A “guerra assimétrica” de Israel com os
palestinos, na sua mais recente rodada provocada pelo Hamas mas no contexto da opressão,
repressão e desesperança cultivada por Bibi Netanyahu, contem uma coleção de
paradoxos. Israel não alveja,
deliberadamente, civis em Gaza
mas está matando-os aos montões. Hamas dispara foguetes de forma indiscriminada
--até porque têm limitada precisão-- e só
conseguiu matar três civis mas a invasão lhe deu a oportunidade de infligir,
até agora, meia centena de baixas
militares a Israel. A rede de túneis ofensivos dos terroristas do Hamas
justifica uma operação terrestre para neutraliza-los. A resposta aérea contra
foguetes --pouco efetivos em função do sistema antimísseis Iron Dome-- e a destruição
de residências de dirigentes até o terceiro escalão do Hamas, atinge famílias
inteiras. Esses bombardeios aéreos no tecido urbano mais denso do mundo
resultam numa grande quantidade de mortes de mulheres e crianças que sua
alegada não-intencionalidade não consegue justificar aos olhos do mundo.
Um governo de Israel minimamente preocupado em
explorar uma chance de paz já teria tomado, preventivamente, iniciativas políticas em relação às horríveis
condições de vida da população de Gaza: proibição de portos e aeroportos,
fechamento de fronteiras, proibição da pesca, etc.. Teria evitado as indiscriminadas prisões na
Cisjordânia de centenas de pessoas sem nenhuma ligação com o atroz assassinato
de três adolescentes judeus. No plano
tático Netanyahu adotou, na Cisjordânia, o castigo coletivo e generalizado à população
palestina e uma resposta bélica desproporcional que prossegue com risco de
provocar uma terceira intifada. No plano estratégico, não deu a menor chance a qualquer acordo de
paz com Mahmoud Abbas que contemplasse minimamente as aspirações nacionais dos
palestinos. Sua política é manter o status quo: o Grande Israel, de fato, do Mediterrâneo ao Jordão com um regime de apartheid para uma população palestina
despojada de direitos.
Ao expandir incessantemente os assentamentos
na Cisjordânia, Netanyahu inviabiliza a cada dia um pouco mais a solução de
dois estados minuciosamente detalhada desde o Protocolo de Genebra, em 2003,
negociado informalmente por Yossi Beilin, ex-ministro da justiça de Israel e Yasser Abed Rabbo, secretário geral da
OLP, e os chamados “Parâmetros Clinton”.
Ao não aceitar um governo de unidade palestina que poderia permitir ao
presidente Mahmoud Abbas fazer evoluir o Hamas --que já a algum tempo aceita
uma hudna, uma trégua de longa
duração com Israel, em determinadas condições-- Netanyahu só enfraquece politicamente
o presidente Abbas e fortalece a ala mais radical do Hamas e organizações ainda mais extremadas.
O
maior erro de avaliação de Netanyahu e da direita e extrema-direita é acreditarem que
o tempo jogue a seu favor. O futuro desse Grande Israel em breve com maioria demográfica palestina,
sem direito algum, oprimida pelos colonos e confinada em bantustões, num contexto regional
cada vez mais favorável ao extremismo religioso é assustador para qualquer
pessoa minimamente lúcida que se preocupe com o futuro de Israel. Mas o seu
atual governo não possui mais gente assim, com a exceção, relativa, da ministra da justiça, Tzipi Livni.
Por tudo isso a crítica do governo brasileiro
à política de Netanyahu é correta embora a decisão de convocar nosso embaixador
seja questionável pela falta de isonomia e coerência com atitudes (ou
não-atitudes) em relação a outra situação, muito pior como a da Síria, por exemplo. Lá Bashar el Assad matou
não 1200 mas 150 mil civis! E temos Vladimir Putin, responsável, em última análise, pela criminosa
derrubada de um avião de passageiros, já
que equipou e treinou seus prepostos na Ucrânia com mísseis anti-aéreos. Foi aqui
recebido como grande estadista na recente reuniões dos BRICS. Já na Venezuela,
há alguns meses, a repressão comeu solta
e dezenas de jovens foram mortos e outros torturados sem a menor reprimenda de
nossa parte. Falemos claro: o governo de
Netanyahu, coveiro de qualquer esperança de paz, merece condenação pelo
conjunto da obra. Mas já que agora decidimos exercer uma diplomacia mais ativista,
não devemos cultivar dois pesos e duas medidas. Vale para Netanyahu? Deve valer
para Putin, Assad, Maduro et catevra.
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