24/11/2018

Mitos e tiros no pé


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Atentar contra a integridade do MMA e dos combalidos IBAMA e o ICMbio, só pode estimular o repique do desmatamento ilegal com risco de voltáramos ao seu ápice, de 2004, quando chegou 27 mil km2. Caiu a menos de 5 mil, em 2012. No ano passado, já estava em 6,9 mil, em ligeira queda em relação aos dois anos anteriores. Acaba de sair a estimativa para 2017 (agosto a junho) com 7,9 mil KM2. O desmatamento na Amazônia (95% ilegal) volta a aumentar. Tende a  subir em flecha, no próximo ano, com a continuidade da evasão de efetivos do IBAMA e, se não for revertida,  a sinalização do “liberou geral”, no governo Bolsonaro.

 Os ditos ruralistas comemoram mas a curto prazo, a agricultura brasileira ver-se-á internacionalmente prejudicada em sua competitividade por desnecessários desgastes de imagem. Evidentemente,  sofrerá os graves efeitos do aquecimento global com mais estiagens, falta d’água, mudanças no solo, variações loucas de temperatura e inundações, dependendo da região. Por outro lado, o conjunto de ações de agricultura de baixo carbono reduzem emissões e aumentam a produtividade.

Mitos podem ser instrumentais em campanhas eleitorais. No entanto, uma vez no governo, a autointoxicação com fake news ou preconceitos é receita segura de desgaste desnecessário. Vimos doses consideráveis disso em relação à questão climática, na linha do: “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. Acaba de sair um relatório de 13 órgãos do governo norte-americano --divulgado pela própria Casa Banca de Trump--  alertando para as graves consequências econômicas para os EUA decorrentes da mudança do clima. 

Não, o Acordo de Paris em nada afeta nossa soberania nacional sobre a Amazônia.  Seu dever de casa se dá na forma, voluntária, de uma Contribuição Nacionalmente Determinada (sigla em inglês NDC). Na contribuição brasileira não há um compromisso com “desmatamento zero”. Há de reduzir a zero, até 2030,  o desmatamento ilegal. Numa discussão rumo a avanços, subsequentes, aparece o conceito de “desmatamento líquido zero”.  Não significa que nenhuma árvore irá ser removida mas que esse desmatado será compensado por reflorestamento, tanto de mata nativa quanto econômico. 

O Brasil possui, inclusive, um excelente potencial para gerar “emissões negativas”, quando se sequestra mais carbono do que se emite. Isso pode atrair variadas modalidades de investimentos e financiamentos geradoras de atividade econômica e empregos. 

O desmatamento legal, salvo em grande projetos de infraestrutura, é licenciado pelos órgãos estaduais. O intenso ódio ao fortemente desfalcado IBAMA e ao ICMbio não vem dos produtores rurais que atuam dentro da legalidade nem do grande agrobusiness exportador mas de  grileiros ou garimpeiros criminosos  que desmatam,  envenenam rios com mercúrio, em geral em florestas públicas. Reprimi-los será agora mais da seara do ministro Sérgio Moro do que da combalida área ambiental. São atividades criminosas.

 Com mais de 60 milhões de hectares de pastagens degradadas,  a agricultura e a pecuária brasileiras não necessitariam, em tese, avançar mais sobre a floresta. Digo “em tese” porque há interesses locais, totalmente marginais em relação à moderna agricultura brasileira,  que faturam com a especulação imobiliária rural: grilagem de terras --quase sempre públicas--  desmatamento para valorização no “mercado” ilegal, venda irregular da madeira, pasto para uma pecuária  marginal de baixíssima produtividade. Economicamente isso é muito pouco relevante. 

 Em termos políticos é outra conversa porque esses grileiros --no sul do Amazonas, vinculados ao narcotráfico--   são cabos eleitorais eficientes. Cabalam votos para parlamentares que acabam integrando a chamada bancada ruralista com uma influência  desproporcional a seu peso realidade econômico.  

O discurso “de esquerda” contra todo tipo de agronegócio por causa de sua natureza capitalista ajuda a valorizar esse tipo de liderança ruralista menos representativa do setor produtivo. A adesão da extrema-esquerda à causa ambientalista foi tardia --nos anos 80, quando iniciamos, odiavam o tema--   e instrumental. Ela passou a ser importante por fornecer uma bandeira de protesto adicional. Iniciativas malconduzidas de reforma agrária com ocupações, sem uma estratégia produtiva, também foram fator significativo de desmatamento. À direita e à esquerda ideologizou-se um tema que não é ideológico.

 Essa ideologização ressuscitou  dois mitos: à direita: o ambientalismo como uma causa “de esquerda” e que  objetivaria a que potencias estrangeiras ocupassem a Amazônia. Pioneiros da ecologia no Brasil foram o Marechal Cândido Rondon e o Almirante Ibsen de Gusmão Câmara, por exemplo. Não eram precisamente uns  “comunas”... Quanto a roubarem nossa soberania sobre Amazônia, francamente, nos últimos quarenta anos participei de centenas de reuniões internacionais climáticas,  em dezenas de países e jamais ouvi tal disparate ser colocado, uma única vez sequer. 

A tal "Triplice A" é outro mito. Trata-se de uma ideia de uma espécie de corredor verde ou APA internacional juntando regiões da Amazônia da Colombia, Peru e Brasil é uma ideia meio descosturada que algumas ONGs colombianas conseguiram vender para o ex-presidente Manuel Santos que chegou a propor isso numa reunião com Temer. Como afeta as áreas de fronteira houve uma preocupação dos nossos militares que considero legítima. O Brasil, desses três países,  é o único a dispor de um instrumental de monitoramento por satélite o que nos dá uma proeminência em relação aos vizinhos. Até hoje não apareceu uma proposta objetiva e detalhada de como algo assim funcionaria. Parece mais um factóide que uma proposta prática. Imagino que a raiz da desconfiança possa estar no receio de que possa levar a coibição de atividades de mineração que  merecem uma discussão mais séria e objetiva do que a forma com que foi tratada a questão da famosa RENCA.

Na questão indígena,  concordo que o uso da expressão “nações” pode dar margem a equívocos e deve ser evitada. A soberania brasileira exerce-se na forma da Constituição e das Leis, no conjunto do território nacional e ponto final. Mas a hostilidade em relação aos indígenas que resistem com arco, flecha e tacape ao desmatamento e a contaminação dos rios pelos desmatadores e garimpeiros criminosos é injusta e estúpida. 

 A agricultura brasileira será a primeira a sofrer com a mudança climática e graves danos ao meio ambiente local. Irá, a curto prazo, prejudicar sua competitividade expondo-a a um estigma e, a médio prazo, a efeitos mais rápidos e mais catastróficos do próprio aquecimento global para além dos ambientais, locais. Teremos mais estiagens, falta d’água, mudanças no solo, variações loucas de temperatura ou inundações, dependendo da região, quando não alternadamente. 


Todas essas questões deveriam ser alvo de um diálogo objetivo e sem preconceitos. Até agora nada indica que sera o caso.


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