16/12/2016

Pepe e Fidel

  Artigo que recentemente mandei para O Globo mas não foi publicado, perdeu o gancho jornalístico da morte de Fidel mas achei útil desova-lo aqui. É a comparação entre duas revoluções. Uma happy end mas desconhecida pelo seu "déficit de sangue". Criou um país feliz, a Costa Rica,  mas os jornalistas e historiadores dão pouca bola para isso. A outra conhecemos melhor...


Fidel Castro
Pepe Figures


A recente morte de Fidel Castro relançou recorrentes polêmicas sobre a revolução cubana. Libertação ou opressão? Avanço social ou penúria generalizada? Dignidade ou tirania? 

 Para além das fortes polarizações ideológicas e idiossincráticas que a morte do velho comandante em chefe suscitou, existe uma realidade perceptível: depois de quase 58 anos de revolução a grande maioria de população cubana vive uma existência de privações e virações, com um padrão abaixo das classes médias e dos pobres integrados ao mercado de trabalho da América Latina e Caribe. Acima, certamente, da miséria mais extrema e do abandono daqueles seus segmentos mais miseráveis e marginalizados. 

 Existe um padrão destacado de saúde e educação que produz um fenômeno raro: uma boa parte da população trabalha em atividades abaixo de seu nível de formação: o engenheiro garçom, o professor universitário chofer, todos na caça frenética do peso conversível (o CUC) a moeda alinhada ao dólar distinta do peso cubano que paga os salários (baixíssimos) e as tarjetas de racionamento. Existe uma elite política e militar com um padrão de vida muito superior e diversos tipos de privilégios. 

 A liberdade de expressão e de manifestação é muito restrita e frequentemente reprimida com dureza, não há imprensa ou organização política fora do partido único. A conquista incontestável é o orgulho nacionalista e a notoriedade internacional. Fidel manteve seu desafio a onze presidentes norte-americanos, foi quase pivot de uma guerra nuclear, em 1962. Influenciou decisivamente processos na África e nas Américas. Pesou no ranking internacional.

  Fidel e sua revolução marcaram profundamente a narrativa jornalística e histórica do século XX e início do XIX. Já o mesmo não aconteceu com uma outra revolução, na mesma região, com resultados sociais, econômicos e democráticos bastante distintos: a de 1948, na Costa Rica, liderada por José Maria “Pepe” Figueres.  Ela teve seus aspectos radicais como a nacionalização dos bancos e a encampação (negociada) da United Fruit. Investiu obsessivamente na educação, instituiu a separação de poderes com autonomia do judiciário e dissolveu o (seu próprio) exército. 

 Numa região de tantas ditaduras, promoveu eleições livres a cada quatro anos, desde 1949. Relativamente incruenta, com um desfecho negociado (e sem paredón), essa revolução não figura no nosso Panteão histórico-jornalístico onde se destacam heróis trágicos,  mártires patéticos e  tiranos sanguinários. Uma revolução de pouco sangue e happy end,  um líder revolucionário que abre mão do poder, dezoito meses depois, uma vez terminada a transição, para depois ser eleito presidente, em eleições livres, em 1953 e em 1970, um “socialista utópico” que sabia dialogar com os EUA e influenciar sua política mereceu lugar menor na História.   

 Poderia ter sido assim também a revolução cubana, onze anos mais tarde mas a quase imediata hostilidade norte-americana, na dinâmica implacavelmente polarizadora da guerra fria --em 48, nos primórdios,  em  59, no apogeu— e, sobretudo,  a  personalidade de Fidel Castro lhe deram outro destino. 

Há quem atribua a diferença entre Fidel e Pepe à idade e origem social: Pepe, filho de um modesto médico catalão, era um pequeno fazendeiro, conhecia bem os EUA e tinha 42 anos quando liderou sua revolução.   Fidel, filho de um grande latifundiário de origem galega, era estudante quando chefiou o assalto ao quartel de Moncada. Depois, conheceu apenas a prisão, o exílio e  Sierra Maestra. 

 Pepe era acostumado a ouvir, comerciar, negociar. Fidel nascera para mandar e ser obedecido. Os ticos (os costarriquenhos) nunca cultivaram o Patria o Muerte! Pacíficos, cosmopolitas e mais prósperos, são, certamente, muito mais felizes, ainda que em terra de tantos vulcões.  Mas felicidade é coisa irrelevante na cultura política e jornalística do nosso tempo. Uma antiga revolução de raro final feliz decididamente não merece ser notícia nem muita História. Padece de um imperdoável déficit de sofrimento e de sangue. Pepe faleceu em 1990 num quase anonimato internacional. Já Fidel...

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