tivemos o vigésimo aniversário do grande derramamento de óleo na baia da Guanabara por parte da Petrobras. Foi, em janeiro de 2000perto da refinaria Duque de Caxias.  Uma parte considerável dos fundos da baía foi coberta por uma enorme mancha de óleo. As praias da região, já bastante poluídas,  ficaram cheiras manchas do que parecia um piche negro e pastoso. A ilha de Paquetá foi duramente atingida. Os peixes começaram a morrer em massa e as fotos dos biguás, agonizantes, asas cobertos de óleo,  correram o mundo. 

 Não chegou a ocorrer o que antecipou o jornal francês Le Monde, numa monumental e alarmista “barriga”: La maré noire de la baie de Rio menace Copacabana(A maré negra da baía do Rio ameaça Copacabana). A mancha, contida na baía por barreiras flutuantes,   nunca chegou de fato a ameaçar as praias oceânicas do Rio ou de Niterói mas o acidente foi certamente o mais grave da sofrida história da baía e um dos piores do país em todos os tempos.

 Foi também um momento de mobilização da sociedade civil e da imprensa e resultou num raro surto de voluntariado: milhares de pessoas se ofereceram para trabalhar na limpeza das praias e, particularmente, na tentativa de salvar a fauna empesteada de óleo. Jovens de máscara, luvas, balde e escovão, tentavam limpar o petróleo das asas dos biguás e outras aves que saltitavam em agonia na areia sem conseguir mais voar. 

 O movimento ambientalista se mobilizou em protestos cujo alvo era logicamente a Petrobras acusada de falta de cuidados e de planejamento. Aqui no Rio de Janeiro fizemos diversas. Uma delas foi o “abraço” à praia de Ramos.  A Petrobras, na época presidida por Phillipe Reichstul,  de forma inédita, abriu-se para um diálogo com os ambientalistas. Na condição de vice-presidente executivo da Ondazul --o presidente, na época,  era o Gilberto Gil--  participei de várias dessas reuniões.  Do lado da empresa me recordo dos dois principais interlocutores: Rodolfo Landim, que depois fez carreira na iniciativa privada,  e Lia Blower. 




Protesto na Praia de Ramos, da esquerda:  André Correa (que depois construiria o piscinão), eu e Rubem César Fernandes
 Uma parte dos ambientalistas queria apenas “marcar posição” e brigar.  Outros, nos quais me incluí, fazer com que a empresa fizesse uma profunda revisão de seus procedimentos de segurança, desse a maior transparência as suas ações e fizesse uma revisão de sua própria natureza primordial: deixar de se ver apenas como uma empresa de petróleo, passar a se considerar como uma empresa de energia. 

 Embora naquela época alguns passos tímidos tenham sido dados na direção desta última preocupação, com o passar dos anos  não se pode dizer que ela tenha se consagrado. Já nos procedimentos de segurança, alerta  houve, sem dúvida algum bastante progresso. A Petrobras tronou-se mais segura do que no início dos anos 2000. Inevitavelmente,  abriu-se uma outra discussão, a da compensação: a empresa deveria recuperar o ecossistema e de alguma forma indenizar população atingida: pescadores, catadores de caranguejo, moradores dos fundos da baía e de Paquetá. 

  Nessa época realizei um voo de helicóptero sobre a região dos fundos da baía da Guanabara: da Refinaria Duque de Caxias, a  Reduc, de Jardim Gramacho, que acaba de ser reconvertido de lixão para aterro controlado e em volta do qual iniciava-se um projeto de recuperação de mangue, de Magé, o município mais pobre da região,  e de Guapimirim onde subiste ainda um exuberante manguezal protegido por uma unidade de conservação ambiental. 

 Ao sobrevoar Magé pedi ao piloto para circular em volta de duas áreas quem me chamaram atenção.  A da antiga estação da ferrovia que ia até Petrópolis, utilizada por D.João VI para ir ao Palácio Rio Negro –continuava em pé embora o seu píer metálico, junto à praia, estivesse totalmente degradado--  e da praia de Mauá, mais na direção da Reduc e de Jardim Gramacho. 

 A praia de Mauá me chamou atenção pela quantidade inimaginável de lixo. Era o ponto onde as correntes dos fundos da baía carreavam em maior quantidade o que naquela linguagem meio pedante dos técnicos denominam o “lixo sobrenadante”: centenas de milhares de garrafas PET, sacos plásticos, pneus, artefatos de madeira de todo tipo, roupas, sapatos, geladeiras –não as imaginava capazes de flutuar--  bonecas, brinquedos quebrados,  penicos e tudo mais que se possa imaginar. A praia era um vazadouro natural, seus garis, as correntes da baía.  Mesmo sobrevoando a algumas centenas de metros de altura era algo que chamava atenção e indignava. A oito anos da conferência Rio 92 e oitocentos milhões de reais mais tarde,  esse era o saldo do PDBG, o programa de despoluição da baía da Guanabara, anunciado com pompa e circunstância logo após a Conferência quando o governo do estado obtivera financiamentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do banco japonês JBIC para um ambicioso programa destinado a recuperar a baía. 


    Praia de Mauá, Magé, final de 2000, época do derramamento de petróleo.
   Havia não só esse lixo na superfície mas camadas deles enterradas...

 O programa, gerido no estilo tradicional, centralizado, pelo governo estadual e pela CEDAE, fora concebido na forma de grandes obras: estações de tratamento, elevatórias, redes de esgoto, usinas de reciclagem de lixo e, é bem verdade, um programa de educação ambiental que gerou alguns frutos ainda que tenha ensejado  muito clientelismo. A parte “obrera”, no entanto, foi quase uma catástrofe. Parte das usinas de tratamento nunca funcionou direito, outras simplesmente não recebiam esgoto ou recebiam muito aquém de sua capacidade pela falta de redes coletoras (a contrapartida financeira da CEDAE). Em alguns lugarejos a rede afinal fora construída mas a companhia recusara-se a fazer as conexões domiciliares dizendo que eram responsabilidade do “particular”, ou seja os moradores pobres da baixada deveriam eles próprios conectar suas privadas à rede que passava debaixo da rua. A empresa fazê-lo seria nessa ótica um “mau uso do dinheiro público” em benefício de “particulares”.  

 De fato, a poluição na baía, medida regularmente, apresentava melhorias praticamente insignificantes. Houve alguma redução da poluição oriunda de fontes industriais o que naquele momento fora comprometido seriamente pelo acidente de petróleo. No fracasso do PDBG nada despontava tão grave e grotesco quando o problema do lixo. De certa forma o lixo na baía é pior do que os esgotos. Estes,  mal que bem acabam se diluindo no vasto corpo d’agua e, como se diz: “o que os olhos não veem o coração não sente” e o nariz só sente quando estão mais concentrados na fozes dos rios e canais. Já o lixo fica onipresente (e “sobrenadante”) contribuindo a todo momento com essa triste sensação de esculhambação que estimula os incautos e deseducados a jogar mais e mais objetos de variadíssima gama no que transformou-se nesse grande lixão aquático: a baía da Guanabara. 

 Não houve por parte do Estado nenhuma articulação digna do nome com as prefeituras dos municípios em volta da baía, a quem cabe a responsabilidade de coletar e dar destino final  ao lixo. Também não houve trabalho com as comunidades de favelas às margens desses rios e canais  e da própria baía, fontes principais desses resíduos que teria sido possível recolher, na fonte,  evitando que fossem jogados n’água indo terminar na baía e, na maior parte, nos seus fundos, onde se destacava, a praia de Mauá que eu estava sobrevoando.

 Quando o piloto do helicóptero subiu mais um pouco foi possível entender aquela praia no seu contexto ecossistêmico: no passado tudo aquilo fora um imenso manguezal, com algumas praias de areia branca, de Guapimirim até Duque de Caxias. Em alguns pontos o mangue ainda sobrevivia mas ali o processo de degradação fora extremo. Parte do manguezal fora desmatado para queima como carvão vegetal e parte fora fortemente atingido por uma praga que desfolha e seca o mangue. Privadas da proteção do manguezal a praia e a área adjacentes foram invadidas pelo lixo. Esse lixo não se limitava aos montões de cacarecos que  eu avistava desde o helicóptero. Havia, invisíveis,  camadas sucessivas dele enterradas: isso no futuro seria o maior obstáculo para a recuperação da área.

 No momento em que o helicóptero fez a volta, pensei com meus botões: “vamos recuperar esse negócio aí embaixo porque se funcionar ali é prova que conseguimos recuperar qualquer outro ecossistema”. Até a volta ao heliporto da lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, o projeto Mangue Vivofoi tomando corpo mentalmente e eu estava ansioso para compartilhar da ideia com os demais colaboradores do Ondazul e colocar no papel a versão original do projeto para apresenta-lo à Petrobras que assim financiaria a recuperação do ponto mais degradado da baía que recentemente tanto poluíra. 

 A distância entre a ideia de um projeto e sua viabilização é complexa e tortuosa e passa por uma realidade cheia de complicações, obstáculos e armadilhas burocráticas e políticas.  

 Toda essa articulação estava a meio caminho quando, em dezembro de 2000, me afastei da vice-presidência executiva da  Ondazul --permaneceria ainda um certo tempo em um dos seus conselhos--  para assumir a secretaria de urbanismo da prefeitura do Rio de Janeiro junto com a presidência do Instituto Pereira Passos(IPP).   Passei o bastão para uma equipe liderada pela Tatiana Wehb que continuou a negociar o projeto que, no entanto,  nunca deixei de acompanhar,  apoiar  e, ocasionalmente, ajudar a sobreviver diante de muitos percalços.  

  O projeto que começou a ser executado em meados de 2001 teve uma primeira fase tumultuada do ponto de vista burocrático e dificílima in loco. Do lado institucional um resumo do imbróglio: embora negociado com o ministério do Meio Ambiente o projeto teria que ser executado por repasse de recursos oriundos da multa e sob gestão do IBAMA. Os técnicos do órgão ressentiam profundamente o fato de grande parte desses recursos terem sidos alocados para serem executados por entidades ambientalistas e por prefeituras. A má vontade e o boicote tornaram-se uma marca desde primeiro momento, por mais que a cúpula do órgão em Brasília desejasse cumprir a vontade do ministro.  Depois na gestão do PT passou a ser visto como “da gestão anterior”e boicotado mais ainda. 


Abrindo os drenos...

     Assim estava...
   Com parte do mangue recuperado, da esquerda: Rogério Rocco, eu, Adeimantos Silva, Erian Osório e Gilberto Gil

  As dificuldades técnicas eram imensas. A primeira ação fora naturalmente limpar a praia de todo aquele lixo e depois construir uma cerca junto à baía para impedi-lo de continuar se acumulando aí trazido pela maré. Foi quando começou-se a descobrir que o lixo na praia de Mauá não era só aquele da superfície mas que havia camadas sucessivas enterradas e isso dificultava que as mudas de mangue, os “propágulos”, vingassem.  Havia também dúvidas quanto à estabelecer a largura e o espaçamento dos drenos, cuja abertura foi a primeira ação física visível sobre a praia livre das toneladas de lixo que haviam se acumulado na superfície. Foi quando os drenos começaram a ser cavados que revelou-se o lixo subterrâneo. 

Nessa mesma época uma ressaca poderosa destruiu a cerca e boa parte das mudas plantadas e drenos abertos. Nessas alturas o  responsável técnico era o ambientalista Rogério Rocco que, no entanto,  passava boa parte do tempo a administrar a difícil relação com o IBAMA. Não obstante,  no final de 2002, o reflorestamento na praia da Mauá apresentava os primeiros sinais de sucesso, com todo lixo enterrado, ressaca e dificuldades financeiras,  o mangue começava a brotar na área mais próxima à antena de rádio do lado esquerdo da praia. Um viveiro de mudas fora constituído. Tudo aprecia entrar nos eixos graças a essa facilidade notável que o mangue tem de rebrotar mesmo nas condições mais adversas. 

  Eu assistia de longe os abnegados  batalhadores da entidade ambientalista na qual atuara de 1996 a 2000 submetidos a esse processo kafquiano no IBAMA em relação à verba de compensação do desastre na baía. O projeto que eu idealizara na  época do derramamento de petróleo ser condenado a literalmente morrer na praia. Prometi ajuda-los e não deixar que o projeto Mangue Vivo perecer de morte matada pela obtusa insensibilidade desses burocratas e pela mesquinha retaliação política de segundo e terceiro escalão houve um longo litígio, finalmente solucionado por uma decisão cabal do Tribunal de Contas da União em prol do projeto.

 A salvação material deu-se num outro voo de helicóptero. Estava fazendo um sobrevoo da área portuária do Rio de Janeiro onde articulava, como secretario de urbanismo, os primórdios do projeto de revitalização daquela zona. Ao mesmo tempo que desenvolvia no Instituto Pereira Passos dezoito projetos de infraestrutura  que posteriormente foram em boa parte executados no programa Porto Maravilha, eu tentava convencer empresários a investirem na área e levava-os em passeios de helicóptero com meu amigo Rogério Zilberzstein (1)  da RJZ que vinha com o dono da Cyrela,  Eli Horn.  Depois de nossa volta sobre o porto do Rio, perguntei lhe, têm um momentinho para lhe mostrar-lhes algo? 

  Voamos para Magé e mostrei a praia de Mauá. Lá estavam bem visíveis os drenos e a parte do mangue já plantada e recuperada, vimos trabalhando na enxada os dois solitários reflorestadores que o projeto ainda conseguia sustentar, Deus sabe como. Desandei com um discurso sobre a importância dos manguezais,  sobre como seria lindo recompor tudo aquilo que fora degradado no último século de agressão à baía. Expliquei como associar-se àquele tipo de projeto seria  importante para a imagem de uma empresa, coisa e tal. Alguns anos mais tarde consegui o apoio da então Plarcon e da CRT, a gestora da rodovia Rio-Teresópolis, cujo posto de pedágio fica ao lado da entrada para Magé. Depois r3ecebeu apoio do Funbio. Assim o projeto  sobreviveu e continuou avançando cada vez mais pela praia. Hoje são 60 herctares de mangue reflorestado e tudo pronto para implantar-se a infraestrutura de parque, com cerca, sede, passarela suspensa e torre de observação, que, no momento tem dificuldades com a situação “política” em Magé, município paupérrimo e dominado por milícias. 

     Mudas que crescem

O viveiro que serve para outras regiões também.

 Voltando ao mangue. Hoje, vinte anos depois, temos todos esses pés de mangue altos e frondosos, cheios de passarinhos. Pelo chão, antes infestado de lixo, pululam milhares de caranguejos. Olho para toda aquela massa verde, meus pés dentro de botas afundando na lama, e me lembro da discussão um técnico do IBAMA --esse, jovem, do bem--  numa das raras vistorias que o órgão realizou, penso que essa foi nos idos de 2006. 

 Eu vinha fazendo uma série de visitas a Magé, uma delas acompanhado do ex-presidente da Ondazul, Gilberto Gil, então ministro da cultura. Havia um monte de jornalistas e cinegrafistas em volta. Plantamos uns pés de mangue. Naquela época o projeto realizava periodicamente mutirões de plantio de propágulos com estudantes de escolas e funcionários de empresas.  

Numa das visitas fomos tirar fotos de Antonia Erian, a engenheira florestal que coordenava tecnicamente o projeto naquela fase. La estava o Adeimantus, o líder dos reflorestadores, uma figura muito especial que se transformou num ativista ambiental de primeira linha a partir de sua prática de reflorestar e zelar pela área, o “seu” Zé e outros tantos.  Lá estava o viveiro que vai se ampliando gradualmente e já fornece mudas para outras áreas. 

Aí entrei numa discussão com o engenheiro florestal, do IBAMA, foi uma das raras vezes que o órgão foi visitar o projeto.  Veja isso, veja aquilo, conseguimos, né? Ele me olhou meio condescendente,  fez um muxoxo e argumentou: “é... mas tecnicamente o que vocês fizeram tá tudo errado. Não tem a menor racionalidade plantar mangue numa área dessas! Demora muito e sai muito caro. Por que vocês escolheram logo uma área tão difícil, a pior da baía? Deviam ter escolhido outra mais favorável.” 

   Fiquei olhando para ele meio desconcertado e naquele momento percebi exatamente o que ele não estava entendendo com seu olhar supostamente técnico. Respondi na lata: “mas,  cara, é precisamente por isso! Porque era o mais difícil! Escolhemos a área mais degradada do fundo da baía de Guanabara, desmatada por catadores de carvão vegetal, dizimada por uma praga, afetada pelo derramamento de petróleo e coberta de lixo, com camadas de lixo enterradas, foi por isso, precisamente: porque era foda,  porque nossa missão como ambientalistas é recompor um ecossistema degradado e não buscar a área mais favorável para o plantio.  Não estamos aqui fazendo agricultura, nem floricultura, nem reflorestamento econômico: tratamos de recuperação ambiental, lato senso”.  Ele ficou quieto, pensativo.  Vai ver que entendeu, pensei.






[1]Faço questão de aqui render homenagem a Rogério Zilberstein esse querido amigo, brilhante empreendedor e ótimo ser humano que tragicamente pôs fim a própria vida, em outubro de 2018, na véspera da malfadada eleição. 

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