13/11/2019

Fé no Clima: genesis na sinagoga mais antiga das Américas

 
Na Sinagoga mais antiga, na rua do Bom Jesus
Líderes católicos, evangélicos, judeus, afro-brasileiros e indígenas protagonizam um evento multi-religioso  em, defesa do Clima na mais antiga sinagoga das Américas, Kahal Zur Israelna rua do Bom Jesus, próxima ao Marco Zero, no Recife Antigo. Lá de onde partiram, no século XVII, os fundadores de Nova York.  

Fé  No Clima,  foi a gênesis de um movimento ecumênico de mobilização frente a emergência climática. Foi realizado durante a Conferência Brasileira de Mudança do Clima pelo Centro Brasil no Cima (CBC),  Instituto de Estudos de Religião (ISER), e Instituto Clima e Sociedade (ICS), com o apoio da Federação Israelita de Pernambuco (FIPE), presidida por Sônia Sette.

 Teve como protagonistas o rabino Nilton Bonder;  o Padre Fábio Santos;  coordenador da Comissão para o Ecumenismo da Igreja Católica de Pernambuco; o pastor Paulo César Pereira presidente da Aliança de Igrejas Batistas, Mãe Beth de Oxum Jaqueline Xakuru jovem liderança indígena. Participou do evento Karenna Gore, diretora do Center for Earth Ethics, filha do ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore. Ela trabalha com a mobilização ecumênica em defesa do Clima. 

A cerimonia inter-religiosa foi  seguida de um debate com seus protagonistas, no vizinho centro cultural SinsPire, na Praça do Arsenal.

 Não é difícil entender porque essas religiões e outras precisam se mobilizar em torno desse tema a exemplo do posicionamento do Papa Francisco com a encíclica  Laudato Si e o recente sínodo dos bispos da Amazônia. Em todas elas o planeta e sua natureza (a biosfera para os cientistas), seus seres vivos e a humanidade irrequieta e inquieta  que ele carrega têm relação com o Divino, constituem uma criação ou uma existência sagrada, claramente sob ameaça. 

O aquecimento global que se encontra numa trajetória de 4.5 graus, de inferno na terra até o final do século; o extermínio acelerado da biodiversidade e a poluição e acidificação acelerada dos mares são fenômenos óbvios e ululantes.  Em tese, não pode haver religião que permaneça indiferente a isso. Em tese, apenas,  pois o vasto universo neopentecostal que serve de base de sustentação ao atual governo permanece em sua maior parte silencioso mas precisa ser sacudido.

 O ato de Recife foi o primeiro e reuniu lideranças religiosas já muito sensíveis –quando não vítimas diretas--   da devastação. Também tratou da intolerância religiosa que se abate contra, sobretudo os credos afro-brasileiros e indígenas.

 Demos apenas o primeiro passo. A continuação é estabelecer o diálogo com aqueles que ainda não despertaram ou se posicionaram em relação ao Clima. Intuo que seja um caminho mais fácil do que dialogar sobre outros temas. Os próximos passos deverão ser nesse sentido e encontrar interlocutores e afinar os instrumentos de comunicação que sejam os mais eficazes.


 Essas comunidades também precisam também ser sensibilizadas para trabalhar pelo purgatório dos 1.5 graus. O milagre contemporâneo.

Mãe Beth de Oxum, rabino Nilton Binder, Jaqueline Xacaru, pastor Paulo César Pereira e padre Fabio Santos

Fazendo a apresentação do ato ecumênico
Karenna Gore, filha de Al Gore e diretora do Earth Ethics 

Sinagoga 

Sonia Sette da Federação Israelita de Pernambuco dando as boas vindas
Jaqueline Xacuru

Alice Amorim, do ICS
Moema Salgado do ISER
Rabino Nilton Bonder
Pastor Paulo César Pereira, Igrejas Batistas
Mãe Beth de Oxum, afro-brasileiras
Padre Fábio Santos, Igreja Católica

Continuação nas ruas de Recife Antiga
Presença do Cardeal de Recife e Olinda



30/10/2019

Esperança, incompetência e “colapsologia”


Acabo de regressar de uma viagem relâmpago à Paris onde assisti a reunião sobre novos instrumentos financeiros para a descarbonização do One Planet com o Fundo Verde do Clima, no ministério das finanças da França e fiz uma visita à Agencia Francesa de Desenvolvimento para tentar apoio para uma projeto de destilação de biodiesel com caroço de açaí, no Amapá. 

 Na reunião do One Planet o tema era blended finance que, trocado em miúdos,  vem a ser a participação de recursos públicos (governos, bancos centrais, bancos de desenvolvimento) para alavancar para projetos de descarbonização uns 60 trilhões de dólares de investidores de longo prazo, tipo fundos de pensão, que estão praticamente perdendo dinheiro com os juros baixos e até negativos mas que para irem para o investimento produtivo descarbonizante (energias limpas, reflorestamentos gigantes, agricultura de baixo carbono, biocombustíveis, eletrificação de transportes, etc...) querem garantias que reduzam seu risco. Na verdade é a discussão dos “fundos garantidores” e o sujeito oculto da mesma é sempre a questão do valor econômico do menos-carbono. 

 De Paris, segui à Roma para a reunião dos governadores da região amazônica, no Vaticano, um dia depois do final do Sínodo Papal, na   Pontifícia Academia de Ciência do Vaticano,. Participaram governadores da região amazônica, tanto do Brasil quanto de países limítrofes. 

Veja o video

Presentes os governadores do Amapá (presidente do consórcio dos estados amazônicos) Valdes Gois, do Amazonas, Wilson Lima, do Piauí, Wellington Dias, do Pará, Elder Barbalho e do Maranhão, Flávio Dino. Presente também o ministro de meio ambiente da Colômbia Ricardo Lozano e os governadores do Peru: de Huanuco, Juan Cornelio,  San Martin, Pedro Vargas,  e Ucayali,Francisco Torres. 

Os trabalhos foram coordenados pelo Monsenhor Roberto Sorondo Chanceler da Pontifícia Academia de Ciências. 


Monsenhor Sorondo e seu carro elétrico

 Da sociedade civil participamos o  Virgilio Viana, da FAS, um dos organizadores do evento, André Guimarães do IPAM, Mauricio Bianco, da Conservation International e Rosa Lemos, do Funbio e eu, pelo CBC.

  O ministro do meio ambiente brasileiro Ricardo Salles, cuja presença fora anunciada dias antes,  não deu as caras. "Uma ausência que preencheu uma lacuna", ironizou um dos presentes. 

O governo federal foi representado pelo Secretário de Soberania e Cidadania do Itamaraty, Fábio Marzano,  que exerceu uma difícil missão de contorcionismo diplomático  ao concordar com a maioria das conclusões do Sínodo, elogiar o papel histórico e as realizações climáticas do Brasil --nos governos anteriores, portanto--  e garantir que o governo Bolsonaro zelava rigorosamente pelo meio ambiente. Ele forneceu uma minuciosa relação de operações de fiscalização que teriam sido realizadas nas últimas semana contra grileiros e garimpeiros e anunciou a redução de queimadas, em setembro.

  Lembrei-lhe que o desmatamento de setembro 2018 a setembro 2019 aumentara de 222% segundo estimativas preliminares do DETER mas considerei as operações listadas por Marzano "uma boa noticia, se de fato se revelar exata". 

 O tom geral dos governadores foi de levar em conta com seriedade a questão climática, defender a floresta em pé e afirmar a necessidade de mecanismos sustentáveis de desenvolvimento. Barbalho afirmou que “a floresta em pé é um ativo”, defendeu a necessidade da regularização fundiária e garantiu que não havia nenhuma necessidade de mais desmatamento para aumentar significativamente a produção agrícola e pecuária”. Wellington Dias levantou a questão do pagamento de serviços ambientais.

 Flavio Dino criticou o discurso de “soberania” quando usado como álibi para variadas agressões ambientais. Valdes Gois levantou a questão de remuneração do estoque de carbono nas florestas e todos defenderam a (inviável, penso) continuidade do Fundo Amazonia sem detrimento de fundos estaduais que poderão ser criados. 

 A Igreja Católica esteve presente através do Monsenhor Roberto Sorondo e dos careais Claudio Humes e Pedro  Barreto que reafirmaram o posicionamento do Papa Francisco e a declaração do Sínodo.

 Reafirmei o papel central dos estados nesse momento em que o governo federal vem promovendo retrocessos e o desmonte de décadas de construção ambiental e climática: “os estados precisam assumir a liderança do processo. A comunidade internacional precisa criar mecanismos financeiros de pagamento por serviços ambientais, precificação positiva do carbono e garantias para investimentos na descarbonização”. 

 O documento aprovado pelos governadores brasileiros --Valdez e Flavio Dino alavam também em nome dos consórcios do norte e nordeste--  e peruanos ficou bem alinhado com as conclusões dia sínodo. A declaração final foi bastante afirmativa (ver abaixo) e os governadores, brasileiros e peruanos empunhar juntos nossa faixa de “Governadores pelo Clima”. 



 Foi dado um passo na estratégia que buscamos de fazer avançar as coisas pela esfera subnacional já que no âmbito federal não conseguimos sair desse circo de horrores do qual a mais recente ilustração é o mega derramamento de petróleo que o governo não consegue enfrentar com um mínimo de competência e sequer identificar a origem.

 Vejam: a análise química dos restos permite saber o tempo de permanência no mar, a análise das correntes determinar a zona aproximada do derramamento e o monitoramento de fotos de satélites os navios que estavam na zona naquele período. Um trabalho de inteligência banal. Não são capazes...




 O colapsólogos

 As notícias crescentemente preocupantes da ciência com os relatórios do IPCC e outros apontam para uma evolução deveras dramática e assustadora da questão climática.  Vamos numa trajetória que leva a 4.5 graus ao final do século, no tempo de vida dos nossos netos, que é literalmente o inferno na terra. 

 As NDC anunciadas no Acordo de Paris, religiosamente cumpridas levam a mais de 3 graus, também inferno,  mas a tendência atual é ficarmos além. A janela de oportunidade para 2 graus está se fechando rapidamente e para 1.5 mais ainda. A situação política global piorou muito desde 2015. Há, por outro lado, uma revolta que vai se espalhando mas que não consegue, até agora, articular nem alavancar caminhos de transformação. Um protesto sem consequência para além de desopilar o fígado.

 Nesse contexto surge a corrente dita dos “colapsólogos” que antecipam nada menos que o apocalipse dentro de uma ou duas gerações. Meu amigo Yves Cochet, ex-ministro do meio ambiente da França no seu livro "Devand le effondrement,  Essa de callapsologie" prevê a morte metade da humanidade até 2035. Várias outra obras nesse sentido estão sendo publicadas. Misturam a crise climática, com a ascensão do fascismo, dos conflitos étnicos, futuras guerras nucleares, colapso da agricultura e mais umas tantas desgraças. 

 A esse pensamento corresponde induz à ação de movimentos como o Extinction Rebellion, esse jovens ingleses que tentam “paralisar” a economia colando a bunda no asfalto. Me recordo da manifestação climática no final de 2018, em Paris,  com uma cacofonia de grupelhos e palavras de ordem e uma presença considerável de gilets jaunes ativistas de uma revolta fascistóide contra a taxa de carbono. Misturados com os ecologistas radicais todos irmanados “contra o sistema”.


Um gilet jaune contra taxar o carbono... numa manifestação pelo clima

 Inclusive, estão em países de emissões comparativamente baixas cuja influência sobre o clima global é pouco efetiva embora possa contribuir e muito em termos de financiamento e tecnologia. 

 Isso é uma realidade objetiva, não adianta xingar os governos nem infernizar a vida dos outros cidadãos indo ao trabalho. Precisam entender seu ativismo sob uma ótica global. Façam algo de útil! Criem uma criptomoeda baseada no valor do menos-carbono! Popstars  e hackers de todo planeta mobilizem-se para capitalizar o menos carbono!!! Enquanto o valor econômico do menos-carbono não estiver no centro da criação de valor na economia sera difícil alavancar uma descarbonização drástica. Acabar com o carvão e o desmatamento, reflorestar numa escala nunca dentes vista e deixar boa parte do petróleo debaixo da terra ou do mar como stranded asset (com valor econômico enquanto tal). 


 Filósofos do apocalipse, masoquistas e narcisos,  que protestam para os seus próprios selfies, querendo apenas “se colocar” sem se interrogar sobre a eficácia prática de suas ações, não são os resistentes ao apocalipse. São simplesmente  seus arautos trombeteiros. Sinceramente, não tenho saco para essas babaquices.

 É possível mesmo que estejamos rumando para tempos ecológica, política, cultural e socialmente apocalípticos. Vamos então resistir, reverter o caldo ou morrer tentando mas com políticas de descarbonização bem focadas e plausíveis, sabendo trabalhar as instituições, influenciar o mundo produtivo, promover uma revolução cultural financeira e defendendo a democracia, buscando fazer a cabeça das pessoas e juntar maiorias. 


PS - O anúncio do cancelamento da COP 25 em Santiago por causa dos distúrbios é um ato de covardia do presidente Piñera que espero seja revertido. Esses distúrbios tornaram-se muito frequentes na era das redes sociais mas -- excetuada Hong Kong-- não tendem a se prolongar muito e haveria tempo para acalmar as coisas até dezembro. Realizar a COP na Costa Rica, que postulava,  ou em Bonn, onde é a sede da UNFCCC,  vai tomar meses e tempo é o que não temos,  muito embora as negociações da ONU produzam apenas um efeito limitado: pequenos avanços incrementais dentro do  mínimo denominador comum possível no consenso de 196 governos.