14/02/2013

Mensagem à plenária de constituição do novo partido



Caros amigos e amigas:

 Não posso nessa ocasião estar fisicamente presente junto com vocês mas certamente estou de coração e politicamente. Podem contar comigo para a fundação do novo partido.

 É o início de uma nova caminhada num momento de grande descrença em relação à vida política no Brasil. Há uma crise da democracia e das formas tradicionais de representação em praticamente todo o mundo. A não-participação é a expressão mais generalizada desse descontentamento.

A sensação de impotência é imensa. A esperança, no entanto, renasce todos os dias das mais diversas formas pois a maioria das pessoas --e em particular a juventude-- sempre aspira uma vida melhor, uma sociedade mais justa e sustentável.

 Sabemos ou intuimos que a ação política é indispensável e pode ser transformadora ainda que sempre sujeita a frustrações e retrocessos.

 Acredito numa dimensão nobre da ação política. Aquela de: “organizar as pessoas para melhorar as coisas”.

 Infelizmente a política no nosso país, em geral, não é entendida dessa maneira. Fica mais no plano do: “quero um espaço para poder me dar bem”. O “dar bem”  entendido como acúmulo de poder relacionado com acúmulo de riqueza patrimonial.

 O nosso sistema eleitoral do voto (distorcidamente) proporcional e personalizado com os partidos reduzidas à mera condição de  “legendas”,  permitindo aos políticos somar aritmeticamente seus votos para obter cociente eleitoral (e eleger um “baixo clero” com pouco voto)  induz  um tipo de cultura política muito peculiar.

Ela  é corrosiva do interesse público.

 Partidos que foram constituídos, nos anos 80, justamente para oferecer uma alternativa diferente de fazer política, como o PT e o PV, acabaram engolidos, fagocitados, por essa cultura política do fisiologismo, clientelismo e da falta de ética pública.

  Quase três décadas depois do restabelecimento da democracia, ao final da ditadura que combatemos, o establishment político no nosso país sustenta-se, numa ampla medida,  na compra direta ou indireta de votos. No pagamento de cabos eleitorais e nos centros assistenciais.

 Ultimamente essa situação só tem piorado. O fato da impunidade não grassar de forma absoluta e dos envolvidos no chamado “mensalão” terem sofrido um grau de punição --que inclui a execração pública-- não significou nenhuma mudança significativa na correlação de forças nem nos mecanismos que movem a grande política brasileira.

 Há por trás daquele escândalo um sujeito oculto, escamoteado:  a tragédia da governabilidade no Brasil. Se hoje não existe um suborno regular e sistemático do executivo dentro legislativo,  temos a entrega de ministérios a políticos sem competência específica para dirigi-los e que os utilizam,  junto com dezenas de milhares de cargos comissionados de livre provimento,  em órgãos e empresas estatais, para a prática do eleitoralismo, do clientelismo e, frequentemente,  da corrupção.

 Francamente, não sei se essa ocupação medíocre da máquina pública,  sem sombra de meritocracia,  representa de fato progresso em relação a esse escândalo tão execrado...

 Em termos de política ambiental as contradições são flagrantes: o retrocesso no Código Florestal arrisca comprometer os recentes avanços na redução do desmatamento e das emissões de carbono.

 Em diversos países já se investe de forma resoluta na economia verde mas aqui ainda se subsidia a indústria automobilística sem nenhuma contrapartida de sustentabilidade. Insiste-se numa matriz energética atrasada, cada vez mais “suja” e despreza-se ostensivamente  energias limpas como o solar.  

  A condução da economia é feita com um olhar no curto prazo e nos tempos eleitorais. O Brasil sonhado para o futuro é o do desenvolvimentismo de décadas passadas.

 Sem negar os avanços que aconteceram nas últimas duas décadas nos governos do PSDB e do PT e do papel que o PV representou na formação de uma consciência verde no Brasil, é preciso ir muito além.  

....

 Num momento em que cogito seriamente encerrar minha atividade parlamentar/eleitoral, ao final do presente mandato,  parece ser paradoxal me envolver novamente com um novo partido,  27 depois de ter fundado o PV.    

 Partidos políticos, mesmo em suas fases positivas --que costumam a ser aquelas iniciais--  são instrumentos complicados.

 Na cultura política brasileira, engendrada pelo sistema eleitoral vigente, mais ainda. Partido quer dizer disputas afoitas de poder –daquele pequeno poder-- rivalidades, intrigas, paranoias, burocracia, cartório...

 Por outro lado são indispensáveis para a participação no processo eleitoral e na vida institucional do país.

 Não são o único instrumento de se fazer política mas são um indispensável se queremos ter uma chance de transformar no âmbito da gestão pública. Mas não podemos, tampouco,  desistir de tentar fazer deles o que deveriam ser primordialmente: correntes de pensamento, escolas de formação e de cidadania e veículos de ideias e ideais como o PT e o PV tentaram ser nos seus  primórdios.

 Nas nossas circunstâncias, se queremos dar uma voz aos quase 20 milhões de brasileiros que votaram em Marina Silva, em 2010, precisamos dispor desse instrumento, partido.

 Continuo ideologicamente e programaticamente um verde.  Me sinto vinculado planetariamente a esse pensamento e a esse movimento internacional e gostaria que a marca do novo partido contemplasse essa identidade. Portanto minha sugestão em múltiplas escolhas para sua denominação são: Verdes, Verdes e Cidadania, Rede Verde, ECO, ECO BRASIL ou REDE ECO BRASIL. ECO tem o duplo significado de ecologia e do ecoar das aspirações de milhões de brasileiros.

 Além do partido e dos movimentos que já temos vamos precisar de dois outros instrumentos uma frente e uma rede, propriamente dita. Com vistas a 2014,  uma frente eleitoral de partidos para as eleições,  senão não teremos meios de disputa-las.  É um grau de pragmatismo necessário para possibilitar uma campanha minimamente competitiva.

 E, para além dos momentos eleitorais, precisamos de uma rede Rede!

 A transformação na política brasileira depende muito de um trabalho, de longo prazo,  no âmbito municipal, estadual e federal, dentro das instituições governamentais, na sociedade e nas empresas,  mediante uma verdadeira revolução cultural na direção da sustentabilidade e da ética pública.

 Isso se dá formando, ajudando e promovendo pessoas: quadros políticos, quadros de gestão pública e privada, em todo o Brasil e que hoje se encontram em diversos partidos. Que em 2014 poderão estar em distintas campanhas presidenciais. Seria uma tolice pensar que os bons se concentram todos em um único partido ou campanha apenas. Ou somente neste ou aquele credo ou não-credo religioso.  Precisamos poder identificar e apoiar uma rede multifacetada e plural de pessoas e grupos que queiram fazer evoluir o Brasil rumo à sustentabilidade e a ética pública, numa pátria plural, republicana e laica.

 Portanto,  ao pensarmos partido precisamos simultaneamente pensar movimentos, frente e rede.

...

 Uma nova etapa de sonhos e de lutas se abre no dia de hoje e estou presente de coração junto a vocês.

 Confesso: não sou lá tanto um mantenedor de utopias --desconfio delas--  sou um esforçado transformador de realidades, no que dá para transformar,  em cada momento histórico dado. Fui feliz em algumas ocasiões como gestor do poder local.  É o que gosto de fazer além de escrever.

 Sou escritor, estou deputado federal.  

 Hoje,  atuando nacionalmente,  vejo este muro enorme que se ergue diante de nós.  Vamos escala-lo com pás e picaretas,  derruba-lo pedrinha por pedrinha, como foi o muro de Berlim?  Ou cavar um túnel por baixo? Ou quem sabe um balão? Quem sabe um salto com vara?

 No momento sombrio da política brasileira em que tudo contribui para o desânimo,  quando os antigos instrumentos, para nós tão caros, se desgastaram irremediavelmente, novas tentativas se fazem necessárias.

 Novos desafios aguçam nossas mentes, novas esperanças animam nossos corações.


Alfredo Sirkis


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