31/05/2020

Descarbonário teaser 2: Negacionismo e inércia

Continuo postando alguns trechos do meu novo livro Descarbonário a ser lançado no Rio no dia 18 de junho, virtualmente mas com todo o ritual de um lançamento em livraria. 

O trecho de hoje trata do negacionismo climático e da inércia. Embora ataque eu sacaneie o negacionismo acho a inércia um inimigo pior.  A inércia dos governos, agentes econômicos e grande parte da sociedade. Ela é  ditada pela "tragédia dos bens comuns" --o que afeta a todos mobiliza menos do que aquilo que afeta a uma minoria compacta, concentrada, com interesse econômico imediato. Uma boa discussão. Confira:



Negacionismo e inércia

Desde os anos noventa, trava-se nos Estados Unidos, mais do que em qualquer outro país, um embate político com o chamado negacionismo que, hoje, ao final da segunda década do século XXI, tornou-se novamente política oficial na administração Donald Trump.

 Na Europa, tanto a direita quanto a esquerda aceitam melhor a ciência a respeito, e o negacionismo climático sensibiliza apenas uma franja de opinião diminuta, ridicularizada, cujo símbolo mais apropriado é o avestruz enterrando a cabecinha na areia para fugir do perigo. Margaret Thatcher, John Major, Jacques Chirac, Helmut Kohl, Nicolas Sarkozy e Angela Merkel foram todos líderes da direita europeia que, em diversos momentos, mobilizaram seus governos a fim de tomar posições proativas face ao aquecimento global. 

  Nos Estados Unidos, inicialmente, também havia certa concertação bipartidária sobre o tema, mas uma ação concentrada, fartamente financiada e corruptora, orquestrada pelos lobbies do carvão e do petróleo, logrou transformar o Partido Republicano e suas maiorias parlamentares em sólidos bastiões do negacionismo climático.

É uma repetição contemporânea da ação daqueles médicos pagos pela indústria do tabaco para irem aos programas de TV, em preto e branco, dos anos cinquenta e sessenta a fim de sustentar, categoricamente, que não havia provas seguras do nexo entre o cigarro e o câncer de pulmão.

Dentre os negacionistas climáticos, uns fingem que o aquecimento global simplesmente não existe. Outros o admitem como decorrente de ciclos naturais, mudanças no eixo da Terra, vulcanismo, raios cósmicos, não havendo nada a fazer a não ser se adaptar. Negam qualquer responsabilidade antrópica. 

Outros, ainda, reconhecem que o fenômeno existe, é provocado pela ação humana, mas consideram tarde demais para ser confrontado. Se já estamos ferrados mesmo, relaxe e aproveite, porque suas consequências serão suportáveis  no período das nossas vidas e as futuras gerações irão dar um jeito de se virar de alguma maneira. Certamente vão inventar alguma tecnologia para chupar o CO2 da atmosfera ou alguma solução de geoengenharia para esfriar o planeta. Por isso não há razão para deixarmos de queimar o carvão barato e a gasolina farta, e desmatar à vontade. Bom proveito.

Nos Estados Unidos, os negacionistas são poderosos. Estão muito bem organizados e têm amplos recursos. Seus mais eminentes financiadores foram os irmãos Charles e David Koch, o último recentemente falecido, cujas indústrias emitiram 24 milhões de toneladas de CO2 em 2011. Os políticos negacionistas apoiados por eles em suas campanhas eleitorais conquistaram influência preponderante no Partido Republicano. 

Fortes no Congresso norte-americano, impediram, em diversas ocasiões, restrições a emissões de gases de efeito estufa. Barack Obama teve que impô-las por decreto. A eleição de Donald Trump e sua decisão de desmontar o legado de Obama e as regulações da agência de proteção ambiental federal norte-americana (EPA), além do anúncio de que se retiraria do Acordo de Paris (legalmente  em 2020), deu novo alento ao negacionismo, mas também à reação em sentido contrário que mobiliza como nunca governos de estados e cidades, empresas e a juventude em defesa do clima.

Negacionistas “de esquerda” também existem. No Brasil, há alguns anos, eram liderados pelo então deputado comunista Aldo Rebelo. Para eles, tudo não passava de uma conspiração imperialista para impedir países emergentes de se desenvolverem economicamente. Uma fraude, nessa versão, não dos chineses, como garante Trump, mas do bom e velho imperialismo ianque ou de ONGs estrangeiras que querem nos roubar a Amazônia (nisso coincidiam com o discurso da extrema-direita). Embora suas narrativas sejam bastante variadas, o que os negacionistas climáticos têm em comum é uma feroz hostilidade à qualquer redução emissões dos GEE que imponham restrições ou obrigações às indústrias de carvão, petróleo ou automotiva ou que impeçam o desmatamento.

É compreensível que sindicatos de trabalhadores de minas e usinas térmicas a carvão possam se identificar com os interesses dessas indústrias, da Polônia à Pensilvânia, passando pelo Rio Grande do Sul. Trump cultivou politicamente essa revolta carvoeira em nome da defesa de seus postos de trabalho, mas a verdade é que hoje a energia solar nos Estados Unidos cria muito mais empregos, sem a poluição e as terríveis condições de trabalho das minas. E o uso do carvão continuou a cair no seu governo, por razões de mercado.

É certo, no entanto, que um contingente de trabalhadores do carvão perde com a descarbonização. A mesma ameaça se antecipa na indústria do petróleo, muito mais poderosa, mas cujos limites históricos também já se perfilam no horizonte embora num prazo mais dilatado. Uma ação inteligente em defesa do clima precisa levar em conta tais realidades sociais, saber apresentar alternativas econômicas palpáveis e programas de reciclagem socioprofissional, dar-lhes um tratamento sério e respeitoso – e até uma confortável aposentadoria –, evitando o puro e simples abandono desses trabalhadores, empurrando-os para o lado dos negacionistas e da extrema-direita. É preciso também começar a discutir com as companhias de petróleo saídas financeiras para seus futuros stranded assets (recursos imobilizados) à luz da atribuição de valor econômico às emissões evitadas, uma discussão que abordarei mais adiante.

Alguns negacionistas climáticos são acadêmicos ou jornalistas em busca de seus 15 minutos de fama. A mídia em vários momentos lhes deu guarida, à guisa de “ouvir os dos lados”,  contribuindo para anos a fio de imobilismo governamental. Em diversos momentos, passou a impressão de que existiria uma real controvérsia científica. Não existem “dois lados” de uma legítima polêmica científica: mais de 98% de todos os textos publicados em revistas científicas e o consenso avassalador entre cientistas de mais de 120 países, no IPCC, atestam que o aquecimento global é provocado por poluição de gases de efeito estufa de origem humana e constitui uma ameaça existencial que ainda poderá, eventualmente, ser mitigada.

Mais recentemente, a falsa controvérsia saltou para as redes sociais onde se consegue veicular, com amplitude, todo tipo de baboseira embalada em memes com alguma frase de efeito agressiva. Os negacionistas têm companhia. Cresce na internet a família dos defensores do terraplanismo. Para eles, a chegada do homem à Lua, em 1969, com Neil Armstrong e a famosa foto da Terra vista do espaço são fakes, e é mister restaurar a verdade cristã da gloriosa Idade Média: tremei hereges, a terra é plana como um disco de frisbee!

A suposta controvérsia acaba fornecendo um álibi confortável para outros governantes: “Bem, vejo que aqui há polêmica; uns dizem uma coisa, outros dizem outra. Enquanto não houver uma conclusão, é melhor não fazer nada.” Sobretudo quando fazer algo signifique machucar o bolso de interesses aliados…

Na verdade, no entanto, o negacionismo climático não é, nem de longe, o maior obstáculo político a ser vencido. É o  insustentável peso da inércia, a longa e sinuosa distância entre a urgência de uma “descarbonização” drástica e a lentidão com que ocorrem as mudanças na economia, nas finanças, na governança e na própria sociedade em sua cultura de consumo, tanto nas democracias quanto nos regimes autoritários. O sistema econômico mundial continua essencialmente formatado para depender dos combustíveis fósseis e para financiá-los carbonizando mais e mais a atmosfera.

Isso resulta da chamada tragédia dos bens comuns, do clássico drama dos interesses difusos. O que a todos pertence, difusamente, mobiliza menos do que aquilo que afeta o interesse concentrado de alguns poucos poderosos. Na sociedade há segmentos empresariais, estatais, de classe média e de trabalhadores sindicalizados e setores automobilistas que se sentem ameaçados pelo fim do subsídio ao combustível fóssil ou pelo fechamento de uma usina termoelétrica a carvão. Isso ficou patente nas revoltas contra a taxa de carbono na Austrália e na França. Percebemos que esse problema existe até em um dos países que mais avançou em energias limpas, como a Alemanha.

A Alemanha já produz quase 30% de sua eletricidade a partir dessas fontes, mas o carvão ainda responde por 45% de sua geração elétrica. Subsistem, sobretudo na antiga Alemanha Oriental, milhares de trabalhadores em minas de carvão, linita ou jazidas a céu aberto. O país continua dependendo dele para gerar energia, sobretudo depois de ter decidido, precipitadamente, na sequência do acidente de Fukushima, antecipar o descomissionamento de suas usinas nucleares para 2022. Já em 2019, anunciou que fecharia sua última usina a carvão apenas em 2038!

O carvão  representa os primórdios da industrialização e da civilização moderna: um passado hobbesiano, cruel, da humanidade. Da vida curta, árdua e insalubre. Ainda hoje as minas de carvão apresentam uma taxa de mortandade elevadíssima. As vítimas de grandes acidentes em minas continuam a se acumular na China e em outros países. Sua forma de poluição do ar é a pior de todas. Provoca doenças respiratórias em populações inteiras. Dentre os maiores utilizadores de carvão da atualidade estão a China, Estados Unidos, Índia, Japão, Rússia, África do Sul, Coreia do Sul, Alemanha, Polônia e Indonésia.

Em 2017, as emissões de energia por queima de combustível fóssil voltaram a subir em 3%, em decorrência do uso maior por parte dos chineses das suas usinas a carvão em um ano de secas. A falta de chuva que prejudica a geração hidrelétrica tende a se tornar mais frequente no futuro, por causa da queda da vazão dos seus rios provocada pela mudança do clima. Aquilo que se esperava ter sido apenas um ano de inflexão foi seguido por um novo aumento de emissões por queima de combustíveis fósseis em 2018.

Nos Estados Unidos, onde as emissões das térmicas a carvão continuaram se reduzindo pela queda no consumo, em 2018 um considerável aumento das atividades na indústria e nos transportes acabou produzindo o primeiro aumento de emissões totais em onze anos.

O total de missões de 2017 chegou a 53,5 Gt de carbono equivalente, 49,2 Gt correspondeu à queima de combustível fóssil. Em 2018 houve um aumento de 2,7%. Em relação a 2019, os primeiros dados indicam novamente uma estabilização de emissões relacionadas à queima de combustível fóssil. Nesse ano houve forte aumento de desmatamento e incêndios florestais gigantescos na Rússia, Brasil, Indonésia e Austrália, ainda não devidamente computados quando escrevo. 

A recessão causada pela pandemia COVID 19 certamente reduzirá as emissões de CO2 por queima de combustível fóssil, em 2020. Haverá uma queda estimada, no momento, em 6% ou 7% dessas emissões. No entanto, aquelas por desmatamento podem não ser afetadas. Comparando abril de 2020 com o mesmo mês do ano anterior, ocorreu um aumento de desmatamento na Amazônia de  64%, por exemplo. (161% pelo Imazon)

30/05/2020

Descarbonário teaser1

Estou divulgando pequenos trechos do meu livro Descarbonário como teasers. O livro vai se lançado no dia 18 de junho por via virtual. 
Aqui falo sobre umas histórias à margem da Conferencia do Climate Bali, em 2007.

Kuta

Bali é um exuberante jardim à beira-mar plantado, com muitas estátuas e construções de uma arquitetura hinduísta, como é a maioria da população. Bali destoa, dissonante do resto da Indonésia, país/arquipélago de grande maioria muçulmana que estava, naquele momento, submetida à forte pressão do islã integrista. Aquelas estatuetas de deidades hinduístas – para os islâmicos, uma manifestação de idolatria –, aquele clima sensual, quase promíscuo, no ar, com as revoadas de jovens ocidentais tatuados com seus biquínis, suas bermudas coloridas e suas bandanas.

Fora, durante muito tempo, o paraíso dos surfistas australianos, gringos e brasileiros, mas, em outubro de 2002, conhecera sua noite no inferno. Naquele quarteirão apinhado de gente junto à praia de Kuta, onde, cinco anos mais tarde, eu passaria meu aniversário pegando jacaré, explodiram duas potentes bombas da Jamaah Islamya, grupo vinculado à Al-Qaeda. Mais de 202 pessoas morreram naqueles barezinhos perto da praia – para os terroristas, antros de prostituição e pedofilia dos apóstatas. No local do atentado, onde tomei uma caipirinha brasileira, havia uma placa de metal com uma extensa lista das vítimas. Era difícil imaginar aquele beco luminoso e aprazível naquela noite terrível, coberto de pedaços de corpos humanos, poças de sangue e gemidos.

O ataque prejudicou gravemente o turismo da ilha. O ressentimento dos balineses contra quem tão fortemente impactara seu modo de vida e sua principal fonte de renda ainda era o papo mais insistente dos motoristas de táxi naquele trânsito caótico, dominado pelas motos. Bali utiliza a mão inglesa, mas o volante dos carros é do lado esquerdo. Depois de quase ser atropelado duas vezes, passei a ter mais medo dos enxames de motocicletas do que dos asseclas de Osama Bin Laden. Embora alguns colegas temessem novos atentados durante a COP e ficassem cabreiros, de olho nas mochilas de rapazes de barba, eu confiava na minha boa estrela. Simplesmente não ia acontecer.

Não que a segurança indonésia, conquanto ostensiva, fosse lá grandes coisas. A caminho de Bali, no LAX, o aeroporto de Los Angeles, vi um aviso do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos advertindo que o aeroporto de Denpansar, em Bali, era inseguro e a visita dos cidadãos norte-americanos, fortemente desaconselhada. De fato, o aeroporto lembrava um pouco o antigo Galeão dos anos sessenta. A parafernália de segurança da Conferência do Clima foi acoplada a essa estrutura arquitetônica tosca que não a favorecia. A pista do aeroporto ficava a poucos metros do mar. O controle era burocrático e plácido, e os policiais, afáveis, relax.

Em diversos pontos no trajeto para o Centro de Conferências e nos hotéis, passávamos por bloqueios policiais. O táxi ficava parado naquele calor úmido de sufocar. Usavam uns detectores de metais e, em alguns casos, cães farejadores. Revistavam burocraticamente os porta-malas dos automóveis. Não pude deixar de imaginar como agiria um terrorista suicida. Chegaria limpo, teria um cúmplice no estacionamento do aeroporto com um jaleco bomba localmente fabricado. Ninguém perceberia. Nada o impediria de se explodir no bar onde servem aquelas caipirinhas legitimamente brasileiras ou na casa de massagens ao lado da rua onde ninfetas “hindunésias “ esfregavam com essências exóticas turistas australianos, vermelhos como camarões.

O lado paradoxal daquela relaxada e permissiva ilha   era, naturalmente, a política de drogas imposta por Jacarta, a ferro e fogo, para todo o arquipélago. No controle de imigração do aeroporto, havia uma placa em inglês, curta e grossa: a posse de drogas é punida com death penalty, pena de morte. Alguns anos mais tarde, dois surfistas brasileiros desavisados, com cocaína em suas pranchas, terminariam executados. Fiquei pensando que Kuta merecia um joint. Custava a crer que, de fato, se enforcassem os maconheiros. De qualquer modo, era mais prudente restringir-se à caipirinha no bar dos terroristas do que queimar um baseado ao pôr do sol na praia.

Fumaça mesmo, ali na praia de Kuta, só daquela pira fúnebre. Depois de pegar umas ondas, fui caminhar pela areia com duas jornalistas da França, uma brasileira e uma uruguaia, com quem fizera amizade. Logo nos deparamos com um grupo montando uma alta fogueira. No topo, em uma maca, cercada de muitas flores, a falecida: idosa, miudinha, de cabelos brancos, vestido azul de renda, colares e pulseiras. Os familiares e amigos, enlutados, todos bem vestidos – alguns de terno e gravata, a maioria em trajes locais –, animados, plácidos, sorridentes, aguardando. Alguém produziu um facho com o qual acenderam a base da pira. Logo, as labaredas subiram. Em poucos minutos tivemos a oportunidade de assistir a uma cremação ao vivo com direito a odor de churrasquinho queimado. A poucos metros dali, os surfistas ciscavam pela espuma das ondas.

No final, teve de tudo na Conferência de Bali. A volta não prevista do então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon; o choro de seu representante, Yvo de Boer; a vaia do resto do mundo à diplomata do Departamento de Estado norte-americano, Paula Dobriansky: sua obstrução, depois recuo; a Índia cantando de galo na última hora; e, afinal, como não poderia deixar de ser, um consenso diplomático meias-tintas consagrando o mínimo denominador comum. No mais, o folclore. Rodava por Bali um taxista holandês dando a volta ao mundo com seu esquisito carro solar. Parecia uma velha Romiseta puxando um burro sem rabo com painéis fotovoltaicos. A imagem daquele taxista solar com seu jeitão hippie permaneceu na minha memória, por alguma razão, como imagem marcante, além da pira fúnebre da velhinha de Kuta e da bronca de Al Gore no plenário da COP 13.



28/05/2020

Descarbonario apresentação sumário do meu novo livro

VEJA O VÍDEO


Descarbonário é um livro sobre as andanças e peripécias no universo dos que lidam com um dos mais graves problemas da humanidade: as mudanças climáticas. Alfredo Sirkis é dos percursores da causa ambientalista no Brasil.  Ele explica a crise climática global e seus reflexos aqui e no resto do mundo. É uma narrativa em primeira mão de quem participou como membro da delegação brasileira e personalidade ambientalista, das diversas conferências internacionais. 

 Mas o Clima é simplesmente o pano de fundo de uma  narrativa ágil de idas e vindas, com as muitas histórias e causos do autor.  Narra episódios que viveu na política brasileira, nos últimos 30 anos, ao curso de variados governos  inclusive sua quixotesca campanha presidencial, pelo Partido Verde, em 1998. Conta suas experiências como secretário de meio ambiente e urbanismo do Rio,  “pai das cicloviais cariocas” e impulsionador dos mutirões de reflorestamento.  

 Dá sua visão sobre temas de grande atualidade: campanhas eleitorais, funcionamento do Congresso, escândalos de corrupção, a Lava Jato, questões comportamentais, ascensão e queda da esquerda, ressurgimento e vitória a extrema-direita. A abordagem é feita de um ângulo pouco convencional com uma visão fortemente independente e entremeada de causos divertidos ocorridos no Brasil e em outros países por parte de um muito viajado e experiente observador da história contemporânea.

 Adota uma posição de “centro radical” crítico aos enormes erros cometidos pelo PT mas de opositor feroz do descalabro ambiental e humano do bolsonarato. Também discute alternativas para uma recuperação econômica pós-depressão COVID19. Registra a falência do modelo de financeirização neoliberal e a necessidade de um tipo de  ação do estado que ajude a promover um novo ciclo de desenvolvimento sustentável, descarbonizante e gerador de empregos que, ao mesmo tempo, tire a burocracia opressiva de cima das empresas. Defende um mecanismo de financiamento da descarbonização produtiva na qual o menos-carbono(reduzir ou remover carbono da atmosfera) seja o “novo ouro”. 

  A narrativa nos conduz pelos subterrâneos da gelada Montreal, da quente e úmida Bali, por Varsóvia e PInsk –onde revisita sua história familiar-- , Durban, Joahnesburgo, Lima, Paris, Havana, Pequim, Xangai, Dalian, Varsóvia, Bogotá,  Bonn, Los Angeles,  Nova York e outras cidades que visita com seu olhar de repórter e agudo analista de conjunturas políticas. Há diversos episódios com os personagens mais díspares da política brasileira como Leonel Brizola, Fernando Henrique, Dilma, Marina Silva, Michel Temer e  Bolsonaro.  

 É um livro de ação e reflexão que tem o Clima como pano de fundo sobre o palco das paixões políticas dos últimos 30 anos, um balanço de tempos conflitivos de uma democracia hoje ameaçada pelo caos vindo do Planalto.  Coincide com 40 anos do lançamento do best seller e Prêmio Jabuti, de 1981,  Os Carbonários, relançado como áudio book e e-book. 

01/05/2020

A economia pós-corona, o menos-carbono como novo ouro



As consequências econômicas da pandemia serão dramáticas em todo mundo e, particularmente, no Brasil. Que fazer?  Ocorre um choque entre a visão patrocinadas pelos militares do Palácio do Planalto, o pró-Brasil --um pano de obras públicas que chegou a ser comparado ao New Deal--  e aquela do ministro da Fazenda Paulo Guedes --o solitário de máscara-- temendo um rebrote neodesenvolvimenta/estatista.

 A estratégia de Guedes da política clássica de austeridade para devolver confiança e atrair capitais nacionais e, sobretudo, internacionais  já vinha mal das pernas. Foi para o espaço sideral com a pandemia. O paradigma de rigoroso controle do déficit simplesmente virou suco. Países centrais estão apostando em endividamento de 300% do PIB e volta do tipo de tratamento do déficit dos tempos do New Deal, da II Guerra e do pós-guerra, de onde vem a lembrança do Plano Marshall. 

 Homens do capital financeiro como Guedes estão atônitos com essa situação não têm a menor ideia de como continuar brandindo sua ferramenta favorita, a tesoura.  Não percebem o quanto a pandemia explodiu todo o paradigma do capitalismo “financiarizado”:  globalização extrema, o movimentação vertiginosa dos capitais especulativos, sua relativa desvinculação de investimentos produtivos e sua capacidade de colocar de joelhos os governos nacionais. 

Há certamente um renascimento de Lord Keynes, da ação intervencionista do estado --de diversas maneiras, nem todas amigáveis à finança--   e  isso ocorre em países governados tanto pela esquerda como pela direita (atualmente a maioria). 

 Isso não dá razão, automaticamente, aos militares do Pro-Brasil. Sim, o Brasil vai necessitar desesperadamente do seu Estado, inclusive como agente econômico mas não  da velha e surrada estratégia nacional-desenvolvimentista de Geisel à Dilma. Do Estado num novo paradigma que consiga enxergar onde está de fato o potencial do país e qual o tipo de investimento público e de infraestrutura que vai de fato funcionar, pois sabemos de sobra, também de Geisel a Dilma, que ele facilmente pode ser desastroso.

 Há um ingrediente patético nessa fé do Brasil que seu futuro está no petróleo e na carne. O petróleo, independentemente da queda atual,  não emplaca mais 20 anos com a decisão da indústria automotiva global de se eletrificar. Já a carne, sinto comunicar aos ruralistas,  mais rápido do que se imagina prescindirá da boiada e do pasto. Está sendo fabricada sinteticamente com o mesmo gosto e barateando exponencialmente. Isso vai conquistar o mundo, inclusive a China. Aguardem.

 Nosso potencial está na biotecnologia, na produção de energia por biomassa, em reflorestamentos naturais e econômicos, absorventes de carbono, numa escala inédita no mundo; na agricultura de baixo carbono e alimentos de qualidade, biológicos,  para um mercado cada dia mais exigente; na agregação de valor aos nosso produtos naturais; nas energias limpas eólica e sola,  com armazenamento, intensivas geradoras de empregos. O Estado não vai financiar isso tudo mas tem  no BNDES um instrumento de alavancagem, via garantias para atrair capitais que estão disponíveis pelo mundo afora em busca de projetos sustentáveis, bem feitos e socialmente vantajosos.

 O Brasil tem que fazer valer a decisão, já prevista no Acordo de Paris, do valor econômico do menos-carbono. Num mundo onde acaba de ocorrer uma perda imensa de riqueza, uma nova fonte de riqueza se levanta! Uma vinculada à sobrevivência da humanidade frente às mudanças climáticas. 

Reduzir e sequestrar carbono da atmosfera é o “novo ouro”  que precisamos apreender a garimpar. Era  exatamente o que fazia, com outra terminologia, o virtualmente finado Fundo Amazônia, faturando a redução anual do desmatamento facilmente conversível em menos-carbono. É possível fazer isso em escala macro e o investimento público, inteligente, ser catalizador do capital privado, nacional e internacional. Para isso, porém,  é preciso ter um presidente com credibilidade capaz de unir o Brasil. Certamente não esse aí...

25/04/2020

Pandemia e Pandemônio

 
O virus do Planalto tem remédio
Não sei quando o capitão aloprado é mais patético, quando agride, insulta, ameaça ou quando tem pena de si mesmo e faz um discurso de autocomiseração  em resposta às declarações contundentes do ex-ministro Moro. 

Consigo imaginar a vergonha de parte daqueles ministros agrupados diante daquele chorilho de baboseiras constrangedoras. Só o Guedes (a bola da vez?) usava máscara. Aliás, não vi o favorito Ricardo Salles, o coveiro do meio ambiente. Tava escondidinho? 

 Não, não quero interferir na Polícia Federal mas como eles não interrogaram ainda aquele porteiro? Porque dão atenção mais ao assassinato de Marielle --que a PF não investigou ainda--   do que à conspiração para me matar com a facada do Adélio?  Mas foi esse crime o que  a PF  investigou, mais exaustivamente,  e  concluiu tratar-se de um psicopata solitário.  Que, aliás, ajudou Bolsonaro a se eleger mais que ninguém

 O "mito" confessou que, afinal,  obteve, sim,   um “favor” da PF:  saber do matador de Marielle Franco,  Ronaldo Lessa que, afinal,  sua filha não havia namorado o 04, filho caçula, do presidente. É que o jovem não era capaz de se lembrar porque havia ficado com --havia orgulho na confidência presidencial--  metade das gatas do condomínio,  onde os Bolsonaros são vizinhos do homem que disparou os tiros que mataram Marielle Franco.  

Acaso essa seria uma tarefa da Policia Federal? Perguntar a um preso de segurança máxima se sua filha namorava ou não com o quarto rebento presidencial? Se Bolsonaro já conseguia esse tipo de desvio de função (é obviamente tarefa de advogado) ainda com o Valeixo, que dizer agora, com seu pretendido  controle total? Um diretor geral da PF que fique trocando figurinhas com ele.

 O ministro Alexandre de Morais já blindou, preventivamente, a equipe que mais preocupa Bolsonaro. É óbvio que o capitão aloprado quer abafar as investigações sobre os trolls do Escritório do Ódio do filho 02, no Palácio do Planalto: quem os financia e organiza os atos pro fechamento do Congresso, do STF e propugna novo AI5.  

 Também teme as ramificações dos esquemas dos gabinetes bolsonarianos --rachadinha é o de menos--  com as milícias, inclusive aquela  dos dois executantes do assassinato de Marielle Franco, o Escritório do Crime, de Rio das Pedras, chefiado até recentemente pelo capitão Adriano, do BOPE, morto pela polícia baiana, cuja mãe e mulher foraram lotadas no gabinete do 01, tendo ele próprio  sido condecorado pelo dito cujo com a medalha Tiradentes.  

 Bolsonaro faz juras de austeridade pessoal. Não gasta nadinha do cartão corporativo de 23 mil reais a que tem direto e manda até desligar o aquecimento da piscina do Palácio da Alvorada pra economizar. Isso sim que é ser  honesto!  

 Colocou Moro no governo para capitalizar o lavajatismo e Moro prestou-se a esse imperdoável e triste papel. Agora sai atirando. O ex-prefeito Marcello Alencar, meu saudoso amigo, certa feita referiu-se a um político mordido pela mosca azul: “tem a voracidade do lobo mau e a ingenuidade da chapeuzinho”. Lembra o Moro.  

Como magistrado, comprovadamente,  não foi imparcial e atuou politicamente a favor de Bolsonaro. Caiu no seu canto de sereia, não foi capaz de perceber com quem havia se metido, embora fosse, como diria Nelson Rodrigues, o óbvio ululante. Prognosticam-lhe brilhante futuro político agora que chutou o pau da barraca. Sei não...

 À diferença de outros presidentes que admira: Trump, Orban, Putin, Erdogan, Duterte,  megalômanos funcionais,  Bolsonaro é louco de pedra. Faltam lhe um ou mais parafusos. Aqueles, consituíram maiorias parlamentares e, salvo Trump, têm maioria eleitoral no voto popular.

 Foram habilidosamente controlando as instituições. Trump  corre mais risco mas os outros perigam ficar um bom tempo justamente porque possuem maiorias eleitorais ainda que em eleições condicionadas ou mutretadas e controlam o congresso e o judiciário.

 O governante de perfil psicológico mais parecido com Bolsonaro é Nicolas Maduro o ditador da Venezuela. Ele não possui mais a maioria eleitoral de Hugo Chaves mas reina graças a uma ditadura militar-policial-parapolicial exatamente do tipo que os manifestantes (patéticos gatos pingados) pediam na porta do Forte Apache ao seu caudillo, esse  surrealisticamente de camisa vermelha. O "mito" teve seu momento bolivariano...

Pessoalmente acho mais grave a demissão de Mandetta do que a de Moro. O capitão aloprado surtou contra o ministro Mandetta por ciumeira pura.  Esse vinha fazendo um trabalho, senão brilhante,  pelo menos sensato, ancorado na ciência contra a terrível pandemia que assola o Brasil.  Ao defenestra-lo o "mito" nomeou um débil puxa-saco, um  “sem noção”  desorganizando de vez  nossa caótica resposta ao COVID 19, justamente no momento em que o virus toma embalo e dispara.  

Nosso sistema de saúde pública está claramente entrando em colapso  e isso só tem como piorar com o aumento exponencial de novos casos que Bolsonaro estimula ao promover suas performances contra o isolamento social, o afastamento, as máscaras. Vamos ter muito mais mortos que os 50 mil dos EUA. Perigam serem centenas de milhares. Um genocídio.

Afastar Bolsonaro da presidência o mais cedo possível tornou-se uma questão de segurança nacional e salubridade pública. Há um vírus perigoso no Planalto mas ao contrário do COVID 19 esse já tem remédio. Seus numerosos crimes de responsabilidade serão identificados pelo STF e remetidos ao Congresso. Concordo com o presidente Fernando Henrique Cardoso: o melhor seria que "o mito" renunciasse  para o vice Mourão. É tirar o bode da sala? Vale,  porque o bode é francamente insuportável. Tudo bem que o Mourão seja general e de direita. Parece um homem sensato e mentalmente são. Tem legitimidade.  É o melhor que esse pobre país pode desejar nesse momento atroz.