12/02/2019

Conhecendo Chico Mendes?







Para quem não teve a honra de conhecê-lo, meu testemunho:

Conheci o Chico Mendes em Xapuri, em 1987.  Foi uma amizade intensa, instantânea,  e um pacto imediato de apoio nosso à luta dos seringueiros que, na nossa ótica,  representava a junção das lutas sociais e ambientais. Voltando ao Rio passei a montar uma rede de apoio ao Chico Mendes que logo veio ao Rio e participou de um encontro dos verdes em Petrópolis.

 Tinha uma constante preocupação com o Chico que estava ameaçado de morte por vários pecuaristas que tinha impedido de ampliar sua "fronteira de pasto" realizando "empates". Um deles, Darli Alves, era o mais perigoso. O mais preocupante é que parecia haver uma ligação da Policia Federal, supostamente lá para proteger Chico, com os fazendeiros que o ameaçavam, inclusive Darli. O Conselho Nacional de Serigneiros descobriu que ele cometera crimes de morte no Paraná e tinha inclusive um mandado de prisão por lá. A informação foi vazada para ele que foi se esconder na floresta.  Jurou de morte o Chico que considerava responsável por essa revelação de seus antecedentes criminais.

 No Rio, logo depois das eleições de novembro de 88, organizamos um grande ato chamado Salve a Amazônia.  Consistia de uma maratona andando, correndo e pedalando do Jardim Botânico ao Monumento a Estácio de Sá, no Aterro do Flamengo e a colocação de um imenso pano de juta com os dizeres Salve a Amazônia. Vejo e revejo as cenas: Betinho, Lucélia Santos, John Neschling, Gabeira, Minc, Nei Matogrosso, Luise Cardoso. Há uma cena do Chico conversando comigo no meu velho Opala verde oliva quando nos dirigíamos ao bondinho do Pão de Açucar.  Falavamos sobre seus problemas de segurança e ele admitindo o perigo do tal Darli Alves, e eu tentando convencê-lo a ficar no Rio até que conseguissimos fundos para contratar um grupo de seguranças particulares pois, pelas histórias que ele contava, os policiais que o protegiam eram pouco confiáveis.

 A certa altura achei que o tinha convencido. Nossas amigas Rosa e Dora também faziam pressão nesse sentido. O Chico decidiu ficar no Rio. Depois por pressão da esposa que ficara sozinha --queríamos trazer a familia dele também-- ele decidiu passar o Natal em Xapuri...


Um mês depois foi assassinado. Tornou-se um mártir internacional da causa ecológica, um símbolo, uma bandeira de luta mas a perda foi irreparável. Era um ser humano extraordinário:generoso, sensível, divertido e um dos poucos quadros capazes de unificar em torno de uma causa comum setores díspares. Não se encontrou mais um líder com as mesmas características. A causa da Amazônia tornou-se internacional com a repercussão de sua morte mas penso que teria feito muito mais, vivo. Com os que ficamos permanece a obrigação de não deixar que sua morte tenha sido em vão. Isso hoje se expressa na luta para que o Brasil cumpra  metas de redução de queimadas e desmatamentos.

 Isso foi obtido quando o desmatamento caiu de 27 mil km2 em 2004 para pouco mais de 4 mil, em 2012. Atualmente volta a aumentar (8 mil) ano passado e um aumento de 48% só nos três meses da campanha eleitoral. A uma tendência ao aumento do desmatamento e das emissões em 2019. Isso irá provocar reações variadas national e internacionalmente. 

Um cisa é certa: Chico Mendes será mais assunto.

09/12/2018

Porradaria & cacofonia


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(Paris) Comemoro meu aniversário de 68 anos, em Paris. Dia chuvoso e turbulento. Tensão, manifestações. De um lado, a porradaria. Embora muitos dos Coletes Amarelos se manifestassem pacificamente, em variados pontos da cidade, a tônica foram os incidentes violentos. Houve 1723 prisões. Calcula-se que cerca de 10 mil Coletes Amarelos convergiram sobre diversos pontos da capital. Houve depredações, incêndios de veículos e conflitos com um dispositivo policial bem organizado e contido. Os amarelos extrapolaram a gasolina cara, agora querem também a cabeça do Macron.  As violências capturaram o foco da mídia.

 Noutro ponto de Paris, a cacofonia, sem porradaria. Também menos mídia para uma manifestação mais numerosa, umas 17 mil pessoas: a Marcha do Clima,  no tradicional circuito de Nation  a Republique. Exigiam “mais ambição” dos governos na COP 24, em Katowice, com seu jeitão “bicho grilo”,  ao velho estilo das manifestações ecolos.  Uma Babel ambulante: o Greenpeace e outras entidades ambientalistas,  grupos de extrema-esquerda “anticapitalistas”,  coletivos a causa animal ou vegana, LGBTs de vários estilos, sindicalistas da CGT, militantes do PCF, dos verdes espalhados, coletivos pelo “descrescimento” econômico, anarquistas aqui e ali.  O dado mais curioso era a presença de um certo número de... Coletes Amarelos, um toque, convenhamos, surrealista. Não havia propriamente palavras de ordem unificadoras, as vozes esganiçadas vindas dos carros de som puxavam uns slogans díspares que pouca gente repetia, cada qual preocupado com sua própria performance. Num momento decisivo para a causa climática global quando forças reacionárias e negacionistas,   simbolizadas por  Donald Trump,  se assanham e, ao mesmo tempo,  os cientistas divulgam dados cada vez mais alarmantes,  um happening incapaz de respaldar nenhuma ação estratégica ou tática  mais concreta.  E essa  atitude conciliadora com os “outros que lutam”...estes a favor da gasolina a bom preço emitindo CO2 e poluindo a rodo.

  A presença de grupos de Coletes Amarelos também era sintomática de tempos de confusão entrópica. Da extrema direta à extrema esquerda, de Marine Le Pen a Jean-Luc Melanchon emanam manifestações de “solidariedade” e “compreensão” para com os Coletes Amarelos. Os grupos ditos mais “combativos” das extremas direita e esquerda também se infiltram nesse movimento, essencialmente de uma França mais rural,  e participam dos quebra quebras querendo ver o circo pegar fogo. Há uma critica, essa pertinente,  feita por lideranças ambientalistas à forma de implementação da taxa de carbono sem uma compensação  para os rurais e periféricos  obrigados a usar mais o automóvel. Também é pertinente a observação de que a taxação do carbono deveria vir no bojo de uma reforma tributária mais abrangente. Macron ao abolir o imposto sobre fortunas –bastante falho tecnicamente, ineficaz e facilmente contornável pela fuga de capitais--  acabou por vestir a carapuça de “presidente dos ricos”. Foi uma medida politicamente desastrosa.

 Na verdade o sujeito oculto da Marcha do Clima foi também o “Fora Macron”. Um desejo da moda nesses tempos digitais que vai de encontro a duas realidades bicudas:  na era Trump,  Emmanuel Macron é líder internacional mais ativo em relação às mudanças climáticas. A outras:  “Fora Macron” para colocar quem? Os Coletes Amarelos tem um tônus trumpiano. Alguns vocalizam querem todo poder para o general Pierre de Villers, demitido por Macron por protestar contra cortes no orçamento. Isso tudo lembra os nossos idos de  2013, no Brasil que começou como “convergências de lutas” que no fundo ninguém entendeu direito e terminou alguns anos depois como sabemos.

Localizando os verdes...







Confusão de gêneros


07/12/2018

Clima de maus agouros


(De Paris) No meu trajeto para a Conferencia do Clima de Katowice,  a COP 24, me deparo em Paris com o movimento dos Coletes Amarelos, bloqueado estadas e ruas, contrários à cobrança da taxa de carbono sobre combustíveis. A taxa vinha de governos anteriores mas iria subir em 2019. Ao se dar o recente aumento do preço do petróleo (que já arrefeceu) ela tornou-se casus belli para uma classe média baixa, rural e de pequenas cidades que se inclina para a direita, ressabiada com as cidades cosmopolitas que têm bons transportes públicos  e que estimulam o não motorizado: bicicleta, patinete, etc... O movimento virou catalizador do sentimento anti-Macron,  insuflado tanto pela direita como pela esquerda(que adora um tirozinho no pé). Meu amigo Daniel Cohn Bendit, que liderou o maio de 1968 francês, e tem bom faro histórico está inquieto: “isso vai acabar mal”. Taxar ou cortar subsídios a combustíveis fósseis é sempre um perrengue.  Precisaria com medidas de compensação, bem sequenciadas, para os  mais pobres e  dependentes de automóvel, de uma oferta a preço muito mais barato de veículos híbridos, elétricos ou a biocombustíveis o que ainda vai tardar.

 O início da COP 24, na Polônia, em Katowice, coincide com a divulgação de novos dados, dos cientistas  para lá de assustadores. Toda COP sempre traz sua dose de alarmes mas essa já começou resolutamente punk. Depois de uma fase esperançosa, nos anos 2013 a 2016 quando as emissões globais de CO2, por queima de combustível fóssil,  pareceiam se estabilizar, não obstante o crescimento do PIB mundial, agora, elas voltaram a subir: em 2017,  em 1,6% e agora 2018, em 2,7%. A China que representa 27% das emissões globais deve aumentar em 4,8% suas emissões, os EUA que respondem 15%,  devem aumentar 2,5% depois de anos de declínio –começamos  ver o efeito Trump—A União Europeia que responde por 10% mantem uma pequena redução de 0,7% e a Índia, que  emite globalmente 7% deve apresentar o maior aumento de todos: 6,3%. O Brasil com perto de 3% apresentará seguramente um aumento, em 2018:  o desmatamento na Amazônia passou de 6900 km2 a 7900km2 e a inflexão da recessão certamente fez aumentar  as emissões por queima de combustível fóssil.  Poderemos alcançar níveis muito altos, em 2019, com o  “liberou geral” que o futuro governo parece prenunciar em relação ao desmatamento.  

   Segundo os cientistas, as emissões globais já teriam deveriam atingido seu “pico” para começar a cair em 45%, até 2030, para possibilitar uma trajetória de 1.5 graus ou em, pelo menos,  25% para dar chance a uma aumento de “apenas” 2% na temperatura média do planeta nesse século.  Num recente artigo da Nature os cientistas agora estabelecem uma correlação mais veloz entre o aumento de emissões o aquecimento global. Pensam que poderemos chegar a 1.5 graus,   já no inicio da década de 30 e  a 2 graus na de 40. O cumprimento a risca do Acordo de Paris é altamente insuficiente,  aponta para 3,2 graus. Era para ser um apenas um primeiro passo. Os recentes fracassos apontam para cenários apocalípticos:  4,5 a 5 graus. A partir de 2 graus passam a entrar em jogo os chamados feedbacks, círculos viciosos exponenciais: geleiras derretidas emitindo enormes quantidades de metano,  um nível de aquecimento dos oceanos e de secas nas florestas faz com que ambos percam capacidade de absorver carbono. Hoje absorvem perto da metade do emitido.  Sem exagero algum: a marcha da insensatez leva ao inferno na terra ainda no tempo de vida de nossos netos. Mas os Coletes Amarelos gritam: “Macron pensa no final do mundo, nós no final do mês”.