04/05/2017

Le garçon prodige et la Trumpette


 Assisti no Youtube o debate presidencial entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen. A sogra de maus bofes contra o menino prodígio. Do meu ponto de vista Marcon se deu bem. Diante do incessante bombardeio de invectivas, sarcasmos e acusações feitas numa cadencia digna daquele sambinha de Noel “Ê mulher indigesta, indigesta, merece um tijolo na testa" o jovem favorito manteve a calma,  a racionalidade cartesiana e uma rapidez de raciocínio fulminante. Conseguiu, ao contrario dela, expor de forma consistente suas propostas. Ao mesmo tempo desferiu estocadas de mosqueteiro naquilo que parecia um mulher-búfalo de olhos azuis muito claros, vidrados e uma boca torta de ódio com um constante sorriso amarelo. 

 Madame Le Pen pareceu descartar ao longo das duas horas de debate –num formato “livre” parecendo mais uma luta no octagon do MMA--  anos de tentativas  para se “desdiabolizar”, ou seja,  dar uma cara  civilizada, moderada,  ao partido fundado pelo pai, Jean Marie Le Pen, veterano parquedista das guerras coloniais dos anos 50, torturador na Argélia,  para os quais as câmaras de gás dos campos de concentração nazistas onde morreram 6 milhões de judeus foram apenas “um detalhe” da II Guerra.

 Marine vinha conseguindo ocupar espaços não só da direita clássica como da esquerda tradicional, comunista. Vinha cultivando uma imagem de “diferente do pai”, o qual expulsou do Front National quando ele reiterou suas tiradas nazistoides mais aberrantes. Ela pode ter posto parte disso a perder com sua atitude caricatural no debate.

Mas posso estar enganado... Também achei que a Hillary dera uma lavada no Trump nos três debates que assisti e no entanto...

 Se fosse possível separar o discurso anti-imigração e os arroubos islamofóbicos tentando assimilar toda uma religião ao terrorismo do Daech e do Al Qaeda e uma ou outra tirada de subtexto racista, o resto do seu deblatério  soava como um discurso “de esquerda” do tipo que já ouvimos tantas vezes. Não é atoa que uma parte --minoritária mas não insignificante-- uns 15% do eleitorado de Jean Luc Malenchon (o PSOL francês) parece migrar para ela no segundo turno.

 No final do debate,  ela deixou no ar uma insinuação de que Macron tinha contas num paraíso fiscal e seus lugares tenentes usando a técnica consagrada por Trump recorreram a “dizem por aí, nos sites que...”  citando os websites da ultra direita norte-americana. Também surgiram indícios dos famosos trolls de Putin em ação para tentar influenciar mais essa eleição. Mas há diferenças. Os franceses, em geral,  são mais politizados que os americanos.

 O Donald até consegue em certos momentos ser divertido como um personagem perfeitamente nonsense. Já Le Pen é     qual um rabecão a caminho do necrotério. O sistema eleitoral norte-americano é suficientemente torto para o Trump  ser eleito com quase 3 milhões de votos a menos porque ganhou em certos estados super-representados no colégio eleitoral. Na França,  segundo turno é “bola ou búlica”. Ganha quem tem mais voto.

  Isso deve levar Macron à uma vitória que seria “confortável” diante de qualquer adversário normal de direita ou de esquerda. No caso, no entanto, será desconfortável se  imaginarmos  Le Pen --com ajuda dos abstencionistas, brancos e nulos--  com  40% dos votos! Acaba sendo parecido com o fenômeno Trump só que noutro sistema eleitoral. Felizmente...

 O tribuno pós-trotskista Malenchon decidiu não dar nenhuma orientação de voto no segundo turno. Na prática  estimula seus eleitores a votarem  branco, nulo ou a se absterem. É igual ao PC alemão dos anos 30, que considerava os socialdemocratas o “inimigo principal” e Hitler um ridículo caporal que não conseguiria ficar nem seis meses no governo. Mais perigosos eram os “social fascistas”. Deu no que deu. (Trotski na época criticou) E a esquerda se reencontrou nos porões da Gestapo e nos campos de concentração, enfim unida nas valas comuns dos fuzilados ou mortos de fome.

 Há no ar um sinal dos tempos fascistóide e uma tendência ao encontro dos extremos o que no jargão político francês se chama de rouge-brun. Vermelho e pardo. Já se consagrou na Rússia. Também pontifica na Venezuela no bufo-fascismo pós-chavista de Maduro ou nas Filipinas com o "terminator" Duterte. 

No meio disso tudo, viceja um radicalismo babaca de esquerda bem pensante que se imagina moralmente superior. Vimos no que deu aqui. Assistimos isso também naquela parte do eleitorado de Bernie Sanders que se recusava a votar em Hillary. Agora tem Trump... Seus congêneres gauleses igualam Marcon a Le Pen. E os black blocs  promovem atos "anti-facistas" jogando coquetéis Molotov na policia mas não votam contra Le Pen da única forma possível e consequente: Macron, mesmo se for entrar em oposição no dia seguinte.  Contribuem para aumentar o percentual de Le Pen permitir que ela ocupe mais espaço. Ela sabe gerir o ódio com mais competência que a ultra-esquerda. 

Mas tudo isso acaba sendo acessório se não olharmos de fato a grande questão de fundo: o capitalismo globalizado --única economia existente, salvo na Coreia do Norte-- precisa se reinventar e reinventar o estado de bem estar do século XXI. Globalmente, porque hoje esforços nacionais, isolados  levam  não conseguem, vide a Grécia onde o Sirza nada conseguiu  mais que  o PASOK (sem a roubalheira, é bem verdade).  Passaram da extrema esquerda à social-democracia espremida em menos de um ano. 

 No período anterior, análogo, no século XX,  o mundo precisou passar, primeiro, por uma recessão horrenda, depois uma guerra terrível e, finalmente, pela construção de um império comunista, totalitário e agressivo,  para que políticas econômicas e sociais mudassem o sistema, primeiro nos EUA, com o New Deal e depois na Europa com a reconstrução. Vieram os "trinta anos gloriosos" e se impôs  a social-democracia e a proteção social mesmo lá, onde governaram homens de direita --civilizada-- como de Charles de Gaulle, Konrad Adenauer ou Dwight Eisenhower.  

 Agora, no século XXI,   já tivemos um grande recessão e  temos esses  brotes  autoritários nos EUA, Filipinas, Turquia, Russia, India, Hungria, Polônia, Venezuela e por aí vai.  E aqui nem falo aqui  do Oriente Médio em chamas com suas tragédias, a começar pela guerra civil da Síria.  Falta apenas uma nova grande guerra? Para onde tudo isso está indo??? 

 Estou seguro que com a vitória de Macron haverá uma grande pressão para que a União Europeia se salve de si mesma renunciando as políticas de austeridade obsessiva. 

 Le Pen pode produzir uma surpresa tipo Trump, no domingo?  Penso que não. Acho que não chega aos 40%.  Mas não chega a ser tão reconfortante assim porque a verdade é que a extrema direita na França nunca foi tão forte. Em 2002  seu pai teve 5.5 milhões de votos. Ela deve ter mais do dobro.  Já a  esquerda está dividida, pulverizada e totalmente desorientada. Debussolé como dizem os franceses.


 Emmanuel Macron, o garoto prodígio pode marcar o advento de um centro radical?  

  Disso precisamos...e não apenas às margens do Sena. 

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