16/02/2020

20 anos depois do acidente de petróleo na baia da Guanabara, a realidade do Mangue Vivo

(trecho adaptado do Descarbonário meu proximo livro a ser lançado em maio: )

O famoso Biguá...
Recentemente tivemos o vigésimo aniversário do grande derramamento de óleo na baia da Guanabara por parte da Petrobras. Foi, em janeiro de 2000perto da refinaria Duque de Caxias.  Uma parte considerável dos fundos da baía foi coberta por uma enorme mancha de óleo. As praias da região, já bastante poluídas,  ficaram cheiras manchas do que parecia um piche negro e pastoso. A ilha de Paquetá foi duramente atingida. Os peixes começaram a morrer em massa e as fotos dos biguás, agonizantes, asas cobertos de óleo,  correram o mundo. 

 Não chegou a ocorrer o que antecipou o jornal francês Le Monde, numa monumental e alarmista “barriga”: La maré noire de la baie de Rio menace Copacabana(A maré negra da baía do Rio ameaça Copacabana). A mancha, contida na baía por barreiras flutuantes,   nunca chegou de fato a ameaçar as praias oceânicas do Rio ou de Niterói mas o acidente foi certamente o mais grave da sofrida história da baía e um dos piores do país em todos os tempos.

 Foi também um momento de mobilização da sociedade civil e da imprensa e resultou num raro surto de voluntariado: milhares de pessoas se ofereceram para trabalhar na limpeza das praias e, particularmente, na tentativa de salvar a fauna empesteada de óleo. Jovens de máscara, luvas, balde e escovão, tentavam limpar o petróleo das asas dos biguás e outras aves que saltitavam em agonia na areia sem conseguir mais voar. 

 O movimento ambientalista se mobilizou em protestos cujo alvo era logicamente a Petrobras acusada de falta de cuidados e de planejamento. Aqui no Rio de Janeiro fizemos diversas. Uma delas foi o “abraço” à praia de Ramos.  A Petrobras, na época presidida por Phillipe Reichstul,  de forma inédita, abriu-se para um diálogo com os ambientalistas. Na condição de vice-presidente executivo da Ondazul --o presidente, na época,  era o Gilberto Gil--  participei de várias dessas reuniões.  Do lado da empresa me recordo dos dois principais interlocutores: Rodolfo Landim, que depois fez carreira na iniciativa privada,  e Lia Blower. 




Protesto na Praia de Ramos, da esquerda:  André Correa (que depois construiria o piscinão), eu e Rubem César Fernandes
 Uma parte dos ambientalistas queria apenas “marcar posição” e brigar.  Outros, nos quais me incluí, fazer com que a empresa fizesse uma profunda revisão de seus procedimentos de segurança, desse a maior transparência as suas ações e fizesse uma revisão de sua própria natureza primordial: deixar de se ver apenas como uma empresa de petróleo, passar a se considerar como uma empresa de energia. 

 Embora naquela época alguns passos tímidos tenham sido dados na direção desta última preocupação, com o passar dos anos  não se pode dizer que ela tenha se consagrado. Já nos procedimentos de segurança, alerta  houve, sem dúvida algum bastante progresso. A Petrobras tronou-se mais segura do que no início dos anos 2000. Inevitavelmente,  abriu-se uma outra discussão, a da compensação: a empresa deveria recuperar o ecossistema e de alguma forma indenizar população atingida: pescadores, catadores de caranguejo, moradores dos fundos da baía e de Paquetá. 

  Nessa época realizei um voo de helicóptero sobre a região dos fundos da baía da Guanabara: da Refinaria Duque de Caxias, a  Reduc, de Jardim Gramacho, que acaba de ser reconvertido de lixão para aterro controlado e em volta do qual iniciava-se um projeto de recuperação de mangue, de Magé, o município mais pobre da região,  e de Guapimirim onde subiste ainda um exuberante manguezal protegido por uma unidade de conservação ambiental. 

 Ao sobrevoar Magé pedi ao piloto para circular em volta de duas áreas quem me chamaram atenção.  A da antiga estação da ferrovia que ia até Petrópolis, utilizada por D.João VI para ir ao Palácio Rio Negro –continuava em pé embora o seu píer metálico, junto à praia, estivesse totalmente degradado--  e da praia de Mauá, mais na direção da Reduc e de Jardim Gramacho. 

 A praia de Mauá me chamou atenção pela quantidade inimaginável de lixo. Era o ponto onde as correntes dos fundos da baía carreavam em maior quantidade o que naquela linguagem meio pedante dos técnicos denominam o “lixo sobrenadante”: centenas de milhares de garrafas PET, sacos plásticos, pneus, artefatos de madeira de todo tipo, roupas, sapatos, geladeiras –não as imaginava capazes de flutuar--  bonecas, brinquedos quebrados,  penicos e tudo mais que se possa imaginar. A praia era um vazadouro natural, seus garis, as correntes da baía.  Mesmo sobrevoando a algumas centenas de metros de altura era algo que chamava atenção e indignava. A oito anos da conferência Rio 92 e oitocentos milhões de reais mais tarde,  esse era o saldo do PDBG, o programa de despoluição da baía da Guanabara, anunciado com pompa e circunstância logo após a Conferência quando o governo do estado obtivera financiamentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do banco japonês JBIC para um ambicioso programa destinado a recuperar a baía. 


    Praia de Mauá, Magé, final de 2000, época do derramamento de petróleo.
   Havia não só esse lixo na superfície mas camadas deles enterradas...

 O programa, gerido no estilo tradicional, centralizado, pelo governo estadual e pela CEDAE, fora concebido na forma de grandes obras: estações de tratamento, elevatórias, redes de esgoto, usinas de reciclagem de lixo e, é bem verdade, um programa de educação ambiental que gerou alguns frutos ainda que tenha ensejado  muito clientelismo. A parte “obrera”, no entanto, foi quase uma catástrofe. Parte das usinas de tratamento nunca funcionou direito, outras simplesmente não recebiam esgoto ou recebiam muito aquém de sua capacidade pela falta de redes coletoras (a contrapartida financeira da CEDAE). Em alguns lugarejos a rede afinal fora construída mas a companhia recusara-se a fazer as conexões domiciliares dizendo que eram responsabilidade do “particular”, ou seja os moradores pobres da baixada deveriam eles próprios conectar suas privadas à rede que passava debaixo da rua. A empresa fazê-lo seria nessa ótica um “mau uso do dinheiro público” em benefício de “particulares”.  

 De fato, a poluição na baía, medida regularmente, apresentava melhorias praticamente insignificantes. Houve alguma redução da poluição oriunda de fontes industriais o que naquele momento fora comprometido seriamente pelo acidente de petróleo. No fracasso do PDBG nada despontava tão grave e grotesco quando o problema do lixo. De certa forma o lixo na baía é pior do que os esgotos. Estes,  mal que bem acabam se diluindo no vasto corpo d’agua e, como se diz: “o que os olhos não veem o coração não sente” e o nariz só sente quando estão mais concentrados na fozes dos rios e canais. Já o lixo fica onipresente (e “sobrenadante”) contribuindo a todo momento com essa triste sensação de esculhambação que estimula os incautos e deseducados a jogar mais e mais objetos de variadíssima gama no que transformou-se nesse grande lixão aquático: a baía da Guanabara. 

 Não houve por parte do Estado nenhuma articulação digna do nome com as prefeituras dos municípios em volta da baía, a quem cabe a responsabilidade de coletar e dar destino final  ao lixo. Também não houve trabalho com as comunidades de favelas às margens desses rios e canais  e da própria baía, fontes principais desses resíduos que teria sido possível recolher, na fonte,  evitando que fossem jogados n’água indo terminar na baía e, na maior parte, nos seus fundos, onde se destacava, a praia de Mauá que eu estava sobrevoando.

 Quando o piloto do helicóptero subiu mais um pouco foi possível entender aquela praia no seu contexto ecossistêmico: no passado tudo aquilo fora um imenso manguezal, com algumas praias de areia branca, de Guapimirim até Duque de Caxias. Em alguns pontos o mangue ainda sobrevivia mas ali o processo de degradação fora extremo. Parte do manguezal fora desmatado para queima como carvão vegetal e parte fora fortemente atingido por uma praga que desfolha e seca o mangue. Privadas da proteção do manguezal a praia e a área adjacentes foram invadidas pelo lixo. Esse lixo não se limitava aos montões de cacarecos que  eu avistava desde o helicóptero. Havia, invisíveis,  camadas sucessivas dele enterradas: isso no futuro seria o maior obstáculo para a recuperação da área.

 No momento em que o helicóptero fez a volta, pensei com meus botões: “vamos recuperar esse negócio aí embaixo porque se funcionar ali é prova que conseguimos recuperar qualquer outro ecossistema”. Até a volta ao heliporto da lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, o projeto Mangue Vivofoi tomando corpo mentalmente e eu estava ansioso para compartilhar da ideia com os demais colaboradores do Ondazul e colocar no papel a versão original do projeto para apresenta-lo à Petrobras que assim financiaria a recuperação do ponto mais degradado da baía que recentemente tanto poluíra. 

 A distância entre a ideia de um projeto e sua viabilização é complexa e tortuosa e passa por uma realidade cheia de complicações, obstáculos e armadilhas burocráticas e políticas.  

 Toda essa articulação estava a meio caminho quando, em dezembro de 2000, me afastei da vice-presidência executiva da  Ondazul --permaneceria ainda um certo tempo em um dos seus conselhos--  para assumir a secretaria de urbanismo da prefeitura do Rio de Janeiro junto com a presidência do Instituto Pereira Passos(IPP).   Passei o bastão para uma equipe liderada pela Tatiana Wehb que continuou a negociar o projeto que, no entanto,  nunca deixei de acompanhar,  apoiar  e, ocasionalmente, ajudar a sobreviver diante de muitos percalços.  

  O projeto que começou a ser executado em meados de 2001 teve uma primeira fase tumultuada do ponto de vista burocrático e dificílima in loco. Do lado institucional um resumo do imbróglio: embora negociado com o ministério do Meio Ambiente o projeto teria que ser executado por repasse de recursos oriundos da multa e sob gestão do IBAMA. Os técnicos do órgão ressentiam profundamente o fato de grande parte desses recursos terem sidos alocados para serem executados por entidades ambientalistas e por prefeituras. A má vontade e o boicote tornaram-se uma marca desde primeiro momento, por mais que a cúpula do órgão em Brasília desejasse cumprir a vontade do ministro.  Depois na gestão do PT passou a ser visto como “da gestão anterior”e boicotado mais ainda. 


Abrindo os drenos...

     Assim estava...
   Com parte do mangue recuperado, da esquerda: Rogério Rocco, eu, Adeimantos Silva, Erian Osório e Gilberto Gil

  As dificuldades técnicas eram imensas. A primeira ação fora naturalmente limpar a praia de todo aquele lixo e depois construir uma cerca junto à baía para impedi-lo de continuar se acumulando aí trazido pela maré. Foi quando começou-se a descobrir que o lixo na praia de Mauá não era só aquele da superfície mas que havia camadas sucessivas enterradas e isso dificultava que as mudas de mangue, os “propágulos”, vingassem.  Havia também dúvidas quanto à estabelecer a largura e o espaçamento dos drenos, cuja abertura foi a primeira ação física visível sobre a praia livre das toneladas de lixo que haviam se acumulado na superfície. Foi quando os drenos começaram a ser cavados que revelou-se o lixo subterrâneo. 

Nessa mesma época uma ressaca poderosa destruiu a cerca e boa parte das mudas plantadas e drenos abertos. Nessas alturas o  responsável técnico era o ambientalista Rogério Rocco que, no entanto,  passava boa parte do tempo a administrar a difícil relação com o IBAMA. Não obstante,  no final de 2002, o reflorestamento na praia da Mauá apresentava os primeiros sinais de sucesso, com todo lixo enterrado, ressaca e dificuldades financeiras,  o mangue começava a brotar na área mais próxima à antena de rádio do lado esquerdo da praia. Um viveiro de mudas fora constituído. Tudo aprecia entrar nos eixos graças a essa facilidade notável que o mangue tem de rebrotar mesmo nas condições mais adversas. 

  Eu assistia de longe os abnegados  batalhadores da entidade ambientalista na qual atuara de 1996 a 2000 submetidos a esse processo kafquiano no IBAMA em relação à verba de compensação do desastre na baía. O projeto que eu idealizara na  época do derramamento de petróleo ser condenado a literalmente morrer na praia. Prometi ajuda-los e não deixar que o projeto Mangue Vivo perecer de morte matada pela obtusa insensibilidade desses burocratas e pela mesquinha retaliação política de segundo e terceiro escalão houve um longo litígio, finalmente solucionado por uma decisão cabal do Tribunal de Contas da União em prol do projeto.

 A salvação material deu-se num outro voo de helicóptero. Estava fazendo um sobrevoo da área portuária do Rio de Janeiro onde articulava, como secretario de urbanismo, os primórdios do projeto de revitalização daquela zona. Ao mesmo tempo que desenvolvia no Instituto Pereira Passos dezoito projetos de infraestrutura  que posteriormente foram em boa parte executados no programa Porto Maravilha, eu tentava convencer empresários a investirem na área e levava-os em passeios de helicóptero com meu amigo Rogério Zilberzstein (1)  da RJZ que vinha com o dono da Cyrela,  Eli Horn.  Depois de nossa volta sobre o porto do Rio, perguntei lhe, têm um momentinho para lhe mostrar-lhes algo? 

  Voamos para Magé e mostrei a praia de Mauá. Lá estavam bem visíveis os drenos e a parte do mangue já plantada e recuperada, vimos trabalhando na enxada os dois solitários reflorestadores que o projeto ainda conseguia sustentar, Deus sabe como. Desandei com um discurso sobre a importância dos manguezais,  sobre como seria lindo recompor tudo aquilo que fora degradado no último século de agressão à baía. Expliquei como associar-se àquele tipo de projeto seria  importante para a imagem de uma empresa, coisa e tal. Alguns anos mais tarde consegui o apoio da então Plarcon e da CRT, a gestora da rodovia Rio-Teresópolis, cujo posto de pedágio fica ao lado da entrada para Magé. Depois r3ecebeu apoio do Funbio. Assim o projeto  sobreviveu e continuou avançando cada vez mais pela praia. Hoje são 60 herctares de mangue reflorestado e tudo pronto para implantar-se a infraestrutura de parque, com cerca, sede, passarela suspensa e torre de observação, que, no momento tem dificuldades com a situação “política” em Magé, município paupérrimo e dominado por milícias. 

     Mudas que crescem

O viveiro que serve para outras regiões também.

 Voltando ao mangue. Hoje, vinte anos depois, temos todos esses pés de mangue altos e frondosos, cheios de passarinhos. Pelo chão, antes infestado de lixo, pululam milhares de caranguejos. Olho para toda aquela massa verde, meus pés dentro de botas afundando na lama, e me lembro da discussão um técnico do IBAMA --esse, jovem, do bem--  numa das raras vistorias que o órgão realizou, penso que essa foi nos idos de 2006. 

 Eu vinha fazendo uma série de visitas a Magé, uma delas acompanhado do ex-presidente da Ondazul, Gilberto Gil, então ministro da cultura. Havia um monte de jornalistas e cinegrafistas em volta. Plantamos uns pés de mangue. Naquela época o projeto realizava periodicamente mutirões de plantio de propágulos com estudantes de escolas e funcionários de empresas.  

Numa das visitas fomos tirar fotos de Antonia Erian, a engenheira florestal que coordenava tecnicamente o projeto naquela fase. La estava o Adeimantus, o líder dos reflorestadores, uma figura muito especial que se transformou num ativista ambiental de primeira linha a partir de sua prática de reflorestar e zelar pela área, o “seu” Zé e outros tantos.  Lá estava o viveiro que vai se ampliando gradualmente e já fornece mudas para outras áreas. 

Aí entrei numa discussão com o engenheiro florestal, do IBAMA, foi uma das raras vezes que o órgão foi visitar o projeto.  Veja isso, veja aquilo, conseguimos, né? Ele me olhou meio condescendente,  fez um muxoxo e argumentou: “é... mas tecnicamente o que vocês fizeram tá tudo errado. Não tem a menor racionalidade plantar mangue numa área dessas! Demora muito e sai muito caro. Por que vocês escolheram logo uma área tão difícil, a pior da baía? Deviam ter escolhido outra mais favorável.” 

   Fiquei olhando para ele meio desconcertado e naquele momento percebi exatamente o que ele não estava entendendo com seu olhar supostamente técnico. Respondi na lata: “mas,  cara, é precisamente por isso! Porque era o mais difícil! Escolhemos a área mais degradada do fundo da baía de Guanabara, desmatada por catadores de carvão vegetal, dizimada por uma praga, afetada pelo derramamento de petróleo e coberta de lixo, com camadas de lixo enterradas, foi por isso, precisamente: porque era foda,  porque nossa missão como ambientalistas é recompor um ecossistema degradado e não buscar a área mais favorável para o plantio.  Não estamos aqui fazendo agricultura, nem floricultura, nem reflorestamento econômico: tratamos de recuperação ambiental, lato senso”.  Ele ficou quieto, pensativo.  Vai ver que entendeu, pensei.






[1]Faço questão de aqui render homenagem a Rogério Zilberstein esse querido amigo, brilhante empreendedor e ótimo ser humano que tragicamente pôs fim a própria vida, em outubro de 2018, na véspera da malfadada eleição. 

 Galeria de Fotos

26/01/2020

Minha entrevista ao Le Monde






Alfredo Sirkis: “ Devemos reconhecer o valor conversível do “menos carbono”

Entrevista de Marjorie Cessac 
Postado em 26 de janeiro 2020, às 16:15 Leitura 3 min.

Para o ex-coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, a prioridade é acabar com o carvão e parar o desmatamento no Brasil, Indonésia e África. E depois reflorestar o equivalente a uma grande área como os Estados Unidos. Alfredo Sirkis é diretor executivo do Brazil Climate Center (CBC). O parlamentar Verde brasileiro atuou como coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima (FBMC), antes de ser destituído do cargo pelo presidente Jair Bolsonaro.

O que você acha das empresas que desejam compensar suas emissões de CO2 plantando árvores?

Na minha opinião, é necessária uma estratégia diversificada, porque a situação é terrível. No Brasil, Noruega e Alemanha, que não acreditam mais no desejo do presidente Bolsonaro de proteger a floresta e pararam de subsidiar o Fundo Amazônia. Como resultado, os estados brasileiros estão tentando assumir o controle, inclusive com a ajuda de empresas dispostas a financiar projetos de reflorestamento, bioeconomia e conservação da biodiversidade.
 Alguns governos da Amazônia com os quais trabalhamos desejam criar mercados voluntários de carbono, semelhantes ao já desenvolvido no Estado do Acre.

Esses projetos podem ter um impacto positivo na floresta?

Sim, apesar de uns poucos desvios encontrados aqui e ali nos mercados de carbono, eles podem ajudar a preservar os projetos florestais e financeiros para explorar seus produtos sem destruí-los, além de reflorestar e estabelecer projetos sustentáveis ​​que beneficiariam para os pobres da região. O ecológico  e o social devem andar de mãos dadas. Nesse sentido, mercados voluntários - que não contam para as contribuições nacionais (NDC) dos países de origem das empresas - são uma modalidade entre outros. Mas não se engane, a escala deles é pequena e eles não resolverão o problema de financiamento necessário para reduzir o desmatamento ou outros vetores de ação contra as mudanças climáticas.

Então, o que deve ser feito?

A prioridade seria acabar com o carvão, mesmo que isso signifique pagar uma aposentadoria dourada a todos os funcionários do setor e investir pesado para acelerar a transição energética. Devemos parar drasticamente o desmatamento no Brasil, Indonésia e África - entre 2004 e 2012, o Brasil conseguiu reduzir seu desmatamento em 80%, isso mostra que é possível- e, então, reflorestar uma grande área como os Estados Unidos, conforme recomendado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Finalmente, é necessário reduzir drasticamente a demanda de petróleo: dentro de vinte a vinte e cinco anos, a maior parte do transporte será elétrico, à hidrogênio(célula de energia)  ou biocombustíveis; desenvolver planejamento urbano; compensar mais radicalmente as emissões da aviação comercial. Em resumo, para concluir essa transição, precisamos de uns 3 a 5  trilhões de dólares por ano. Os países desenvolvidos, que deveriam contribuir com US $ 100 bilhões, todos os anos a partir de 2020, parecem incapazes de fazê-lo. Além do que, 100 bilhões não são nada, diante do que é preciso.

Como podemos colocar a descarbonização no coração da economia?

O valor conversível de "menos carbono" deve ser reconhecido, ou seja, das ações verificadas e certificadas de redução ou absorção de carbono na atmosfera. Poderíamos considerá-lo o novo "ouro" e colocá-lo no centro das finanças! Não tenho nada contra o "porrete" – a taxa de carbono -, mas politicamente, vimos com os "coletes amarelos", na França que é sensível. Seria melhor destacar a "cenoura", ou seja, o valor econômico do "menos carbono". Este "preço positivo" já existe. No Brasil, quando o governo norueguês pagava para reduzir o desmatamento na Amazônia, esses quilômetros quadrados poderiam facilmente ser convertidos em toneladas de carbono evitadas.

 No futuro, talvez hackers, pop stars, magnatas "verdes" ou jovens inventem uma criptomoeda com base nesse padrão "menos carbono", provavelmente será bem mais útil que o bitcoin que consome muita energia. Porque, para evitar a catástrofe ecológica, precisamos de uma revolução cultural e financeira.

Entrevista de Marjorie Cessac 

16/01/2020

Fui incluído na seleção de 100 pensadores ecológicos da France Cuture

Aproveito o Blog de hoje para reproduzir a entrevista que dei ao jornalista Frédérique Martel para a radio France Culture e, na sequencia, a lista, com fichas biográficas, que a rádio fez de sua seleção dos "100 pensadores ecológicos". Acredito que faltem alguns mas considero uma honra estar nessa seleção feita pelos jornalistas Christophe Fourel (CF), Nathan Marcel Millet ( NMM), Frederic Martel (FM), Etienne Miqueu ( EM), Jacopo Rasmi ( JR), Zoé Sfez ( ZS) and David Pata (DP) com aconselhamento de Frédérique Aït-Touati , Yves Citton , Aurélie Filippetti, Christophe Fourel, Elliot Lepers, Arnaud Montebourg and Patrick Viveret, dois deles (Filipeti e Montebourg) ex-ministros. 


A entrevista: Sirkis expõe sua estratégia global para fazer frente à mudança do clima.

Frédéric Martel: Sirkis é um antigo parlamentar e deputado verde brasileiro, ele foi candidato à presidência da Republica no Brasil, em 1998. Em 2019 esteve dirigindo um movimento em favor do meio ambiente e mudanças do clima contra as posições do atual presidente brasileiro Bolsonaro, a partir de um trabalho de articulação com diversos governadores de estados brasileiros.


Sirkis (...) desenvolveu a ideia do valor econômico do menos-carbono. Exerceu a função de coordenador geral do FBMC- Forum Brasileiro de Mudanças Climáticas, pelo período de dois anos e sete meses.  O presidente Bolsoraro  o demitiu desse seu posto de atuação, no qual vinha promovendo o diálogo sobre a questão climática entre os diferentes atores sociais, empresariais, da academia e governamentais. Sirkis é Diretor Executivo do Centro Brasil no Clima- CBC” um think tank com foco em mudanças climáticas, um espaço de reflexão estratégica e ação.

Sirkis também é conhecido por diversos publicações (memorialísticas, de ficção, politicas, ambientais, ecológicas e sobre poder local)  entre os quais o  best seller “ Os Carbonários” (1980) e no momento escreve sua nova obra “Descabonário”.  Eu o reencontrei para esta entrevista e lhe perguntei sobre sua trajetória de engajamento ecológico e suas posições contra o aquecimento global.

Sirkis:Eu sou ecologista desde dos últimos anos da década de 1970. Mas eu realmente me foquei na questão climática no encontro da COP de  Montrealnoano de 2005 e lá estive em uma reunião do ICLEI, naquele momento estava representando a Prefeitura do Rio de Janeiro como  Secretario de Urbanismo e nessa reunião estava presente a líder esquimó Sheilla Watt-Cloutier, que nos relatou o que acontecera em sua região (no circulo polar Ártico) com as temperaturas chegando a mais de 30 graus, provocando o massivo derretimento de geleiras. A questão bastante me impressionou  e aí compreendi que o clima não era apenas um aspecto da questão ambientalmas “a” questão. 

F. Martel- No Brasil a questão ambiental foi agravada, após a eleição do presidente Bolsonaro, sofreu vários impactos, com forte deterioração. Quais são as alternativas diante deste novo quadro politíco? Você vem atuando com os governos subnacionais?

Sirkis: O Brasil é uma federação e os estados brasileiros têm bastante poder, não o mesmo que nos EUA, mas ainda assim bastante. Estamos tentando trabalhar com os governadores dos estados, da Amazonia, do Nordeste, Sudeste e outras regiões onde temos uma melhor articulação, e essas iniciativas têm funcionado bem. Tivemos uma boa mobilização, criando uma situação que na qual o Brasil se conseguiu evitar a saída do Brasil do Acordo de Paris que o presidente Bolsonaro defendera diversas vezes.

F. Martel: Quais são as prioridades se devemos escolher quatro ou cinco questões a serem trabalhadas? Em que ordem devemos aborda-las   na luta contra o aquecimento global?

Sirkis: A nível global são  claras as prioridades. Primeiro, tratar da questão do carvão, acabar com o carvão! É preciso mobilizar os meios financeiros e políticos para fazê-lo, mesmo que haja um custo alto a pagar, uma aposentadoria dourada para seus trabalhadores. Tecnologicamente é possível, hoje, fazê-lo rápido, não é rocket science. A tecnologia está aí. Inclusive, produzir energia elétrica limpa do ponto de vista econômico já é mais rentável. No caso dos EUA, o próprio  mercado  está liquidando  o carvão, só que  é necessário liquida-lo rapidamente e em todo o mundo e isso custa caro. 

Segundo, enfrentar a questão do desmatamento! Aí  é uma questão de recursos de vontade política. O Brasil, entre 2004 e 2012,  foi capaz de chegar `a redução de 80% de seu desmatamento com medidas eficazes. É  possível fazê-lo novamente, com os estados brasileiros, diretamente,  pois hoje com a politica existente no plano federal  é complicado.  Por outro lado é necessário reflorestar. Reflorestar numa área  extensa como os EUA, espalhada por muitas partes do planeta.   

A terceira questão é o petróleo.  Reduzir e depois eliminar seu uso. Eu acredito que a industria automobilística  já decidiu o futuro do petróleo: daqui a quinze, vinte, trinta anos os carros, ônibus, caminhões serão elétricos. Mais cedo ou mais tarde,  iremos discutir o que será feito com  esses  stranded assets (ativos ociosos)  e o petróleo mantido não explorado poderá ter  valor enquanto emissões de CO2 evitadas.  


É importante pensarmos nas cidades, no seu urbanismo, mobilidade limpa, materiais de construção, redução de desperdícios energéticos. Também se coloca a questão dos transportes aéreos uma compensação maior e a redução de suas das emissões. São essas entre outras coisas.  Mas o essencial para mim  carvão, desmatamento/reflorestamento e petróleo. Enfrentando seu desafio ainda podemos chegar, na metade do século, a um mundo carbono neutro.

F. Martel: Ao nível econômico o problema é sempre delicado, como podemos inovar (...)?

Sirkis: É necessário considerar o valor econômico do menos-carbono, sua “precificação positiva”.   Já  compreendemos bem o valor econômico negativo da tonelada do carbono, dada por suas externalidades negativas. Tentou-se taxá-lo em diversos países e  algumas vezes não funcionou bem, como exemplo na França ou a  Australia.  -  É preciso fazê-lo de forma politicamente competente. É difícil.  Esse é o “porrete’. Mas precisamos também da “cenoura” que é a precificação positiva do menos-carbono, quando se remurea o que se reduz ou se absorve. Quando se  retira ou reduz a emissão de carbono da atmosfera, isto tem um valor econômico intrínseco! 
 No Acordo de Paris a delegação brasileira, da qual participei, em 2015 conseguiu inserir  o Parágrafo 108na Decisão de Paris, o preâmbulo do Acordo.   Nele se  reconhece o valor social, econômico eambiental das ações de mitigação. Ou seja, sobretudo,  o valor econômico dessa remoção ou redução do carbono. Isto é uma fonte de valor. Vale dinheiro.

F. Martel: Os bancos se dão conta desta questão?

Sirkis: Sim, mas  é necessário criar mecanismos para essa questão, oficialmente aprovada no Acordo de Paris, seja colocada em ação  de uma maneira que funcione. Isso até agora ninguém conseguiu resolver. No momento penso que  poderia se consubstanciar numa  criptomoeda, a “moeda do clima” lastreada no valor positivo da redução de emissões ou sequestro de  gases de efeito estufa. Tipo, o novo ouro! 



Eco-intelectuais: 100 pensadores para entender a ecologia


11/29/2019  


Como pensar em ecologia hoje ? Quem são os intelectuais que contam nas diversas esferas de reflexão sobre o meio ambiente, o clima e a biodiversidade ? 
Que novas idéias estão surgindo, além das capelas, da ultra-esquerda ecológica à direita ambientalista, incluindo artistas e teólogos ? Quais livros você deve ler ? A equipe Soft Power " da France Culture oferece sua pequena biblioteca ideal de ecologia.    
Esse mapeamento da vida das ideias em ecologia, clima e biodiversidade foi preparado como uma extensão de um programa com o mesmo título para " Soft Power " na cultura da França (podcast aqui) . 
Se a nossa lista pretende ser plural e pluralista, obviamente não pretende ser exaustiva. Conhecemos seus limites (muito francesa, muito " progressista ", muito masculina), apesar de nossos esforços. 
Também favorecemos pensadores que se encaixam nos temas do programa (digital, cultura, influência, poder brando). Você pode entrar em contato conosco para nos oferecer suplementos. 
Atualizaremos regularmente essa " biblioteca ideal de ecologia ".        
Coordenado por Étienne Miqueu e Frédéric Martel. 

Os precursores

Lucrecio. O poeta e pensador latino defende a idéia de que pensar sobre a natureza implica desmitologizá-la. Devemos livrar o pensamento da natureza de tudo o que o antropomorfismo produziu como superstições e crenças e que o impedem de realmente pensar. Nesta obra-prima que é De rerum natura Da natureza ) , Lucrécio mostra que a natureza, na imaginação da época, assume um caráter sagrado. (...)Ele desenvolve um sistema no qual a natureza, por imperfeita, não pode vir de uma divindade. Portanto, é uma questão de profaná-lo para entender seu princípio e significado. [ NMM 

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). O filósofo e escritor de Genebra é um dos primeiros " pensadores " da natureza e pai da ecologia moderna . A nível teórico  O discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (conhecido como " Segundo Discurso ") no registro literário ( Les Rêveries du promeneur solitaire, Les Confessions ), ele defendeu uma relação harmoniosa entre humanidade e natureza.  Rousseau coloca em julgamento uma sociedade que perverteu o homem, que seria " bom " no " estado da natureza " comprometido pela propriedade privada e mercado. Todo o seu trabalho (incluindo Émile La Nouvelle Héloïse ) coloca a natureza no coração das modalidades humanas, mesmo na educação e nas relações românticas. O próprio animal é pensado como uma " máquina engenhosa ". No túmulo do filósofo está gravada : " Aqui repousa o homem da natureza e da verdade ". (Veja : Victor Goldschmidt, Antropologia e Política ; Tzvetan Todorov, Frêle bonheur, Ensaio sobre Rousseau ; e Philippe Roch, Diálogo com Jean-Jacques Rousseau sobre a natureza ). [ FM 
                         
Ralph Waldo Emerson (1803-1882). Poeta e filósofo americano, Emerson se distingue do romantismo europeu (Schelling, Fichte, Primo, etc.), pelo qual Deus está presente na natureza em um estado de vestígios, de ruínas. Desde 1986, Emerson desenvolveu um romantismo panteísta : Deus está ativamente presente na natureza, pensado como a expressão de sua criação, o lugar privilegiado para entender o que é e qual o lugar que o homem nela ocupa. O principal filósofo do " transcendentalismo ", Emerson procura entrar em comunhão com a natureza e o grande todo que compõe, em um misticismo despojado e puritano, notadamente em seus Poemas (1847). (Ouça este podcast ) [ EM ]   
       
Henry David Thoreau (1817-1862). Poeta  naturalista que a observa com cuidado e molda a ideia da "simplicidade voluntária " contra as perversões da sociedade de mercado. (...)" Um homem é coisas ricas que podem ser passar ” Walden ou Life in the Woods (1854), a famosa história de sua aposentadoria em uma cabana de lago, longe da sociedade, teve uma grande influência não apenas na filosofia ambiental, mas também na a política de preservação de parques naturais nos Estados Unidos a partir da segunda metade do século XIX. (Ouça este podcast ) [ EM ]    
     
Rosa Luxemburgo (1871-1919). Em uma de suas cartas de prisão de 2 de maio de 1917, a ativista encarcerada contou a Sophie Liebknecht suas leituras de " obras de ciências naturais : botânica e zoologia " e sua emoção pelo desaparecimento de pássaros cantores em Alemanha : " Não pensei muito no canto dos pássaros e no que ele representa para os homens, mas não pude conter minhas lágrimas com a ideia de um desaparecimento silencioso e irremediável dessas pequenas criaturas sem defesa. Traça um paralelo com a morte lenta e silenciosa dos peles vermelhas  na América do Norte, expulsos de seu território. Rosa Luxembourgo convida, em poucas linhas impressionantes, a levar em consideração todos os despovoamentos inaudíveis, humanos ou animais, que ocorrem na superfície da Terra. [ EM 
        
Mahatma Gandhi (1869-1948). Desde os anos sul-africanos, Gandhi afirma sua preocupação com a natureza e os animais : ele é vegetariano (e na maioria das vezes vegano), multiplica o jejum, se veste de dhoti e constrói sua existência em grande austeridade. Em união com a natureza, ele está ligado a um modo de vida brahmacharya, onde esse ascetismo geral é associado à castidade. Em seus livros e sua autobiografia, ele queria ser um ativista vegetariano (por razões espirituais, mas também políticas e econômicas). Criticou as sociedades ocidentais e rejeitou as teorias do desenvolvimento. Mas além de suas ideias diretamente " ecológicas ", a influência de Gandhi na mobilização ambiental também é feita através dos conceitos que ele inventou : satyāgraha (resistência por desobediência civil) e ahimsā (não-violência) . Para muitos ativistas pacíficos que hoje se preocupam com o planeta, o clima ou o animal, seu nome ainda ressoa, mais de setenta anos após sua morte. (Veja : Joseph Lelyveld, Grande Alma ). [ FM 
              
Escritores, poetas

Arthur Rimbaud (1854-1891). Em uma obra seminal, um dos maiores poetas franceses - se não o maior - publicou três poemas principais e premonitórios que hoje podem ser descritos como " poemas verdes ". Em " Sun and Flesh ", ele propõe : " Respondendo ao seu chamado vivendo a Natureza ".  Mais que no catolicismo, é na " mãe divina " que ele acredita.  A natureza  é para ele " a primeira beleza " - e que não se deve " insultar ". “ Para você, Natureza, eu me rendo ”, escreve. Em " Aube ", um poema-chave das Iluminações , ele sonha com um inspirador " amanhecer ". Este grande tema do " amanhecer " é executado em seu trabalho (" Le Bateau ivre ", " música de guerra parisiense ", " Bom dia ,", " Ornières ", " Promontoire ", " Bottom "). Em " O que dizemos ao poeta sobre flores ", ele aspira a uma nova poesia que, neste " século do inferno ", possa inventar a cor das " flores estranhas ". (Ver André Guyaux, ed., Obras completas ; Yves Bonnefoy, Our Need by Rimbaud ; René Char, prefácio, Poemas ). [ FM ]  
                                                    
John Steinbeck (1902-1968). Com Raisins of Wrath (1939), sua obra-prima, Steinbeck anuncia migrações climáticas. Seu retrato duradouro dos " Okies " fugindo da seca para se tornar prisioneiros ... das inundações é um dos maiores romances americanos de todos os tempos. O Prêmio Nobel de Literatura prenuncia as crises sociais e ecológicas que, aqui, se combinam na grande migração, na Rota 66 , do pós-Depressão. [ FM ]  
      
James Graham Ballard (1930-2009). Suas obras de ficção científica convidar o leitor a percorrer os territórios devastados eras pós-apocalíptico no mundo tragado (1962) e seco (1965), ou para explorar um mundo onde o homem desaparece levado lentamente armadilha de natureza vitrificada em La Forêt de cristal (1967). A ficção como uma experiência literária das formas que a extinção de nossa espécie assumiria. [ EM ]   
     
Ursula K. Le Guin (1929-2018). Romancista e poetisa, sua literatura de ficção científica e fantasia invoca as possibilidades de mundos imaginários e extraterrestres : sociedades interespecíficas, anarquistas ou andróginas, histórias de destruição, nascimento ou sobrevivência, " utopias ambíguas " ... Nos Despossessed (1974), questionando as relações entre restrição ecológica e democracia, ela encena dois planetas opostos, mas liberta cada um à sua maneira : Uras, onde o reinado da abundância pode ocorrer às custas de uma relação predatória e desigual. recursos naturais e Anarres, cujo comunismo libertário se baseia na escassez de recursos. É uma das principais autoras de ficção científica (mesmo que ela não goste deste rótulo!) [ EM ]     
     
Francis Ponge (1899-1988). Poeta do relé entre a palavra e o real , de uma verdadeira " festa tirada das coisas " (1942), sua obra é habitada por animais, objetos, elementos naturais : chuva, amoras, ostras , fogo, vegetação, seixo, andorinhas ... É um mundo mudo no qual  ele procura as superfícies, as texturas, as singularidades. Ele elabora, com os meios da fala, um conhecimento poético das coisas, transcreve seu próprio universo e até reivindica seus direitos (" Sempre volte ao próprio objeto ", escreve ele em " Berges de la Loire"," Reconheça o maior direito do objeto, o seu direito imprescritível [...], não tem dever para comigo, sou eu quem tem todos os deveres para com ele "). [ EM ]      
     
Jonathan Safran Foer (1977). O famoso romancista americano publicou em 2009 um ensaio histórico : devemos comer animais ? Neste livro eficaz, o escritor está resolutamente comprometido com a causa animal e com o modo de comida vegetariana. Sua escolha pessoal de comida é original (ele é vegano no café da manhã e no almoço - sem produtos de origem animal - mas vegetariano no jantar - onde consome ovos e laticínios, mas não carne). No livro, ele também milita contra a agricultura industrial e, com evidências de apoio, contra o sofrimento dos animais. O impacto deste trabalho foi considerável, em particular porque foi assinado por uma das figuras-chave da nova literatura americana. Mais recentemente, Jonathan Safran Foer volta ao papel da agricultura intensiva na crise climática ( o futuro do planeta começa no nosso prato ). Ele também propõe, em entrevista ao Le Monde, " usar menos o avião, viver sem carro, ter menos filhos e reduzir o consumo de produtos de origem animal ". [ FM ]  
         
Primeiros filósofos que pensaram em ecologia no século 20

Hans Jonas (1903-1993). Em The Principle of Responsibility (1979), ele tenta construir uma " ética para a civilização tecnológica ", repensando as categorias morais de bem, dever, compromisso, partindo de um " princípio de responsabilidade " que vincula gerações atuais às futuras, vulneráveis ​​por uma ciência com poderes agora ilimitados. Essa " ética da incerteza " alimenta o conceito de " princípio da precaução ". Assim, confere legitimidade filosófica à exploração hipotética do futuro. Ancora sua reflexão na previsão do futuro e não na análise do passado, como a maioria dos filósofos marxistas ou liberais. A preocupação dos outros em nome de amanhã. (Veja também : Eva Sas, filosofia da ecologia política e este podcast ). [ EM ]
               
Günther Anders (1902-1992). O filósofo alemão (especialmente um dos pensadores da bomba nuclear), suas críticas à tecnologia se concentram na suposição de que a humanidade teria entrado, depois de 1945 e os atentados atômicos, no Japão, em uma nova era. Um " tempo do fim ", onde todos os dias é capaz de provocar seu próprio desaparecimento por meios tecnológicos que o excedem, na expectativa interminável de um " apocalipse sem reino ", destruição sem salvação ... (Veja em particular : A ameaça nuclear : considerações radicais sobre a era atômica ). [ EM 
         
Felix Guattari (1930-1992). Se nos lembrarmos de Félix Guattari, em primeiro lugar, por sua colaboração com Gilles Deleuze, devemos lembrar de seus textos finais, que tratam da crise ecológica , onde ele desenvolveu a ideia de um paradigma ecológico ampliado e complexo. Para ele, não se pode pensar em ecologia sem abrir espaço para a sustentabilidade e o cuidado dos ambientes sociais e mentais : a ecologia deve, portanto, ser pelo menos tripla. Veja especialmente The Three Ecologies (publicado em 1989) e seu apelo por reflexões e práticas " ecossóficas ". [ JR 
        
Jürgen Habermas (1929). O filósofo alemão , herdeiro da Escola de Frankfurt, é hoje decisivo no pensamento ecológico, porque reflete sobre sua articulação com a democracia. Quando muitos pensadores " verdes " montam cenários inspirados por um pensamento libertário, sem Estado ou política, difícil de implementar em uma estrutura democrática, Habermas propõe a reconstrução da democracia na era ecológica. (...)Habermas combate os riscos autoritários do pensamento ecológico e baseia a " ecologia política " em bases pluralistas, apesar de sua fragmentação ideológica. Longe da corrente da " ecologia autoritária ", ou mesmo da " ecologia profunda ", seu pensamento contribui para a construção de uma " ecologia democrática ". (Veja em particular A técnica e a ciência como ideologia Depois de Marx O discurso filosófico da modernidade Da ética da discussão, O futuro da natureza humana ). [ FM ]  
                  
Ulrich Beck (1944-2015). O sociólogo alemão há muito se interessa por problemas ecológicos, as conseqüências da modernização e a questão do risco. Em seu livro principal, The Risk Society (1986), ele questiona nossa avaliação (ou nossa hierarquia) de risco, que pode contribuir para favorecer soluções imediatas em detrimento de soluções duradouras. Ao fazê-lo, está refletindo sobre uma melhor distribuição de riscos na era da globalização e da “ segunda modernidade ”. [ FM ]    
   
Jacques Derrida (1930-2004). Em O animal que eu sou (2002), Jacques Derrida observa o esquecimento do animal na moderna filosofia " logocêntrica " ocidental : reduz-se à pura alteridade, uma palavra simples, uma " animot ", designando o que que o humano não é e não quer ser, justificando por repercussão sua exploração. No entanto, a fronteira seria mais porosa do que parece, especialmente na questão da linguagem, possivelmente conectando todos os seres vivos entre si. [ EM ]    
      
Arne Næss (1912-2009). O pensamento do filósofo norueguês acompanhou a mobilização ecológica emergente em direção a uma radicalização do paradigma ambiental. (...) Se a ecologia superficial se preocupa exclusivamente com o tratamento de tais resíduos ou suprimento de energia, a “ ecologia profunda ” (ou “ ecologia profunda ”) nos leva a mudar o olhar humano para uma escala maior, no nível de importância intrínseca de cada manifestação de seres vivos com os quais estamos sempre em relação. O discurso analítico em torno dos ambientes (eco-logia) deve ser incorporado pela sabedoria prática de formas de vida respeitosas e sustentáveis ​​(eco-sofia). Através do conceito de florescimento ( " desenvolvimento "), ele insiste na mudança de visão sobre a natureza : uma relação harmoniosa como fonte de valor. (Veja, em particular : Uma ecologia para a vida Ecologia, comunidade e estilo de vida ). [ JR, NMM ]      
              
Jacques Ellul (1912-1994). Crítico radical da ideologia técnica, que escraviza o homem e destrói a natureza, ele defendeu, com Bernard Charbonneau, uma ecologia que desconstrói o mito do progresso e da técnica, substituindo o homem em seu ambiente natural. (Veja Somos revolucionários apesar de nós mesmos ). [ EM ]  
  
Ivan Illich (1926-2002). Padre austríaco-americano especializado em educação (conceito de " sociedade cognitiva " ), Illich publicou numerosos trabalhos, principalmente sobre energia, água, automóvel e ajudando a imaginar a futura cidade ecológica (sem carro). . Anarquista, pensador da ecologia radical e crítico da sociedade industrial (ilusória e alienante), ele também contribuiu para a reapropriação cristã da ecologia. Com o conceito de " contraprodutividade ", ele apontou os desvios de um produtivismo derrubado  por seus próprios excessos. Contra a velocidade, o desenvolvimento exponencial das atividades humanas, o culto ao crescimento, ele desenha uma trilha : uma sociedade " amigável ", ou seja, " uma sociedade na qual as tecnologias modernas atendem a indivíduos politicamente interdependentes, não gerentes ”(Veja : Convivialidade ; e Thierry Paquot, Introdução a Ivan Illich ). [ EM ]
               
Filósofos contemporâneos

Michel Serres (1930-2019). Em Le Contrat naturel (1990), Michel Serres  (...) pensa a ecologia a partir de uma questão jurídica : a natureza pode ser sujeita à lei e não mais apenas um objeto ? Serres então tentou desenvolver uma nova lei, um contrato social agora estendido ao mundo, às coisas, à vida, em uma vasta simbiose. Para fraseando  Epur si muove" E, no entanto, se move!"  de Galileu " ele afirma: “e no entanto, ela se emociona" (referindo-se à vida). Ele propõe reconsiderar o planeta, não apenas em movimento, mas também vivo, emocionante, emocional quanto ao que fazemos com ele. Uma segunda revolução galileana. (Ouça este podcast ). [ EM ]   
       
Donna Haraway (1944). Treinada como bióloga, Donna Haraway entra na história da biologia, explicando o papel que essa ciência desempenha nas sociedades humanas, mas também sua dimensão metafórica ( How like a Leaf , 1999). Mais recentemente, em Ficando com os Problemas : Criando Parentes no Chthulucene (2016) , ela propôs novas coabitações em um momento de violentas mudanças ecológicas. Ela nos convida a " viver em apuros ", reunindo as principais figuras de seu trabalho : os cyborgs, as " espécies companheiras " e as criaturas do " Chthulucene ", um conceito que pretende abranger todas as entidades da biodiversidade em uma convivência renovada. em torno de uma multiespécie comum e narrativa emaranhada. [ EM 
            
Isabelle Stengers (1949). Ela introduziu na filosofia o conceito " Gaïa ", desenvolvido por James Lovelock e Lynn Margulis, principalmente em . Resistir à barbárie que vem (2009), onde ela pensa " a intrusão de Gaia ", isto é, o surgimento brutal desse " arranjo delicado de forças indiferentes às nossas razões e aos nossos projetos " que compõe o mundo em que vivemos, e ao qual ela chama para prestar atenção novamente. [ EM ]        
  
Bruno Latour (1947). O trabalho socioantropológico de Bruno Latour sobre as instituições sociais de nossa modernidade ocidental (o mundo científico, por exemplo) foi a base de seu trabalho mais recente e eclético em torno de questões ecológicas. Na encruzilhada da teoria política e da especulação etnológica, em seus livros mais recentes, como Face à Gaïa (2015) ou Où atterrir ? (2018), busca reconhecer e assumir os elos inexoráveis ​​que nos ligam às redes de formas de vida terrestres. Os seres humanos estão envolvidos nos ambientes em que vivem : como diplomatas,  devem negociar politicamente com todos os seus componentes (inclusive os não humanos) para uma convivência desejável. [ JR ]   
     
Dominique Bourg (1953). O filósofo de origem jurássica está totalmente empenhado em pensar em proteger o meio ambiente diante da emergência climática. Ele publicou numerosas obras e dirigiu várias coleções relacionadas a questões ambientais. Seu trabalho se concentra na ética do desenvolvimento sustentável, onde ele denuncia em particular os excessos do mercado e nossa crença cega no progresso. Ele se inscreveu no topo da lista de ecologia de Urgence nas eleições europeias de 2019. Membro da comissão Coppens, na origem da Carta Ambiental francesa, assumiu o comando da lista de "ecologia de urgência" durante das eleições europeias de 2019. Ele é notavelmente o autor de um Dicionário de pensamento ecológico (2015) ou do livro De risco à ameaça, Penser la catastrophe (2013). [ NMM 
      
Timothy Morton (1968). O filósofo inglês entrou recentemente no debate intelectual francês com a publicação de algumas obras fundamentais ( Hiperobjetos pensamento ecológico em 2018) e com a primeira página da Revista Philo , " Da crise ecológica que nos ameaça ", ele tenta desenhar as conclusões teóricas mais radicais e coerentes que manipulam a tradição conceitual e a cultura pop. Ele é, em particular, o inventor do conceito de " hiperobjeto ", descrevendo entidades objetivas reveladas pela perspectiva ambiental que escapam ao tempo, espacial e tomada de decisão das subjetividades humanas (nuclear, gases de efeito estufa ...) . [ JR ]
          
Vinciane Despret (1959). Filósofa da ciência , ela conduz uma reflexão sobre os modos como nos relacionamos com os animais, sobre os dispositivos científicos que nos colocam em contato com eles, na sequência do trabalho de Bruno Latour e Isabelle Stengers. Mostrando como os animais são considerados para responder às perguntas que os humanos fazem sobre si mesmos, ela imediatamente complica essa proposição, destacando como os animais não são objetos passivos de observação (...) [ EM]    
    
Val Plumwood (1939-2008). Filósofo australiano que desenvolveu uma crítica ecológica da razão moderna, desafiando o dualismo razão / natureza, na origem da crise ambiental. Assim, ela questiona as oposições entre humano e natureza, corpo e mente, intelecto e afetos, de uma perspectiva eco-feminista, estabelecendo um elo entre o projeto de dominação da natureza e as relações de dominação entre humanos, em particular entre homens e mulheres, este último voltado para uma natureza emocional e explorável, inferior à razão. (Veja em particular : Feminismo e domínio da natureza cultura ambiental. A crise ecológica da razão ). [ EM 
   
Edgard Morin (1921). O intelectual comprometido possui um trabalho prolífico e complexo, abrangendo um amplo campo de temas para reflexão. O método que ele utiliza em sua pesquisa (...) baseado na transdisciplinaridade, não pode, portanto, escapar da reflexão sobre a natureza e o meio ambiente. Em particular, sua análise dos efeitos da globalização a partir da tríade desgovernada da ciência, tecnologia e economia, exige uma nova posição a ser tomada em relação ao meio ambiente. Em seu trabalho principal, The Method , os dois primeiros volumes abordam em sua complexidade os sistemas da Natureza e da Vida, questionando os conceitos da física clássica e da biologia, como se sustentassem um relacionamento com a natureza. Seu recente apoio ao cacique Raoni pela preservação dos direitos dos povos indígenas e pela proteção da Amazônia testemunha seu compromisso, sempre inseparável de seu pensamento. Veja também : Terre-Patrie (1993) e Ano I da era ecológica (2007), co-escrito com Nicolas Hulot. [ NMM ]    
     
Ambientalistas

André Gorz (1923-2007). Ele é um dos pensadores que mais contribuiu para o desenvolvimento da ecologia política na França e além. Como ele próprio disse, foi através de críticas ao modelo de consumo opulento que caracteriza as sociedades contemporâneas que ele se tornou um ecologista precoce. Seu trabalho pioneiro sobre esse tema data de 1975 e é chamado de Ecologia e Política . Hoje, porém, diferentemente de uma ecologia puramente científica que visa determinar limites aceitáveis ​​para o desenvolvimento do industrialismo, Gorz favorece uma " defesa da natureza ", concebida acima de tudo como " defesa do mundo vivido " que preserve a autonomia dos indivíduos e da política. O movimento ambiental também foi inicialmente construído sobre a defesa do meio ambiente como determinante à qualidade de vida. Você pode encontrar toda a jornada de Gorz lendo sua coleção póstuma Ecologica publicada em 2008. [ CF ]  
        
René Dumont (1904-2001). Engenheiro agrônomo, foi o primeiro candidato ambientalista a concorrer às eleições presidenciais, na França,  em 1974. Em sua autobiografia intitulada Agrônomia  da Fome  (1974), ele evocou sua consciência das questões ecológicas, questionando uma concepção de agronomia focada no rendimento e no domínio da natureza. Sua luta pacifista e anticolonialista contra as desigualdades no mundo, juntamente com sua preocupação em transformar os métodos agrícolas, o levaram a defender um " eco-socialismo ", apelando a uma civilização de " árvores e jardins ", na qual a o campesinato teria um papel fundamental. (Ouça o podcast ). [ EM ]  
      
Patrick Viveret (1948). Da autogestão (PSU, Segunda Esquerda) aos atuais movimentos ecológicos franceses, a jornada de Patrick Viveret resume bem a consciência ecológica de sua família política, a esquerda democrática. Desde cedo, interessou-se pela ecologia (a partir do trabalho de Ivan Illich, Edgar Morin ou André Gorz, ou de uma perspectiva alter-globalista) e permitiu a renovação do pensamento de esquerda sobre esse tema. Seus temas de trabalho são numerosos (Relatório " Reconsiderando a Riqueza ", sob o governo Jospin, fundador do movimento Sol de moedas cidadãs, textos sobre a reformulação do PIB, deliberação, democracia e meio ambiente ...) : fazem de Patrick Viveret um dos principais pensadores do movimento ecológico francês. (Veja : Reconsidere a Riqueza Atenção Illich Uma alternativa da sociedade eco-socialismo ; veja também Para uma nova cultura política [com Pierre Rosanvallon], bem como seu último livro : A causa humana, do bom uso do fim de um mundo ).
                        
David Abram (1996). Em particular autor de Como a terra está silenciosa. Para uma ecologia dos sentidos (2013), Abram queria entender a questão ecológica a partir de uma reflexão sobre nossas sensibilidades e sua configuração cultural. A crise ambiental que nossa civilização estaria enraizada em nossa incapacidade de prestar atenção aos universos terrestres que habitamos. Em outras partes do mundo, outras comunidades humanas (minoria, é claro) nos mostram as possibilidades esquecidas de ouvir e dialogar com a Terra. [ JR ]
    
Aldo Leopold (1887-1948). Ecologista, engenheiro florestal, professor, participa ativamente da defesa do primeiro espaço natural formalizado nos Estados Unidos. Ele critica o princípio da propriedade da terra que, segundo ele, é incompatível com uma coexistência harmoniosa com a natureza. Ele é o autor do Almanaque de um município nas areias , um trabalho bem-sucedido que conscientizou o público em geral sobre a necessidade de proteger o meio ambiente. Leopold faz parte do chamado movimento preservacionista ambiental, que afirma a necessidade de preservar não apenas a natureza domesticada, mas também parte da natureza. Sua ética ambiental é baseada no seguinte princípio : " uma coisa é certa quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica " (capítulo " Ética ambiental "). Assim, ele fundou uma ética da terra real , uma ética da terra. [ NMM ]   
        
Economistas

Serge Latouche (1940). Economista, principal teórico do " decrescimento ", devemos recusar o desenvolvimento ? (1986) em Le Temps de la décroissance (2012), ele desenvolve uma crítica ao primado do econômico das sociedades, onde a mercantilização e o consumo de massa estão se espalhando de maneira excessiva e alienante, onde crescimento e inovação se tornaram os únicos horizontes. Ele defende contra isso uma “ descolonização do imaginário ” do crescimento, a fim de mudar mentalidades e hábitos, e forjar uma sociedade livre do economismo, voltada para a justiça social e ambiental. [ EM ]    
        
René Passet (1926). Sua análise é baseada em uma crítica ao nosso paradigma econômico, que substituiu o ponto de vista abrangente sobre a natureza. Pelo contrário, é necessário, segundo Passet , repensar a abrangência ecológica como sendo a primeira, de acordo com essas três " esferas interligadas " : a vida (natureza), a humana e depois a econômica. Em seu livro The Economic and Living (1979), ele descreve essa " revolução mental " que deve ser realizada como a segunda mais importante na história da espécie humana, após sedentarização durante o Neolítico. Ele escreve o seguinte : "os homens são levados a repensar seu comportamento, respeitando as leis que governam o mundo : ganhando consciência cósmica ou desaparecendo, esse é o formidável e magnífico desafio com que são confrontados ". (Veja também : A Ilusão Neoliberal As Grandes Representações do Mundo e a Economia através da História ). [ NMM ]       
         
Michel Aglietta (1938). Ele é um dos fundadores da Escola de Regulação, que se opõe aos economistas neoclássicos,  monetaristas. Aglietta faz a ligação entre crescentes desigualdades e crises ambientais, ambas decorrentes de um capitalismo financeirizado em plena deriva. Ele acaba de publicar um relatório que coordenou para o Caisse des Dépôts : " Transformando o regime de crescimento ". Com Jean-Charles Hourcade, em particular, ele também está refletindo sobre mecanismos financeiros e bancários complexos (por exemplo, o blended finance garantias públicas à massiva mobilização da finança privada para a descarbonização na forma de Fundos Garantidores). [ EM ]  
     
Eloi Laurent (1974). Ele é um dos economistas franceses (OFCE) que se especializou nas dimensões econômicas da transição ecológica e, portanto, nas condições políticas necessárias para o sucesso dessa transição. Em vários trabalhos, ele desenvolveu a ideia de uma “ ecologia social ” ( La Nouvelle Écologie politique , 2008 ; Social-Écologie , 2011) ou criticou o eco-ceticismo ( Nossas mitologias econômicas , 2016). Em seu último livro ( Exiting growth : How to use ), esse economista resolutamente esquerdista considera que "o crescimento e o PIB não são , não são mais a solução : eles se tornaram o problema ". Eloi Laurent também se interessou pelos novos “ indicadores de bem-estar ”, alinhados ao trabalho de Joseph Stiglitz e Amartya Sen, desenvolvimento sustentável e, mais recentemente, a articulação entre crise social e crise ecológica. [ FM ]     
         
Antropólogos

Philippe Descola (1949). No debate ecológico contemporâneo, o trabalho de campo do antropólogo francês Philippe Descola , na América do Sul, desempenhou um papel fundamental na discussão da universalidade do compartilhamento entre natureza e cultura. Nesse sentido, seu trabalho mais famoso e fundamental permanece Além da natureza e cultura (2015), onde ele demonstra que a abordagem " naturalista " da cultura ocidental moderna é apenas uma certa relação humana com a realidade. Ao percorrer o mundo, podemos conhecer outras comunidades estruturadas por abordagens “ animistas ”, “ analistas ” ou “ totemistas ”, em que a oposição entre cultural e natural perde toda a sua relevância. [ JR ]      
      
Tim Ingold (1948). O pesquisador britânico primeiro estudou as ciências naturais e depois se mudou para os campos da antropologia. Com base nessa dupla paternidade, as obras pioneiras de Ingold vêm tentando há trinta anos descrever fenômenos vivos além da distinção entre os domínios cultural (humano) e biológico (natural). O que conta é o fato comum de estar vivo (" estar vivo ") em um processo de tornar-se incessante e relacional dentro de um ambiente (" de dentro "). [ JR ]     

Eduardo Viveiros De Castro (1951). Antropólogo brasileiro próximo às comunidades indígenas da floresta brasileira. Influenciado pelo pensamento deleuziano, ele ajudou a questionar nossa relação com a chamada " Natureza " e com as espécies vivas em nome de outras formas de estar no mundo (ou seja, outras ontologias). Seu livro mais conhecido continua sendo a Cannabis Metaphysics . [ JR 
     
Anna Tsing (1952). O antropólogo americano estava particularmente interessado no Le Champignon de la fin du monde. Sobre as possibilidades de viver nas ruínas do capitalismo (2015) com o cogumelo matsutake , que prolifera em espaços destruídos pelas atividades humanas : estudando sua coleção e sua venda, traça a história mais ampla de emaranhados entre humanos e não humanos, tecidos pelo caminho do fungo, oferecendo atenção renovada a " histórias divergentes, estratificadas e combinadas, que formam mundos ", outras formas de viver entre as ruínas da fúria ecológica. [ EM ]   
     
Historiadores

William Cronon (1954). Ele é um dos pais fundadores da " história ambiental ", que se esforça para trazer elementos naturais para a disciplina historiadora : florestas, rios, animais ... Na esteira do trabalho de John Muir e Aldo Leopold em uma abordagem de baixo para cima e destacando o entrelaçamento de atores humanos e não humanos, Cronon convida desviar o olhar antropocêntrico que colocamos em nossa própria história, para o que acontece do lado de um ambiente por muito tempo pensado como separado dos assuntos humanos. (Ver, em particular, Mudanças na terra : índios, colonos e a ecologia da Nova Inglaterra ). [ EM ]   
      
Jean-Baptiste Fressoz. Historiador da ciência, tecnologia e meio ambiente, Fressoz contribui para o pensamento do Antropoceno (época da história identificada pelo traço deixado pelas atividades humanas na biosfera e a marca irreversível de humanidade em seu ambiente). Ele critica a despolitização desse conceito em O evento antropoceno : Terra, história e nós (2013, com Christophe Bonneuil).  A espécie humana  produz categorias e narrativas que eludem a responsabilidade pela crise ambiental e ofuscam as relações econômicas, sociais e coloniais que determinaram as mudanças climáticas. No Apocalipse Alegre, uma História de Risco Tecnológico (2012), ele oferece uma história de risco tecnológico, mostrando como os atores positivistas e industriais do século XIX trabalharam,  cientes dos riscos, para " ajustar o mundo ao imperativo tecnológico ”. [ EM ]    
     
Os " colapsologos " 

Jared Diamond (1937). Autor do sucesso planetário, Jared Diamond não é estritamente um “colapsologo”. Cientista de alto nível (biólogo evolucionista, fisiologista e geonomista), professor de Harvard e posteriormente da UCLA, ele conta a história do " colapso "  ecológico de sociedades humanas do passado. (Veja : Colapso : como as sociedades decidem desaparecer ou sobreviver ). [ FM ]  
        
Pablo Servigne (1978). Com seus companheiros Raphaël Stevens e Gauthier Chapelle (mas também Yves Cochet e muitos outros), Servigne é o rosto e a voz mais conhecidos dessa corrente da ecologia contemporânea de língua francesa que ele próprio ajudou a chamar de " colapsologia ". Desde a publicação do best-seller Como tudo pode entrar em colapso (2015), seu pensamento sobre a iminência de um desmoronamento radical de nossos sistemas insustentáveis ​​ganhou cada vez mais espaço na mídia e nos debates políticos : de podcasts a Canais do YouTube passando por plataformas de TV e até Bercy (ministério da Economia da França). A arena pública vem e discutindo o discurso dos colapsologos com mais e mais frequência. [ JR ]     
   
Na encruzilhada da ecologia e da mídia

Fabrice Flipo (1972). Cercado por outros pesquisadores das ciências sociais, Fabrice Flipo realizou importantes investigações em torno dos bastidores ecológicos das tecnologias da comunicação (digital, em particular) que estão proliferando em nossas sociedades emparelhadas. No centro de seu trabalho (como Ecologia das infraestruturas digitais A face oculta do digital ), é visível uma série de assuntos que cruzam o ambiente e a mídia, como custos de energia, extrações minerais e resíduos tóxicos do universo conectado. [ JR 
    
Yves Citton (1962). Primeiro teórico da literatura e pensador da Era do Iluminismo, Yves Citton desenvolveu recentemente - em seu incansável nomadismo intelectual - uma série de obras preciosas que conectam os problemas da ecologia aos problemas das mediações (a saber, técnicas de comunicação). Sempre animados por um questionamento político em nossas comunidades sociais, técnicas e estéticas.  Veja em particular : Invertendo o insuportável Para uma ecologia de atenção Mediarquia . [ JR ]    
     
Eco-feministas

Susan Griffin (1943). Poeta, dramaturga, escritora eco-feminista. Sua abordagem é estudar os vínculos entre a destruição da natureza, o sexismo e o racismo, notadamente em Woman and Nature: The Roaring Inside Her (1978). [ EM ]  

Françoise d'Eaubonne (1920-2005). François d'Eaubonne , romancista e ensaísta prolífica, era acima de tudo feminista. Ela co-fundou o Movimento de Libertação das Mulheres ( MLF ) e depois a Frente Homossexual de Ação Revolucionária ( Fhar ). A aquisição gradual da consciência ambiental, o relatório impregnado Meadows Limites do crescimento ( " Limites do Crescimento " ) de 1972 e as idéias de Serge Moscovici , empurra-a para conciliar essas duas lutas. Em 1974, criou uma síntese entre a denúncia da exploração da natureza pelo homem e a exploração da mulher pelo homem. É no feminismo ou na morte (Éd. P. Horay) que o termo " ecofeminismo " aparece pela primeira vez, que será então adotado por ativistas americanos, ingleses ou indianos nos anos 80. No coração de sua teoria ecofeminista encontra a denúncia da " falta de limites da sociedade patriarcal " , que empurra tanto o esgotamento dos recursos quanto o " excesso de peso da espécie humana " . É neste contexto que coloca como o primeiro fundamento do eco-feminismo a retomada da demografia por mulheres e defende o direito à contracepção, ao aborto, bem como a abolição dos salários e dinheiro, numa lógica de diminuição econômica tanto quanto demográfica. Ela influencia pensadores como Vandana Shiva, Maria Mies e Starhawk. [ ZS 
                   
Falcão das Estrelas[Miriam Simos] (1951). Protagonista do movimento alterglobalista, ela também incorporou a luta e as teorias eco-feministas. A crise ecológica nos devolve, segundo Starhawk , a um sistema econômico capitalista prejudicial e a paradigmas culturais de dominação e racionalização, onde a história do gênero - masculino, é claro - desempenha um papel significativo. Seu pensamento também nos permite levar a sério os gestos dos feiticeiros e a imaginação neopagã tão difundida em certos círculos ambientais. Comece sonhando com o obscuro . [ JR ]  
  
Joanna Macy (1929). Ativista ambiental , pioneira em " eco-psicologia ". Na ecopsicologia prática e nos rituais para a Terra , ela é inspirada nas teorias do budismo e na abordagem sistêmica de desenvolver outro relacionamento consigo mesmo e com a natureza. [ EM ]    

Emilie Hache. Jovem filósofa e teórica da ecologia dedicada ao encontro entre questões ambientais, culturas militantes e pensamento feminista. Hache coordenou vários trabalhos, como Reclaim (2011), que ajudaram a renovar o corpo de questionamentos em torno da ecologia política. [ JR ]  
  
Políticos e sindicalistas

Gifford Pinchot (1865-1946). Político apaixonado pela vida ao ar livre, pesca, insetos, florestas, ele viveu por algum tempo em contato com o " deserto ", que lhe deu a vontade de proteger o meio ambiente. Depois de estudar em Yale, ele foi o primeiro a introduzir a silvicultura nos Estados Unidos. De seu treinamento em silvicultura, ele manteve a certeza de que a floresta poderia ser fruto de uma meticulosa cultura de árvores , no modelo de " cultivo de árvores " e com base em um modelo econômico lucrativo e sustentável, contra a exploração irracional de recursos naturais. Como governador da Pensilvânia,  ele defendeu suas ideias por muitos anos e se tornou o primeiro chefe do Serviço Florestal dos Estados Unidos. De fato, pertence à corrente de pensamento do conservacionismo , que defende a necessidade de gerenciar os recursos naturais que exploramos em nosso próprio interesse. Esse é o movimento ao qual a linha de apoiadores do desenvolvimento sustentável se inscreverá posteriormente. [MSL]   
     
Chico Mendes (1944-1988). O famoso dirigente dos seringueiros líder sindical brasileiroum dos grandes defensores da floresta amazônica, assassinado por grileiros desmatadores . Por um longo tempo, sua luta articulou-se no cruzamento de questões sindicais, indígenas e ecológicas, em nome dos povos da floresta e de críticas aos lobbies da exploração da Amazônia pelos grandes proprietários de terras ou pelos gigantes do agronegócio. Desde seu assassinato, suas idéias continuam a influenciar o pensamento ecológico brasileiro e, em particular, dos defensores da Amazônia. (veja : Chico Mendes, Minha luta pela floresta ). [ FM ]   
   
Alfredo Sirkis (1950).  Jornalista, ex-parlamentar,   Sirkis foi um dos implementadores de projetos de reflorestamento e ciclovias, no Rio de Janeiro, e a partir de 2014,  vem desenvolvendo o conceito da “precificação positiva” do menos-carbono, sustentando que a redução de emissões e o sequestro de carbono têm um valor econômico intrínseco. O Presidente Bolsonaro exonerou  Sirkis de sua posição de  coordenador do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas ” (FBMC), uma instância de concertação de governo e sociedade civil. Ele é diretor do Centro Brasil no Clima (CBC). Assumiu a articulação, em 2019, de um movimento subnacional dialogando com governadores de uma dúzia de estados para fazer frente ao negacionismo climático do presidente Bolsonaro e manter o Brasil no Scordo de Paris. Anteriormente, fora  deputado dos Verdes Brasileiros (eleito de 2011 a 2014), vereador e candidato à Presidência, em 1998 pelos verdes. Autor de vários livros incluindo o best-seller Os Carbonários.  No momento escreve um novo:  Descarbonario . [ FM ]  
            
Marina Silva (1958). Tendo crescido em uma família de seringueiros (cultivadores de látex) em uma pequena vila do Acre na região amazônica, Marina Silva se tornou uma defensora da ecologia no Brasil. De certa forma, assumiu o lugar do assassinato do líder sindical Chico Mendes. Líder política desde os anos 2000, senadora,  foi  ministra do meio ambiente do Presidente Lula, candidata presidencial em 2010, 2014 e 2018.  Suas posições tidas como conservadoras em questões dos costumes e da família podem ser criticadas, mas, dentro do mundo evangélico brasileiro, desempenha um papel importante ao encarnar uma voz ecológica e progressista enquanto os grande parte dos evangélicos, se tornaram eleitorado de Bolsonaro  e relutam em adotar temas ecológicos ou não desejam proteger a floresta amazônica. [ FM ]   

Al Gore(1948). Desde sua inesperada derrota nas eleições presidenciais de 2000, Al Gore dedicou parte de sua carreira à ecologia. Sua luta contra o aquecimento global envolve, em particular, sua ONG  Climate Reality Project e uma infinidade de iniciativas em favor de uma reforma da ordem monetária e bancária internacional, a fim de levar em conta a dimensão ecológica e as emissões de gases-estufa (através do Fundo de Investimento LPP de Gerenciamento de investimento em energia limpa, em particular). Ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 2007,  por seu compromisso com a luta contra as mudanças climáticas. Seu filme Uma Verdade Inconveniente foi um marco na conscientização global sobre mudanças climáticas ( Veja:  Escolhendo Agora Uma Verdade Inconveniente Emergência no Planeta Terra ). [ FM 
     
Cientistas : químicos, biólogos, geógrafos, geólogos ... 

Svante August Arrhenius (1859-1927). Químico sueco , que foi o primeiro a estabelecer uma ligação, em um artigo publicado em 1896 (" Sobre a influência do ácido carbônico no ar na temperatura do solo "), entre a concentração de dióxido de carbono no atmosfera e aumento da temperatura da Terra, o agora conhecido " efeito estufa ". [ EM ]  
    
Rachel Carson (1907-1964). Uma das principais cientistas, ligada a uma agência federal dos EUA, Rachel Carson foi uma das precursoras da questão ecológica nos Estados Unidos . Com seu livro Silent Spring Primavera Silenciosa) , com prefácio de Al Gore, ela entregou uma análise inicial sobre os perigos do DDT e pesticidas. Sua influência foi decisiva, dando origem a um movimento social real em favor do meio ambiente nos Estados Unidos e à criação de agências dedicadas, hoje muito ameaçadas. [ FM ]    

Élisée Reclus (1830-1905). Geógrafo, membro ativo do movimento anarquista, ele forjou uma geografia humana total, descrevendo em La Terre (1868) os fenômenos da vida do globo e o papel desempenhado pelo homem, benéfico como nocivo. Os dezenove volumes de A Nova Geografia Universal : Terra e Homens representam seu grande trabalho , uma enciclopédia da geografia total. [ EM 
    
James Lovelock (1919). Geofísico, ele desenvolveu com a bióloga Lynn Margulis o conceito " Gaïa " em vários livros ( The Ages of Gaïa A Terra é um ser vivo, a hipótese de Gaïa ). " Gaia " pretende descrever a peculiaridade do planeta Terra, onde um certo número de seres vivos não apenas habita, sofrendo a pressão do seu meio (em uma concepção darwiniana), mas também é capaz de  alterar a biosfera.  Segundo Lovelock , a Terra não é um bloco de matéria,  mas um vasto organismo vivo. Assim, " Gaia " torna possível ir além da fronteira entre sujeito e objeto, animado e inanimado, vivo e inerte, e conceber a vida como um processo físico auto-regulador, um vasto sistema simbiótico. [ EM ]     
     
Lynn Margulis (1938-2011). Microbiologista americana , ela revolucionou a biologia contemporânea com sua teoria da origem endossimbiótica das células eucarióticas. Ela destacou a dimensão evolutiva das interações simbióticas entre organismos de diferentes origens filogenéticas. Ela também é conhecida por ter criado com James Lovelock o conceito " Gaïa ". (Veja em particular : O universo bacteriano. Novas relações entre homem e natureza , com Dorion Sagan).  
    
Jean Jouzel (1947). Climatologista e glaciologista, membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), ele estudou notavelmente mudanças passadas e futuras no clima da Terra. Jean-Jouzel é uma figura renomada no alerta científico sobre o aquecimento global. (Veja : Climas passados, climas futuros ).     

Teólogos

Leonardo Boff (1938). Originalmente, o padre brasileiro Leonardo Boff era um " teólogo da libertação ". Com figuras importantes, como o peruano Gustavo Gutiérrez, o espanhol-salvadorenho Jon Sobrino ou, mais tarde, o brasileiro Frei Betto, Boff ajudou a imaginar uma teologia pós-marxista e católica, comprometida com uma maior justiça social, e que coloca em seu coração a " opção preferencial pelos pobres ". Depois de ter sido padre na Amazônia por um longo tempo e ter vivido em contato com as populações indígenas, sofreu uma forte oposição  do papa João Paulo II e, principalmente do cardeal Ratzinger, a ponto de desistir de sua ordem e eventualmente se casar. Nos anos 80, o (sempre) teólogo Boff começou a pensar, a partir da Bíblia, o status da terra. Explorada, e até " crucificada ", a Terra deve ser protegida como " casa comum " desejada por Deus. Ao fazê-lo, Boff contribui para a evolução da Teologia da Libertação e, logo,  de toda a Igreja Católica, em direção à ecologia. Ele publicou vários livros importantes sobre o assunto e foi uma das principais fontes para a encíclica Laudato 'Si sobre o ambiente do papa Francisco (...) suas ideias agora influenciando milhões de católicos em todo o mundo. (Veja : Leonardo Boff, A Terra em construção ou seus livros, não traduzidos para o francês, Rumo a uma eco-espiritualidade cuidados essenciais : uma ética da natureza humana ) [ FM ]      
            
Gaël Giraud (1970). Doutor em matemática e sacerdote-teólogo católico, foi economista-chefe da Agência Francesa de Desenvolvimento (2015-1019). Ele está interessado em financiar a transição ecológica e no funcionamento da economia de mercado (crescimento, PIB, bancos, IPO etc.), propondo modelos que integrem questões ecológicas. [ FM 

Jean Bastaire (1927-2013). Pensador da ecologia cristã , hostil à sociedade de consumo e heresia produtivista. Promove " caridade cósmica " entre homens e todas as criaturas terrenas. Em Pour un Christ vert (2009), ele pede uma ecologia espiritual e sóbria, respeitosa da criação, inscrevendo-a em toda a história da Igreja : " Cristo verde, essa estranha expressão é modelada no Cristo socialista do século XIX. século, obreiro Cristo e Cristo das barricadas que infelizmente falharam […]. A Igreja do século XXI perderá a reunião novamente ? » Veja também : Pour une ecologie chretienne , 2004. [ EM 
           
Ativistas

Greta Thunberg (2003). Se ela publicou alguns textos, prefácios ou livros, Greta Thunberg não é estritamente uma " intelectual " da ecologia. No entanto, o recente curso radical e as posições da jovem ativista sueca têm uma influência considerável no debate global sobre questões climáticas. No comando do Skolstrejk för klimatet (“ greve escolar pelo clima ”), foi matéria de capa da revista Time – o que prova, no mínimo, de sua influência – e deu origem a um verdadeiro movimento social jovem internacional. Também suscita críticas radicais. Sua luta  é em prol da urgência  ecológica e climática.  Ela se tornou um ícone dessa luta. (Greta Thunberg, cenas do coração ). [ FM 
           
Naomi Klein (1970)  ensaísta alterglobalista canadense , autora de best-sellers contra o neoliberalismo e a globalização econômica ( No Logo, The shock strategy ) tornou-se mais recentemente famoso como ativista ecológico com seu livro Anything Can Change : Capitalism and Climate Change (2014). Ela defende a ideia de que a transição ecológica é incompatível com a organização capitalista da sociedade e denuncia o discurso cético climático, às vezes alimentado por conflitos de interesse econômico. Também denuncia a lavagem verde de certos jogadores ou bancos supostamente verdes. 
Seu  trabalho foi criticado por  instrumentalizar a causa ecológica em benefício de suas ideias anticapitalistas. A ensaísta teve, não obstante,  o mérito de permitir que parte da esquerda radical se convertesse à questão climática . [ FM ]   
    
Pierre Rabhi (1938). Uma figura controversa no movimento ambiental francês, Rabhi é um agricultor que faz campanha pela agroecologia e pela " sobriedade feliz ". Ele foi o fundador do movimento Colibris. Graças a técnicas agrícolas alternativas e ideias futuristas e conservadoras em um retorno idealizado à terra, ele conseguiu conquistar um certo público.  O jornalista Jean-Baptiste Malet criticou no Le Monde Diplomatique , suas ideias que definiu como  ultraconservadoras,  comentários pseudo-científicos e lhe atribuiu vínculos com a extrema direita ; Pierre Rabhi respondeu com um direito de resposta. (Veja entre muitos livros de Pierre Rabhi, Ecologia e Espiritualidade Mãe Terra Em torno da sobriedade feliz e sua coleção de papel A coleção Terra ). [ FM ]    
              
Vandana Shiva (1952). Figura alterglobalista , ela lidera com sua organização Navdanya uma luta contra a agricultura intensiva e contra os OGM, em defesa da biodiversidade e agricultura orgânica, conhecimento indígena e autonomia alimentar. [ EM ]  
Alguns jornalistas

Hervé Kempf (1957). Jornalista especializado em meio ambiente , é editor-chefe do site Reporterre (jornal diário de ecologia) e autor de trabalhos sobre ecologia, dos quais Tudo está pronto para que tudo piore. 12 lições para evitar desastres . [ EM ]   

Fabrice Nicolino (1955). Jornalista investigativo,  foi ferido no ataque ao Charlie Hebdo.  Nicolino assinou várias investigações ambientais decisivas desde seu Tour de France d'un ecologist (1993). Ele é notavelmente responsável por uma grande pesquisa sobre pesticidas (2007) e outra sobre a indústria de carne ( Bidoche , 2009). Autor de vinte livros sobre questões ecológicas, ele também está na origem de uma campanha com Charlie Hebdo a favor da proibição de pesticidas (“ Queremos papoulas ”). [ FM ]      
    
Eugénie Bastié (1991). Jornalista “ bioconservadora ” que publica notavelmente no Le Figaro Eugénie Bastié foi uma das fundadoras em 2015 da revista Limite , cujo subtítulo é “ Revue d'écologie Intégrale ”. Assim, esse católico assertivo faz parte de um grupo de jovens intelectuais que estão tentando reconstruir uma ecologia de direita em novas bases. [ FM ]           

Os artistas

Ernst Haeckel (1834-1919). Biólogo estudando as relações entre um organismo vivo e seu ambiente, devemos a ele a invenção da palavra " ecologia ". Mas é sobretudo por suas Formas originárias da natureza (1904), uma verdadeira tradução artística da revolução darwiniana, que nos lembramos dele : esta série de litografias em que coexistem formas perfeitamente simétricas de insetos e flores, plâncton e corais, répteis e águas-vivas, testemunham um tempo em que arte e ciência não foram excluídas na observação meticulosa e na contemplação estética do mundo. [ EM 
       
Bernie Krause (1938). Músico especializado em " bioacústica ", ele pintou " paisagens sonoras " gravando os gritos e sussurros dos animais, em um convite para ouvir o que não é apenas ruído de fundo, mas esplendor acústica do nosso mundo, no qual nos banhamos. Um trabalho entre admiração e preocupação, porque as 4.500 horas de gravação de Bernie Krause também testemunham o desaparecimento maciço de espécies, sua extinção sonora ... Foi famosa na França com sua exposição na Fundação Cartier : " The Orquestra de Animais Grandes ”em 2017. [ EM ]     
    
Robert Smithson (1938-1973). Uma grande figura em Land Art , um movimento artístico que investe em ambientes naturais para criar obras arrancadas do mundo social e devolvidas aos elementos, Smithson é conhecido principalmente por Spiral Jetty (1970), localizado ao norte do Great Salt Lake, em Utah : A espiral, feita de rochas, sal e algas, deixando a costa como uma conseqüência, foge do olhar do espectador por sua imensidão e por sua inscrição nos longos tempos da Terra. [ EM ]   
    
Pierre Huyghe (1962). Buscando desenvolver obras ecossistêmicas, autônomas da intervenção dos espectadores, Huyghe cria instalações que continuam a " viver " fora do período da exposição, dando origem a mundos separados. Em Zoodram 4 (2011), por exemplo, um aquário cheio de pedras ocres abriga um caranguejo eremita cuja concha é uma reprodução da escultura A musa adormecida, de Constantin Brancusi. Ele também nos convida a pensar em nossa própria extinção, especialmente no vídeo Máscara Humana (2015), onde um macaco usando uma máscara branca caminha em um restaurante japonês deserto, um universo pós-Fukushima no qual a humanidade é reduzida a isso. figura de estranheza perturbadora. [ EM ]  
         
Olafur Eliasson (1967). Ativista ambiental, o artista plástico dinamarquês cria a maioria de seus trabalhos em contato direto com a emergência ambiental. Eliasson convidou o bloco de gelo para a abertura da COP21 em 2015 com sua instalação Ice Watch . Ao colocar pedaços de iceberg da Groenlândia na Place du Panthéon, em Paris, esses blocos de gelo, que se tornaram símbolos do aquecimento global, derreteram diante dos olhos dos transeuntes. No entanto, esta não é sua primeira tentativa em intervenções espetaculares. Desde o final da década de 90, ele injetou um corante não tóxico, dando uma cor verde fluorescente às águas lembrando urânio. Sem aviso prévio, os rios se transformaram em fluxos irradiantes e perturbadores. Um alerta contra a poluição das indústrias, muitas vezes invisível nos rios. [ DP ]    
Os cineastas
Hayao Miyazaki (1941). Figura indispensável do cinema de animação japonês, seu trabalho é atravessado por um grande suspiro animista (ou seja, a idéia de que todos os elementos que compõem o mundo têm interioridade, poder de ato), retratando sociedades em conflito com seu meio ambiente e a difícil coabitação de seres no mesmo espaço, da floresta tóxica que invade a superfície do globo em Nausicaä, no vale do vento , até o fundo do mar pronto para surgimento de ondas destrutivas em Ponyo, no penhasco , passando pela guerra entre os homens e as divindades da natureza na princesa Mononoke . [ EM ]   

Terrence Malick (1943). O cinema de Malick é habitado por um panteísmo majestoso, celebrando o Éden perdido que é a natureza. Seus filmes sempre reproduzem a possível fusão entre o homem e essa natureza mítica das origens, herdada do transcendentalismo americano de RW Emerson e HG Thoreau. Um ideal que provavelmente será varrido por guerras ( A Linha Vermelha ), conquistas ( O Novo Mundo ) ou dramas íntimos e existenciais ( A Árvore da vida )… [ EM ]  

Agnes Varda (1928-2019). A cineasta travessa continuou a levar a sério os objetos naturais que nos cercam: (...) girassóis que seguem o sol sem levar em consideração o possível infortúnio que está se formando atrás deles ( Felicidade ), a natureza não é apenas uma questão de decoração, mas desempenha um papel essencial nas histórias humanas. [ EM ]    

Também pensamos, entre os 100,  mas sem ainda poder lhes dedicar uma nota biográfica: no economista Jean-Charles Hourcade ; nos jornalistas Paul Piccarreta e Marianne Durano ; no artista Ai Weiwei ; no historiador de arte Paul Ardenne ; no historiador Frédérique Aït-Touati ; nos colapsologos Raphaël Stevens Gauthier Chapelle ; nos filósofos Maurice Merleau-Ponty, Jean-Pierre Dupuy, John Baird Callicott e Emanuele Coccia ; na feminista Silvia Federici ; no zoólogo Adolf Portmann ; na poeta Fabienne Raphoz ; na historiadora literária  Marielle Macé, no ativista Derrick Jensen.
• Esta pequena coletânea foi escrita pelos seguintes editores : Christophe Fourel (CF), Nathan Marcel Millet (NMM), Frédéric Martel (FM), Etienne Miqueu (EM), Jacopo Rasmi (JR), Zoé Sfez (ZS) e David Pata (DP). 
• Obrigado por seus conselhos ou revisão a Frédérique Aït-Touati, Yves Citton, Aurélie Filippetti, Christophe Fourel, Elliot Lepers, Arnaud Montebourg e Patrick Viveret.