25/01/2017

O pesadelo americano



Dei um tempo para ver os primeiros dias de Trump presidente para perceber se haveria alguma diferença entre o candidato boquirroto e o presidente na Casa Branca. Conforme temia não há. O que aconteceu nas eleições dos EUA, de 2016, certamente irá entrar para a história como um fenômeno extraordinário no qual grande parte de uma sociedade, enredada num sistema eleitoral anacrônico e que, nesse caso,  não refletiu a vontade da maioria dos eleitores,  assumiu um risco tragicômico e cometeu uma irresponsabilidade histórica abissal. Quão cômico e/ou  quão trágico ainda está para ser visto não só pelos EUA como pelo resto do planeta.

 O grotesco na história frequentemente plasmou-se em tragédia. Hitler era um ridículo caporal que começou tentando um golpe tresloucado baseado numa cervejaria de Munique. Foi sistematicamente subestimado pelo establishment político conservador da República de Weimar que pensou manipula-lo para seus próprios fins com o resultado que se veio a conhecer depois. O pateta do bigodinho custou dezenas de milhões de vidas. Mussolini, Nero, o imperador e grande artista que incendiou Roma porque achava bonito, Solano Lopes --que dizimou o povo paraguaio no que pese o revisionismo histórico de alguns que hoje o cultivam—não faltam histriões dentre os governantes pretéritos e contemporâneos,  de Mobuto a Kim Sung Il, passando por Papa Doc e Rafael Leonidas Trujillo.

  Os EUA nesse século haviam sido relativamente poupados por força de seu sistema “pesos e contrapesos”. Padeceram com um brilhante mas obtuso imobilista, Hebert Hoover,  que abriu caminho para a grande depressão de 1930, um  astuto e recalcado paranoico, Richard Milhouse Nixon e um primário porralouca, George W Bush. Podemos considera-los a todos consumados e renomados estadistas comparados quem acaba de aboletar-se na Casa Branca.

 A verdade é que ninguém sabe o que vai acontecer com Trump. A realidade política internacional  pregou peças e colocou perrengues históricos presidentes  norte-americanos bem mais capacitados: Kennedy teve que enfrentar a herança do intervencionismo em Cuba que gerou a crise dos mísseis de 1962,  quando estivemos a dedos de uma guerra nuclear.  Precisou  conter o general Curtis Le May que queria bombardear preventivamente a URSS. Truman teve que torrear o general Douglas Mc Artur que queria atacar a China e foi contido a duras penas. Bush, pai, soube repelir Saddam Hussein sem meter-se a ocupar o Iraque.

  Obama deu nó em pingo d’agua e foi injustamente estigmatizado por não ter bombardeado a Síria –de que teria servido???--  quando obteve algo mais significativo que foi destruir as suas armas químicas que poderiam facilmente ter caído nas mãos do Estado Islâmico.  Até para os mais preparados e inteligentes dentre os presidentes norte-americanos o mundo foi um lugar ingrato, complicado, perigoso e cheio de cascas de banana estratégicas. 

 De saída Trump quer meter-se no Mar da China, hostilizar o México, de forma inédita desde as guerras do século XIX, contribuir para desagregar a União Europeia e a OTAN, dar rédea total para a extrema direita israelense na Cisjordânia e Jerusalém, reverter o acordo nuclear com o Irã, destruir o seguro saúde criado por Obama para 20 milhões de americanos e desmantelar a política ambiental e climática construída nos EUA ao longo dos últimos 50 anos.  Quer desmontar a  EPA,  a agencia ambiental criada por Nixon,  em cuja direção colocou um homem já que defendeu sua pura e simples extinção e se distinguiu por ter movido contra ela inúmeras ações judiciais a mando dos poluidores os mais diversos.

 Trump é dispersivo, desatento e se interessa por relativamente poucos assuntos para além de sua própria glória.  Sua tendência será entregar para a extrema-direita republicana a maior parte das estruturas de poder e isso certamente produzirá numerosíssimos conflitos internos que ele terá dificuldade em mediar. Suas idéias econômicas são antípodas das cultivadas tradicionalmente pelo partido.  Ele deve se  concentrar em alguns poucos assuntos que lhe interessam  e manter uma relação de conflito infantil com todos os que cruzarem seu caminho ou por alguma razão entrarem na sua alça de mira. 

 Paul Pillar, um ex-analista da CIA e um dos comentaristas do site National Interest, que gosto de ler,  me parece muito pertinente quando duvida da tendência isolacionista atribuída a Trump por conta do seu discurso que lembra o dos republicanos do pós I Guerra, até Pearl Harbour (e de alguns democratas como Joseph Kennedy). Trump pode pregar um neo-isolacionismo mas é quase inevitável que acabe se metendo em alguma aventura bélica externa para desviar a atenção e tentar recuperar-se do extremo isolamento interno com o qual já se defronta. 

 Com quase 3 milhões de votos a menos, eleito  circunstancialmente  por cerca de 70 mil votos a mais em três estados (tradicionalmente democratas) Pensilvânia, Michigan e Wisconsin,  Trump tende rapidamente a ficar muito isolado junto a população das regiões mais dinâmicas e modernas do país.  Deve também rapidamente decepcionar a parte menos fanática e racista do eleitorado branco de baixa classe média ou operário que o elegeu. Seu primeiro grande alvo é o Obamacare e pelo que tudo indica ele arrisca acabar com o  seguro saúde alguns milhões dos seus próprios eleitores. 

 Um presidente dos EUA, internamente,  tem menos poder que um presidente brasileiro. Embora tenha maioria na Câmara, no Senado e, logo mais,  na Suprema Corte ele já fez suficientes inimigos dentre os republicanos para que se possa prever uma tantas frustrações para esse homem que não consegue lidar com elas.

Seu único poder, absoluto e impossível de controlar,  é o sobre o arsenal nuclear norte-americano. Como comandante em chefe, tem  discricionariedade sobre dos mísseis e ogivas  dos Estados Unidos que podem ser colocado em condições de lançamento em apenas quatro minutos com os códigos que porta um assessor militar que fica a pouca distância a todo momento.  

 O elefante na sala tem a forma de cogumelo... Muitos energúmenos já exerceram grande poder,  ao longo da abjeta história da humanidade mas nunca  o comando supremo sobre um tão mortífero complexo militar esteve em mãos  tão inseguras  quanto as desse  construtor imobiliário show man megalomaníaco de  imenso ego e curto pavio.




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