09/12/2018

Porradaria & cacofonia


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(Paris) Comemoro meu aniversário de 68 anos, em Paris. Dia chuvoso e turbulento. Tensão, manifestações. De um lado, a porradaria. Embora muitos dos Coletes Amarelos se manifestassem pacificamente, em variados pontos da cidade, a tônica foram os incidentes violentos. Houve 1723 prisões. Calcula-se que cerca de 10 mil Coletes Amarelos convergiram sobre diversos pontos da capital. Houve depredações, incêndios de veículos e conflitos com um dispositivo policial bem organizado e contido. Os amarelos extrapolaram a gasolina cara, agora querem também a cabeça do Macron.  As violências capturaram o foco da mídia.

 Noutro ponto de Paris, a cacofonia, sem porradaria. Também menos mídia para uma manifestação mais numerosa, umas 17 mil pessoas: a Marcha do Clima,  no tradicional circuito de Nation  a Republique. Exigiam “mais ambição” dos governos na COP 24, em Katowice, com seu jeitão “bicho grilo”,  ao velho estilo das manifestações ecolos.  Uma Babel ambulante: o Greenpeace e outras entidades ambientalistas,  grupos de extrema-esquerda “anticapitalistas”,  coletivos a causa animal ou vegana, LGBTs de vários estilos, sindicalistas da CGT, militantes do PCF, dos verdes espalhados, coletivos pelo “descrescimento” econômico, anarquistas aqui e ali.  O dado mais curioso era a presença de um certo número de... Coletes Amarelos, um toque, convenhamos, surrealista. Não havia propriamente palavras de ordem unificadoras, as vozes esganiçadas vindas dos carros de som puxavam uns slogans díspares que pouca gente repetia, cada qual preocupado com sua própria performance. Num momento decisivo para a causa climática global quando forças reacionárias e negacionistas,   simbolizadas por  Donald Trump,  se assanham e, ao mesmo tempo,  os cientistas divulgam dados cada vez mais alarmantes,  um happening incapaz de respaldar nenhuma ação estratégica ou tática  mais concreta.  E essa  atitude conciliadora com os “outros que lutam”...estes a favor da gasolina a bom preço emitindo CO2 e poluindo a rodo.

  A presença de grupos de Coletes Amarelos também era sintomática de tempos de confusão entrópica. Da extrema direta à extrema esquerda, de Marine Le Pen a Jean-Luc Melanchon emanam manifestações de “solidariedade” e “compreensão” para com os Coletes Amarelos. Os grupos ditos mais “combativos” das extremas direita e esquerda também se infiltram nesse movimento, essencialmente de uma França mais rural,  e participam dos quebra quebras querendo ver o circo pegar fogo. Há uma critica, essa pertinente,  feita por lideranças ambientalistas à forma de implementação da taxa de carbono sem uma compensação  para os rurais e periféricos  obrigados a usar mais o automóvel. Também é pertinente a observação de que a taxação do carbono deveria vir no bojo de uma reforma tributária mais abrangente. Macron ao abolir o imposto sobre fortunas –bastante falho tecnicamente, ineficaz e facilmente contornável pela fuga de capitais--  acabou por vestir a carapuça de “presidente dos ricos”. Foi uma medida politicamente desastrosa.

 Na verdade o sujeito oculto da Marcha do Clima foi também o “Fora Macron”. Um desejo da moda nesses tempos digitais que vai de encontro a duas realidades bicudas:  na era Trump,  Emmanuel Macron é líder internacional mais ativo em relação às mudanças climáticas. A outras:  “Fora Macron” para colocar quem? Os Coletes Amarelos tem um tônus trumpiano. Alguns vocalizam querem todo poder para o general Pierre de Villers, demitido por Macron por protestar contra cortes no orçamento. Isso tudo lembra os nossos idos de  2013, no Brasil que começou como “convergências de lutas” que no fundo ninguém entendeu direito e terminou alguns anos depois como sabemos.

Localizando os verdes...







Confusão de gêneros


07/12/2018

Clima de maus agouros


(De Paris) No meu trajeto para a Conferencia do Clima de Katowice,  a COP 24, me deparo em Paris com o movimento dos Coletes Amarelos, bloqueado estadas e ruas, contrários à cobrança da taxa de carbono sobre combustíveis. A taxa vinha de governos anteriores mas iria subir em 2019. Ao se dar o recente aumento do preço do petróleo (que já arrefeceu) ela tornou-se casus belli para uma classe média baixa, rural e de pequenas cidades que se inclina para a direita, ressabiada com as cidades cosmopolitas que têm bons transportes públicos  e que estimulam o não motorizado: bicicleta, patinete, etc... O movimento virou catalizador do sentimento anti-Macron,  insuflado tanto pela direita como pela esquerda(que adora um tirozinho no pé). Meu amigo Daniel Cohn Bendit, que liderou o maio de 1968 francês, e tem bom faro histórico está inquieto: “isso vai acabar mal”. Taxar ou cortar subsídios a combustíveis fósseis é sempre um perrengue.  Precisaria com medidas de compensação, bem sequenciadas, para os  mais pobres e  dependentes de automóvel, de uma oferta a preço muito mais barato de veículos híbridos, elétricos ou a biocombustíveis o que ainda vai tardar.

 O início da COP 24, na Polônia, em Katowice, coincide com a divulgação de novos dados, dos cientistas  para lá de assustadores. Toda COP sempre traz sua dose de alarmes mas essa já começou resolutamente punk. Depois de uma fase esperançosa, nos anos 2013 a 2016 quando as emissões globais de CO2, por queima de combustível fóssil,  pareceiam se estabilizar, não obstante o crescimento do PIB mundial, agora, elas voltaram a subir: em 2017,  em 1,6% e agora 2018, em 2,7%. A China que representa 27% das emissões globais deve aumentar em 4,8% suas emissões, os EUA que respondem 15%,  devem aumentar 2,5% depois de anos de declínio –começamos  ver o efeito Trump—A União Europeia que responde por 10% mantem uma pequena redução de 0,7% e a Índia, que  emite globalmente 7% deve apresentar o maior aumento de todos: 6,3%. O Brasil com perto de 3% apresentará seguramente um aumento, em 2018:  o desmatamento na Amazônia passou de 6900 km2 a 7900km2 e a inflexão da recessão certamente fez aumentar  as emissões por queima de combustível fóssil.  Poderemos alcançar níveis muito altos, em 2019, com o  “liberou geral” que o futuro governo parece prenunciar em relação ao desmatamento.  

   Segundo os cientistas, as emissões globais já teriam deveriam atingido seu “pico” para começar a cair em 45%, até 2030, para possibilitar uma trajetória de 1.5 graus ou em, pelo menos,  25% para dar chance a uma aumento de “apenas” 2% na temperatura média do planeta nesse século.  Num recente artigo da Nature os cientistas agora estabelecem uma correlação mais veloz entre o aumento de emissões o aquecimento global. Pensam que poderemos chegar a 1.5 graus,   já no inicio da década de 30 e  a 2 graus na de 40. O cumprimento a risca do Acordo de Paris é altamente insuficiente,  aponta para 3,2 graus. Era para ser um apenas um primeiro passo. Os recentes fracassos apontam para cenários apocalípticos:  4,5 a 5 graus. A partir de 2 graus passam a entrar em jogo os chamados feedbacks, círculos viciosos exponenciais: geleiras derretidas emitindo enormes quantidades de metano,  um nível de aquecimento dos oceanos e de secas nas florestas faz com que ambos percam capacidade de absorver carbono. Hoje absorvem perto da metade do emitido.  Sem exagero algum: a marcha da insensatez leva ao inferno na terra ainda no tempo de vida de nossos netos. Mas os Coletes Amarelos gritam: “Macron pensa no final do mundo, nós no final do mês”.



24/11/2018

Mitos e tiros no pé


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Atentar contra a integridade do MMA e dos combalidos IBAMA e o ICMbio, só pode estimular o repique do desmatamento ilegal com risco de voltáramos ao seu ápice, de 2004, quando chegou 27 mil km2. Caiu a menos de 5 mil, em 2012. No ano passado, já estava em 6,9 mil, em ligeira queda em relação aos dois anos anteriores. Acaba de sair a estimativa para 2017 (agosto a junho) com 7,9 mil KM2. O desmatamento na Amazônia (95% ilegal) volta a aumentar. Tende a  subir em flecha, no próximo ano, com a continuidade da evasão de efetivos do IBAMA e, se não for revertida,  a sinalização do “liberou geral”, no governo Bolsonaro.

 Os ditos ruralistas comemoram mas a curto prazo, a agricultura brasileira ver-se-á internacionalmente prejudicada em sua competitividade por desnecessários desgastes de imagem. Evidentemente,  sofrerá os graves efeitos do aquecimento global com mais estiagens, falta d’água, mudanças no solo, variações loucas de temperatura e inundações, dependendo da região. Por outro lado, o conjunto de ações de agricultura de baixo carbono reduzem emissões e aumentam a produtividade.

Mitos podem ser instrumentais em campanhas eleitorais. No entanto, uma vez no governo, a autointoxicação com fake news ou preconceitos é receita segura de desgaste desnecessário. Vimos doses consideráveis disso em relação à questão climática, na linha do: “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. Acaba de sair um relatório de 13 órgãos do governo norte-americano --divulgado pela própria Casa Banca de Trump--  alertando para as graves consequências econômicas para os EUA decorrentes da mudança do clima. 

Não, o Acordo de Paris em nada afeta nossa soberania nacional sobre a Amazônia.  Seu dever de casa se dá na forma, voluntária, de uma Contribuição Nacionalmente Determinada (sigla em inglês NDC). Na contribuição brasileira não há um compromisso com “desmatamento zero”. Há de reduzir a zero, até 2030,  o desmatamento ilegal. Numa discussão rumo a avanços, subsequentes, aparece o conceito de “desmatamento líquido zero”.  Não significa que nenhuma árvore irá ser removida mas que esse desmatado será compensado por reflorestamento, tanto de mata nativa quanto econômico. 

O Brasil possui, inclusive, um excelente potencial para gerar “emissões negativas”, quando se sequestra mais carbono do que se emite. Isso pode atrair variadas modalidades de investimentos e financiamentos geradoras de atividade econômica e empregos. 

O desmatamento legal, salvo em grande projetos de infraestrutura, é licenciado pelos órgãos estaduais. O intenso ódio ao fortemente desfalcado IBAMA e ao ICMbio não vem dos produtores rurais que atuam dentro da legalidade nem do grande agrobusiness exportador mas de  grileiros ou garimpeiros criminosos  que desmatam,  envenenam rios com mercúrio, em geral em florestas públicas. Reprimi-los será agora mais da seara do ministro Sérgio Moro do que da combalida área ambiental. São atividades criminosas.

 Com mais de 60 milhões de hectares de pastagens degradadas,  a agricultura e a pecuária brasileiras não necessitariam, em tese, avançar mais sobre a floresta. Digo “em tese” porque há interesses locais, totalmente marginais em relação à moderna agricultura brasileira,  que faturam com a especulação imobiliária rural: grilagem de terras --quase sempre públicas--  desmatamento para valorização no “mercado” ilegal, venda irregular da madeira, pasto para uma pecuária  marginal de baixíssima produtividade. Economicamente isso é muito pouco relevante. 

 Em termos políticos é outra conversa porque esses grileiros --no sul do Amazonas, vinculados ao narcotráfico--   são cabos eleitorais eficientes. Cabalam votos para parlamentares que acabam integrando a chamada bancada ruralista com uma influência  desproporcional a seu peso realidade econômico.  

O discurso “de esquerda” contra todo tipo de agronegócio por causa de sua natureza capitalista ajuda a valorizar esse tipo de liderança ruralista menos representativa do setor produtivo. A adesão da extrema-esquerda à causa ambientalista foi tardia --nos anos 80, quando iniciamos, odiavam o tema--   e instrumental. Ela passou a ser importante por fornecer uma bandeira de protesto adicional. Iniciativas malconduzidas de reforma agrária com ocupações, sem uma estratégia produtiva, também foram fator significativo de desmatamento. À direita e à esquerda ideologizou-se um tema que não é ideológico.

 Essa ideologização ressuscitou  dois mitos: à direita: o ambientalismo como uma causa “de esquerda” e que  objetivaria a que potencias estrangeiras ocupassem a Amazônia. Pioneiros da ecologia no Brasil foram o Marechal Cândido Rondon e o Almirante Ibsen de Gusmão Câmara, por exemplo. Não eram precisamente uns  “comunas”... Quanto a roubarem nossa soberania sobre Amazônia, francamente, nos últimos quarenta anos participei de centenas de reuniões internacionais climáticas,  em dezenas de países e jamais ouvi tal disparate ser colocado, uma única vez sequer. 

A tal "Triplice A" é outro mito. Trata-se de uma ideia de uma espécie de corredor verde ou APA internacional juntando regiões da Amazônia da Colombia, Peru e Brasil é uma ideia meio descosturada que algumas ONGs colombianas conseguiram vender para o ex-presidente Manuel Santos que chegou a propor isso numa reunião com Temer. Como afeta as áreas de fronteira houve uma preocupação dos nossos militares que considero legítima. O Brasil, desses três países,  é o único a dispor de um instrumental de monitoramento por satélite o que nos dá uma proeminência em relação aos vizinhos. Até hoje não apareceu uma proposta objetiva e detalhada de como algo assim funcionaria. Parece mais um factóide que uma proposta prática. Imagino que a raiz da desconfiança possa estar no receio de que possa levar a coibição de atividades de mineração que  merecem uma discussão mais séria e objetiva do que a forma com que foi tratada a questão da famosa RENCA.

Na questão indígena,  concordo que o uso da expressão “nações” pode dar margem a equívocos e deve ser evitada. A soberania brasileira exerce-se na forma da Constituição e das Leis, no conjunto do território nacional e ponto final. Mas a hostilidade em relação aos indígenas que resistem com arco, flecha e tacape ao desmatamento e a contaminação dos rios pelos desmatadores e garimpeiros criminosos é injusta e estúpida. 

 A agricultura brasileira será a primeira a sofrer com a mudança climática e graves danos ao meio ambiente local. Irá, a curto prazo, prejudicar sua competitividade expondo-a a um estigma e, a médio prazo, a efeitos mais rápidos e mais catastróficos do próprio aquecimento global para além dos ambientais, locais. Teremos mais estiagens, falta d’água, mudanças no solo, variações loucas de temperatura ou inundações, dependendo da região, quando não alternadamente. 


Todas essas questões deveriam ser alvo de um diálogo objetivo e sem preconceitos. Até agora nada indica que sera o caso.