24/08/2017

Queda no desmatamento, essa noticia que não interessa...


O Imazon é uma entidade não-governamental e costuma divulgar projeções sobre o desmatamento da Amazônia com antecedência ao PRODES, o monitoramento de satélite oficial feito com imagens do satélite Landsat 2 com uma resolução de 30m e uma série histórica que vem desde 1988. As imagens do PRODES que valem para o levantamento anual do desmatamento e a verificação de sua tendência são feitas em julho/agosto, minuciosamente checadas e, em geral, divulgadas em novembro. Existe um outro sistema, o DETER, que funciona de forma mais focada na detecção de desmatamentos e queimadas em curso. Sua resolução, assim como a do Imazon são menores.

 O Imazon costuma divulgar seus dados (agosto a junho do ano seguinte),   antes do PRODES e os referentes a  2013, 2015 e 2016  indicavam aumento no desmatamento o que, mais adiante era em geral confirmado pelos dados oficiais com diferenças não  muito significativas. Os números do Imazon, com viés de alta, nos últimos anos,  faziam invariavelmente manchete nos jornais e reportagens em horário nobre na TV. Esse ano, já dispomos de dados do Imazon que indicam uma redução de 21% da área desmatada. Dados preliminares tanto do PRODES quanto do DETER indicam a mesma tendência. 

 O costumeiro escarcéu cede lugar a discretas matérias de web site. Para a grande maioria do público  é um fato que passa despercebido. Perguntei a umas dez pessoas da minha relação se achavam que o desmatamento esse ano estava subindo ou descendo. Todos achavam que continuava a subir.

 O atual governo tem péssima imprensa. Já se convencionou considera-lo “o pior da história” em termos ambientais. A realidade é bem mais nuanceada mas ela não interessa. Na verdade é um governo dividido e refém de uma base de sustentação parlamentar onde o bloco ruralista tem força considerável. Esse bloco está em franca ofensiva e tenta por todos meios reduzir unidades de conservação e terras indígenas –passar para o Congresso a demarcação destas--  enfraquecer a legislação ambiental e dar conforto a grileiros e desmatadores. 

 Encontra resistência por parte do Ministério do Meio Ambiente e do IBAMA, do ministro Zequinha Sarney que vem no essencial enfrentando com valentia essa ofensiva, dentro do governo. Há derrotas e vitórias. Avanços e retrocessos. É um processo multifacetado e complexo, um fog of war aquela “bruma de guerra” onde ainda não se vislumbra os “finalmentes”. 

Politicamente, porém,  a tácita aliança entre segmentos da esquerda, que encontram no ambientalismo apenas mais uma bandeira de protesto, com a mídia “indignista”  não são capazes de reconhecer o valor das ações (e os resultados) da fiscalização do IBAMA, que apenas recuperou sua dotação orçamentária no final do ano passado  e foi capaz de recompor sua ações com uma certa eficácia. Por isso suas viaturas são queimadas e seus fiscais ameaçados de morte. Se fosse o "pior" comando e controle da história do Brasil não estariam sendo tão hostilizados, é óbvio.

 Há nesse momento um interesse político em dar a batalha como perdida com todo efeito desmobilizador e internacionalmente desgastante que isso acarreta para o Brasil em nome do “Fora Temer” e por parte daqueles que sequer têm, de fato, interesse que ele  caia de verdade. Simplesmente encontraram uma tábua de salvação para tirar o foco de suas próprias mazelas na figura do ex-vice de Dilma Rouseff.  

 Vejam essa notícia, hoje,  da anulação de uma enorme “reserva mineral” na Amazônia.  Quem lê e repica para as redes sociais, de bate-pronto,  pode não se dar conta que há aqui gato por lebre. Uma reserva mineral não é uma unidade de conservação ambiental nem terra indígena. As que existem nessa área se mantêm intactas (legalmente falando, claro). O que acontece é que remove-se uma restrição a exploração mineral feita na época por razões econômicas que nada tem a ver com o meio-ambiente que a ditadura desprezava solenemente. Continuam a vigorar todas as restrições ambientais e indígenas que incidem sobre essa área.Atualmente há ali dezenas de situações de garimpo ilegal. A intenção parece ser permitir que empresas e não quadrilhas possam explorar jazidas, respeitada a legislação ambiental.  Basta ver as fotos de satélite e comparar o entorno de uma jazida licenciada com o de uma ilegal como as que pululam nessa área. 

Dito isso, é impressionante a inépcia política da decisão. Na verdade uns 3% da área já está afetada e  degradada pelo garimpo ilegal que ninguém --muito menos  os atuais críticos quando estiverem nos governo--  conseguiram debelar. No contexto de desconfiança atual uma medida assim teria que ter sido tomada depois de extenso debate, explicação e de outras ações que fortalecessem as unidades de conservação e terras indígenas da área. Teria que ser circunscrita àquela pequena parte afetada pelo garimpo ilegal em específico, nunca uma coisa tão abrangente pois, evidentemente, levanta suspeitas e temores justificáveis.

 Mesmo uma medida assim mais limitada deve trazer preocupação pois haverá mais interesse sobre  a área. Cabe aí toda vigilância pois pode haver problemas adiante.  

 De qualquer modo a caracterização de que, por conta disso, esse governo é ambientalmente  “pior do que a ditadura”,  é um  bom mote panfletário que nenhum jornalista sério deveria seguir.

 Para a oposição é certamente um bom mote político. A verdade é que devermos acompanhar de perto e defender a legislação ambiental existente. Isso faz mais sentido do que chorar e espernear, a priori,  por um instrumento criado por razões outras, especulativas, sem nenhuma preocupação com o meio ambiente. 

  Nesses tempos de não-reflexão e polarização epidérmica   promover esse “indignismo” em circuito fechado, de nós com nós mesmos é tolo e paralisante. Enfraquece e afasta possíveis aliados e enfraquece mais ainda nossas hostes minoritárias. A bancada da motosserra agradece já que seu objetivo é derrubar o ministro do meio ambiente e provar para o governo que não vale pena ceder nada para  esses ambientalistas pois eles serão hostis em qualquer circunstância.


 Nesse contexto entende-se porque os números do Imazon são tratados como coisa desimportante quando deveriam ser celebrados como uma pequena vitória que nos anima para conquistar outras. Mas isso evidentemente não cabe nos cálculos do oportunismo político.

 Quanto a mídia, confirma mais uma vez que good news is no news, boas noticias não fazem notícia.

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