07/06/2020

Do vírus e do desgoverno


 
Estamos em rota para nos tornarmos os campeões do mundo da pandemia. Com uma subnotificação de casos e óbitos muito significativa já deixamos para trás –escrevo nos primeiros dias de junho--  a marca dos 34 mil. Nossa curva é fortemente ascendente,  longe da estabilização. Inevitavelmente vai se acentuar com o fim de boa parte das medidas impostas por prefeituras e governos de estado. 

 Isso é agravado pelo descalabro presidencial. Bolsonaro é de todos o chefes de estado do mundo o maior aliado do vírus. A rigor, dentre muitos incompetentes e lentos temos apenas três realmente negacionistas: Bolsonaro, Alexander Lukashenko (Belarus), Donald Trump. E ele. Ele é o  pior deles. Trump começou dizendo que era uma gripezinha a toa, multiplicou trapalhadas diversas, não traçou uma estratégia nacional coerente, por vezes ouvindo e por vezes ignorando seu conselho científico –pelo menos tem um com cientistas respeitados. Virou garoto propaganda da Cloroquina. 

Lukashenko propôs soluções mais simples: vodka e sauna. 

 Bolsonaro deixou-os para trás. Numa reunião ministerial falou em armar o povo para resistir as prefeituras e governos do estado, multiplicou happenings onde além do fechamento do STH, do Congresso e do novo AI – 5 deu o exemplo para dezenas de milhões de pessoas sobre como se comportar face à gripezinha, todos juntos e misturados...

Demitiu por pura ciumeira um ministro da saúde que tentava fazer algo, fez o substituto sair em menos de um mês e agora tornou-se ministro por pessoa interposta. Tendo como ponto principal da agenda promover a Cloroquina, remédio que não funciona e pode fazer mal,  e promove o “liberou geral” que veremos em efeito a dos próximos dias.   O exemplo vem de cima.

 Milhares mais morrerão. Nos países que estão flexibilizando o isolamento social –após o pico nacional ou regionais--  há uma estratégia que passa por forte indução comportamental, abertura escalonada e outros cuidados. Aqui estados e municípios tentam o mesmo mas ainda num momento de alta da curva, com problemas de infraestrutura de saneamento,  super densidade de habitação transportes e cultura notória  de indisciplina urbana, falta de respeito à regras e negligência que são peculiares à nossa cultura.  Temos o poder estadual e local tentando fazer alguma coisa e o presidente da república boicotando perversa e sistematicamente. Não passado, lamentou que a ditadura não tivesse matado mais 30 mil pessoas. Essa lacuna já foi compensada...

 É obvio que se acumulam  crimes de responsabilidade e atos de subversão e seu afastamento é a única solução digna para o país. A situação ainda não está madura para um desenlace constitucional. 

 A hipótese da um autogolpe de estilo Fujimori é evidente. É o que ele mais deseja mas não tem massa crítica para conseguir. Seus congêneres pelo mundo afora partiram de fortes maiorias eleitorais (Nicolas Maduro o herdou de Hugo Chavez; Rodrigo Duterte tem maioria no Congresso, Erdogan, Putin, Kaczinski e Modi maiorias eleitorais continuadas, São águias de voo mais alto. Bolsonaro é um colegial perto destes ditadores ou semi-ditadores. 

 O que vai fazer? Mandar o cabo e o soldado fecharem o STF e o tenente e o capitão o Congresso? E baixar o AI 6 ?  Em pleno drama da pandemia o máximo que Bolsonaro pode fazer é determinar alguma desobediência,  à ordem judicial e colocar algumas centenas de milicianos nas ruas. Promover mais bagunça e indisciplina.  E depois?

 Estou pasmo com certos militares! Sempre os tive como profundamente avessos à bagunça, à indisciplina, ao ridículo, à quebra de hierarquia, ao desrespeito aos seus comandantes, a manipulação indevida da bandeira brasileira e à subversão da ordem. Há algo mais subversivo do que formar milícias e distribuir “armas para o povo”? 

 A sociedade brasileira, ao contrário da dos anos 60, está saturada de armas. Bolsonaro é totalmente incapaz de implantar uma  ditadura militar centralizada com ele próprio de ditador no estilo centro americano. Pode no entanto criar a “sídrome dos estados falidos” onde haverá milhares de ditaduras armadas, em favelas, bairros, periferias, localidades, estados, cidades, quarteirões. Há vários países onde isso já aconteceu e o caminho principal sempre foi: a quebra do monopólio das Forcas Armadas sobre o armamento de guerra e as milícias sobrepujando as Forças Armadas.

  “O povo armado” já foi fetiche-mor da extrema esquerda. Hoje é do fascismo tresloucado. O exemplo dado pelo ministro Celso de Mello da República de Weimar é pertinente embora limitado. Hitler, como Bolsonaro, tinha 32% do eleitorado mas as milícias dispunha, que se tornaram suas ao longo do tempo,  existiam desde o fim da I Guerra e o nazismo era um enorme movimento de massas, não meia dúzia de gatos pingados fazendo carreata. 

Deus, poupe nos de tanto ridículo. 

A hora do maior  perigo 

Estamos no Brasil  entrando no momento mais grave da pandemia, com uma população desorientada e o pior dos governos. A hora é de uma ação local, comunitária solidária, fraterna e inteligente. Nada de pânico porque já estamos no olho do furação. São as dezenas, talvez centenas,  de milhares de mortos que nos aguardam no maior problema sanitário e de segurança nacional já vivido pelo Brasil. Por isso vou terminar comentando como limita-las, até onde consegui me informar em tudo que li. 

 1 – A forma principal de contágio, de longe, é o contato a pouca distância em ambiente fechado o que incluí os transportes coletivos. Pessoas sem máscara trocam gotículas com vírus que penetram pelo nariz, boca e olhos. 
2 – A maior icógnita   são os aerossóis. Até que ponto o COVID 19 é capaz de se alojar em partículas em suspensão (poeiras etc.) e, inclusive, ser disseminado pelo ar condicionado central de escritórios, lojas, salas de espetáculo. Casos assim foram identificados mas não se conhece seu peso nem mesmo qual a capacidade de contágio do vírus nessas condições.
3 -  A máscara é fundamental. Além da proteção considerável contra espalhar e contrair é simbólica de uma atitude de resistência da população ao vírus. Por isso mesmo uso-a mesmo andando de bicicleta a grande distância que quaisquer outras pessoas. Precisamos ser vistos com ela, dar o bom exemplo.
4 – Lavar as mãos toda hora e levar consigo a garrafinha de álcool gel é importante. Também não sabemos que proporção de contágio provêm do contato com superfícies tocadas mas é certo que exista. 
5 – A imensa maioria das pessoas se contagiou em casa em contato com familiares e amigos sintomáticos ou assintomáticos.  Tão importante quanto os respiradores e  as UTI e contar com alojamento decentes para poder isolar pessoas,  que não estejam em estado grave,  dos seus próximos durante o período de quarentena. No Brasil isso não está sendo olhado com a devida atenção. 
6 – É preciso ter uma política inteligente de testagem –usar técnicas de amostragem estatística--  e de boa qualidade. É importante poder rastrear os contatos de pessoas infectadas e usar aplicativos de celular para tanto.
7 – Sem cair no total isolamento social –ainda é possível que tenhamos que regressar a ele--  temos que fazer o sacrifício de limitar ao máximo o número de pessoas com  as quais interagimos. Vai contra nossa cultura gregária de sociabilidade mas limita a transmissão. 

Relance#Tanta coisa que não sabemos: por que o vírus afeta de forma tão drasticamente diferente as pessoas? Não é apenas idade. Tenho um amigo de 98 anos, o Vladimir Levin,  que está se recuperando em Nova York, há jovens que morrem #Outras pessoas (bastantes) ficam com sequelas graves de variados tipos  não sabemos quanto tempo#Nos próximos três meses é possível que tenhamos remédios antivirais que bloqueiem ou limitem a doença. No início de 2021 talvez, uma (ou várias) vacinas, oremos #Trump e Bolsonaro a dupla de garotos-propaganda da Cloroquina além de prestar um péssimo serviço às pessoas o faz ao próprio remédio. Eficaz para lúpus e malária (em, certos casos), em tese, poderia  funcionar para uma situação específica da COVID19 quando o grande problema não é a infecção, em si, mas a demasiado forte, frequentemente mortal, reação imunológica inflamatória. Isso precisaria ser estudado com método e precisão Só um imbecil –como o da Casa Branca--  o tomaria preventivamente...#Minha filha há alguns anos atrás tratou com algum sucesso uma persistente reação imunológica anti-virótica com Plaquenil, que é seu nome comercial, depois encontrou um remédio melhor.O problema é tentar fazer dele uma panaceia para capitalizar politicamente “a cura”#Se fosse anódina, tudo bem, o diabo é a Cloroquina é tóxica e frequentemente desencadeia arritmia cardíaca, por isso precisa ser estudada, pela ciência com seriedade, sem esses patetas metendo o bedelho. 

06/06/2020

Descarbonário: teaser 3, Nos dias da Rio 92



VEJA O VIDEO


Com Gil no I Encontro Planetário dos Verdes, durante a Rio 92
No que pese minha ficha ter caído, de fato, com a esquimó Sheilla em 2005, em Montreal, eu já registrava o tema mudança climática desde a Rio-92, mas apenas como um dentre diversos assuntos da pauta ambiental: Amazônia, isoladamente, Agenda 21, biodiversidade, desertificação, oceanos. Aquela conferência sobre meio ambiente e desenvolvimento da ONU, vinte anos depois da de Estocolmo, em 1972, onde tudo começou, foi chamada internacionalmente de The Earth Summit, a Cúpula da Terra. 

Foram dias muito corridos e concorridos. Fiquei zanzando entre a conferência oficial, no Riocentro, e a da sociedade civil, o Fórum Global 92, no Parque do Flamengo, com suas tendas brancas que abrigaram as ONGs de dezenas de países em um clima de happening permanente: indígenas, monges budistas, ambientalistas de diversos quadrantes, movimentos sociais para todos os gostos e de variadas ideologias. 

Era um caos surpreendentemente bem gerido por dois futuros parceiros, Roberto Smeraldi e Tony Gross. Eu era vereador pelo Partido Verde, no final do meu primeiro mandato, e candidato à reeleição naquele ano. Junto a um grupo de ativistas, distribuía meus boletins de mandato horas a fio e ia de tenda em tenda participar de debates. 
Eu tinha três grandes motivos de orgulho: toda aquela estrutura espalhada pelo Aterro do Flamengo, cujo quartel-general ficava no Hotel 

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Glória, fora viabilizada graças à chamada Lei Sirkis de isenção fiscal para projetos ambientais, que vigorou no município do Rio de Janeiro apenas naquele ano. A Secretaria de Fazenda havia sido fortemente hostil àquela renúncia fiscal, mas acabei convencendo o prefeito, Marcello Alencar, que aceitou promulgá-la por um ano. Também organizei o Primeiro Encontro Planetário dos Verdes, em um hotel em São Conrado. E, por fim, concedi a Medalha Pedro Ernesto, comenda-mor carioca, ao Dalai Lama no estádio do Maracanãzinho. 

Fui todo de branco para essa cerimônia e, quando nos demos os braços, senti aquela energia indescritível emanando do simpaticíssimo e carismático monge budista e líder do Tibete. Ele vinha acompanhado por todo um séquito internacional, dentre eles o ex-governador da Califórnia, Jerry Brown, que, décadas mais tarde, voltaria ao cargo para liderar a resistência de estados norte-americanos ao retrocesso climático de Trump. 

Dalai Lama sorria feliz que nem pinto no lixo com aquela medalha dourada com a qual meus colegas vereadores já haviam agraciado toda uma malta bem menos recomendável: banqueiros do bicho, milicianos matadores e ladravazes de toda espécie. Cada um homenageia quem lhe compraz... Minhas outras foram para o indigenista Sidney Possuelo, para o Rubem César Fernandes, do Viva Rio, e para o veterano militante brasileiro e herói da resistência francesa na Segunda Guerra, Apolônio de Carvalho. 
Na época, ninguém se preocupava muito em desagradar os chineses ao homenagear o monge do Tibete.

 Minha amiga Lucélia Santos, naqueles anos a brasileira mais famosa na China, por causa da novela A escrava Isaura, também gostava dele e sonhava mediar o conflito da China com o Tibete. De lá para cá, a posição da China tornou-se cada vez mais dura, e o próprio Dalai Lama, mais low profile. Ele participou junto de padres, pastores, rabinos, pais de santo e imãs de um grande ato ecumênico no Aterro do Flamengo. 

Os chefes de Estado se reuniam no Riocentro. Consegui entrar no pavilhão principal e chegar até o vestíbulo do superprotegido recinto onde eles negociavam. Minha credencial dava acesso apenas até a antessala. Ingressar naquele santuário maior onde, sob a presidência de Fernando Collor, se concentravam uns setenta chefes de Estado – inclusive George H. W. Bush, François Mitterrand, Helmut Kohl, John Major e Fidel Castro, protegidos pelos seus próprios seguranças – parecia impossível. Tímido, nunca tivera muito sucesso como penetra em festas. Ser barrado nos lugares era, para mim, um vexame. 

O presidente Collor, que seria alvo de impeachment em breves meses, conduziu os trabalhos em grande estilo, justiça seja feita. Dois anos antes, no Palácio do Planalto, tinha recebido Fernando Gabeira, Fernando César Mesquita e a mim em audiência para tratar do Summit. Fizemos intenso lobby pelo Rio de Janeiro, que então disputava com Curitiba e Manaus (São Paulo corria por fora) qual seria a cidade brasileira a sediar a então chamada ECO- 92. O presidente foi receptivo e simpático, não obstante aquele seu estranho olhar. Sentimos que o Rio ia emplacar. 

Naquela tarde no Riocentro, o tema era o clima e o chamado efeito estufa, e aguardava-se com ansiedade o discurso do então presidente norte- americano, George H. W. Bush, para saber se haveria acordo para uma Convenção do Clima na ONU. Misturei-me a um grupo de governantes, diplomatas e seguranças que voltavam ao recinto depois de um intervalo. Coloquei do lado de fora do bolso do paletó o brasão da minha espalhafatosa carteira de vereador – escarlate berrante com um escudo dourado – e segui em frente. Aquilo parecia carteiraça de um tira das galáxias e, passando pelos seguranças da ONU, penetrei no local. 

Ao entrar, dei logo de cara com Fidel Castro. “Mucho gusto, comandante.” Esperei por um aperto de mão bruto del caballo de Sierra Maestra, mas foi curiosamente suave, seguido de um small talk de alguns segundos sob o olhar atento de seus anjos da guarda. Segui andando. Passei pelo então premier britânico, John Major e, uns trinta metros mais adiante, me detive diante dos seguranças do Bush pai, que bloqueavam o acesso ao palco ao qual Collor acabava de convidar o ex-presidente norte- americano. Ele e Fidel não se olhavam, ostensivamente. 

O sujeito do serviço secreto tinha cara de poucos amigos, com o fio encaracolado daqueles walkie-talkies preso ao ouvido, e olhava alternadamente para os lados, virando a cabeça como um boneco de corda. Fiquei por ali mesmo. Bush pai chegou ao palco meio desengonçado. Falou de improviso, sem teleprompter. O discurso seria considerado arrogante pela imprensa no dia seguinte: “Os Estados Unidos não têm lições a receber de ninguém sobre clima” e “vamos exceder, repito, exceder, as metas de biodiversidade” são duas frases dele das quais me recordo bem. 

Visto retrospectivamente, no entanto, foi também um discurso histórico, pois, naquele momento, ele quebrou o suspense e, ao contrário da maioria dos prognósticos na mídia, anunciou que os Estados Unidos iriam, sim, assinar a Convenção do Clima, assegurando o sucesso da Conferência. Ele reconhecia oficialmente que o “aquecimento global” existia e algo urgente precisava ser feito a respeito. 

Já não se fazem mais presidentes republicanos como Bush pai... 

Naquele momento, os Estados Unidos eram o maior emissor de gases de efeito estufa, e a questão climática – tema novo na agenda internacional – assumia fortes conotações geopolíticas. Passava a fazer parte do então chamado confronto Norte-Sul. No Brasil, a questão do clima era fortemente dominada pelo Itamaraty e tratada sob essa óptica essencialmente geopolítica, para inconformidade de José Lutzenberger, ambientalista pioneiro do Rio Grande do Sul que Collor havia convidado para dirigir sua secretaria presidencial do meio ambiente. Na época, ainda não existia o ministério. 

O velho Lutz era uma figura excêntrica: magro, alto, loiro, narigudo. Parecia o Professor Pardal. Era muito rabugento. Algumas semanas antes, eu havia levado a Brasília para falar com ele o Mario Moscatelli, secretário de meio ambiente de Angra dos Reis, ameaçado de morte por ter embargado uma obra que desmatava um manguezal. 

Queríamos que o Lutz interviesse publicamente. 
“Se estão ameaçando é porque não vão fazer nada! Quando vão fazer alguma coisa não ameaçam”, sentenciou, impaciente, sempre reclamando: “Vocês, ambientalistas, não me deixam em paz, não tenho mais tempo para nada.” Quase o mandei à merda. Afinal, agora ele era do governo e tinha concordado em nos agendar. No entanto, conhecedor das suas esquisitices, limitei-me a lhe recordar as inúmeras ameaças que Chico Mendes recebera antes de ser assassinado.

 Logo nos despedimos, frustrados. Admirava o velho Lutz, mas fiquei puto da vida. Ele defendia justamente que a questão climática demandava a colaboração solidária de todos. Não podia ser tratada como apenas um mais um lance do enfrentamento Norte-Sul, uma negociação geopolítica e comercial de toma lá dá cá. 

Muitos anos depois, no Senado, Collor me relatou a visita de ambos a um silo para testes nucleares subterrâneos na Serra do Cachimbo. Tinha sido construído pelos militares no governo Geisel para testar a bomba atômica brasileira, que viria a ser evitada pela assinatura do Tratado de Tlatelolco e pelo acordo bilateral de não proliferação com a Argentina. “O velho Lutz ficou ali, bem na borda do buraco, espiando para baixo. De repente, tonteou, bambeou e quase caiu lá dentro. Já pensou? Imagina a situação!”, confidenciou o ex-presidente. Rimos. 

Lembro-me agora de um outro caso, também divertido, só que bem mais mundano com Collor. Foi em Araras, no casamento de seu filho, Joaquim. Compareci a convite da mãe, sua primeira esposa, minha querida amiga Lilibeth Monteiro de Carvalho. Fui com a minha mãe, Lila, e uma amiga dela, uma polonesa radicada na Bélgica a quem chamo de tia Elisabeth. 

Tia Elisabeth é, como diríamos, algo desavisada. Uma bela manhã, bem, bem cedinho, mamãe acordou com um barulho matraqueante de helicóptero nos fundos do seu prédio. Foi procurar tia Elisabeth e a encontrou debruçada no parapeito do terraço dos fundos que dava para o Morro Azul, no Flamengo, então dominado por uma belicosa facção do tráfico. Tia Elisabeth se deslumbrou com o helicóptero da Polícia Civil, parado no ar com um fuzil apontado para a favela. “Liliana, Liliana, Estão rodando um filme!” 
Desavisada, pois... 

Chegando em Araras, entreguei o carro ao valet e nos dirigimos à entrada da mansão onde seria celebrado o distinto casório. À porta, elegantíssimo, de terno e gravata Hermès, o pai do noivo saudava os convivas. Cumprimentei-o. Trocamos aqueles dois dedos de prosa de político: “Sirkis, sabe que votei em você para presidente?” Ele estava se referindo à minha mui quixotesca campanha presidencial de 1998 pelo PV. Agradeci. Não pude manifestar reciprocidade... 

Aí ele disse: “Você precisa ler o livro que escreveram contra a gente: se chama A máfia verde. O cara é negacionista e diz que essa história de mudança climática é tudo uma invenção. Temos que reagir.” Diante daquela manifestação de cumplicidade, fiquei pensando em algo simpático, que pudesse dizer-lhe, recordando sua elegante e amplamente reconhecida atuação na Rio-92 e sua decisão de escolher o Rio para sediá-la, mas fui interrompido por um comentário de tia Elisabeth em polonês para minha mãe: “Liliana, mas que mordomo bem apessoado!” 

“Elisabeth, que disparate! Este senhor aí é o ex-presidente do Brasil!”, retrucou minha mãe. A outra arregalou os olhos, pensou e sorriu, incrédula, achando que Lila devia estar gozando com a cara dela. Quem riu mesmo da história, às gargalhadas, foi a Lilibeth: “Eu avisei para o Fernando não ficar ali na porta cumprimentando todo mundo! Para quê? Aqui ninguém vota nele!” 

A imagem subsequente que me vem à memória daquele casamento é a entrada do pai e da mãe do noivo, Collor e Lilibeth – uma dupla inegavelmente “bem apessoada”, como diria tia Elisabeth –, seguidos de seus respectivos cônjuges daquela época: o dela, Walter Rosa, um modelo negro, alto, bonitão, com a Rosane Collor, naquele tempo ainda esposa do ex- presidente, mignonvestido curto, bolsa e sapatos de salto alto, tudo no mesmo tecido estampado de cores diversas e misturadas. “Combinando”, por assim dizer... 

Na época da Rio-92, além do velho Lutz, Collor fora influenciado por dois outros importantes pioneiros brasileiros na questão climática: o professor José Goldemberg e o diplomata Rubens Ricupero, que estiveram entre os primeiros a perceber a gravidade do tema. Ricupero ia além do entendimento predominante da questão à época no Itamaraty, primordialmente pelas lentes do jogo geopolítico. Entendia que o Brasil também teria que assumir suas responsabilidades. Para mim, naquele momento, a questão do “aquecimentoglobal” era um tema bastante novo, um entre outros da agenda ambiental: defesa da Amazônia, luta antinuclear, camada de ozônio, questões de ecologia urbana: poluição do ar, águas, lixo e ciclovias. Demoraria ainda uns bons anos para entender quão mais embaixo ficava o buraco.

31/05/2020

Descarbonário teaser 2: Negacionismo e inércia

Continuo postando alguns trechos do meu novo livro Descarbonário a ser lançado no Rio no dia 18 de junho, virtualmente mas com todo o ritual de um lançamento em livraria. 

O trecho de hoje trata do negacionismo climático e da inércia. Embora ataque eu sacaneie o negacionismo acho a inércia um inimigo pior.  A inércia dos governos, agentes econômicos e grande parte da sociedade. Ela é  ditada pela "tragédia dos bens comuns" --o que afeta a todos mobiliza menos do que aquilo que afeta a uma minoria compacta, concentrada, com interesse econômico imediato. Uma boa discussão. Confira:



Negacionismo e inércia

Desde os anos noventa, trava-se nos Estados Unidos, mais do que em qualquer outro país, um embate político com o chamado negacionismo que, hoje, ao final da segunda década do século XXI, tornou-se novamente política oficial na administração Donald Trump.

 Na Europa, tanto a direita quanto a esquerda aceitam melhor a ciência a respeito, e o negacionismo climático sensibiliza apenas uma franja de opinião diminuta, ridicularizada, cujo símbolo mais apropriado é o avestruz enterrando a cabecinha na areia para fugir do perigo. Margaret Thatcher, John Major, Jacques Chirac, Helmut Kohl, Nicolas Sarkozy e Angela Merkel foram todos líderes da direita europeia que, em diversos momentos, mobilizaram seus governos a fim de tomar posições proativas face ao aquecimento global. 

  Nos Estados Unidos, inicialmente, também havia certa concertação bipartidária sobre o tema, mas uma ação concentrada, fartamente financiada e corruptora, orquestrada pelos lobbies do carvão e do petróleo, logrou transformar o Partido Republicano e suas maiorias parlamentares em sólidos bastiões do negacionismo climático.

É uma repetição contemporânea da ação daqueles médicos pagos pela indústria do tabaco para irem aos programas de TV, em preto e branco, dos anos cinquenta e sessenta a fim de sustentar, categoricamente, que não havia provas seguras do nexo entre o cigarro e o câncer de pulmão.

Dentre os negacionistas climáticos, uns fingem que o aquecimento global simplesmente não existe. Outros o admitem como decorrente de ciclos naturais, mudanças no eixo da Terra, vulcanismo, raios cósmicos, não havendo nada a fazer a não ser se adaptar. Negam qualquer responsabilidade antrópica. 

Outros, ainda, reconhecem que o fenômeno existe, é provocado pela ação humana, mas consideram tarde demais para ser confrontado. Se já estamos ferrados mesmo, relaxe e aproveite, porque suas consequências serão suportáveis  no período das nossas vidas e as futuras gerações irão dar um jeito de se virar de alguma maneira. Certamente vão inventar alguma tecnologia para chupar o CO2 da atmosfera ou alguma solução de geoengenharia para esfriar o planeta. Por isso não há razão para deixarmos de queimar o carvão barato e a gasolina farta, e desmatar à vontade. Bom proveito.

Nos Estados Unidos, os negacionistas são poderosos. Estão muito bem organizados e têm amplos recursos. Seus mais eminentes financiadores foram os irmãos Charles e David Koch, o último recentemente falecido, cujas indústrias emitiram 24 milhões de toneladas de CO2 em 2011. Os políticos negacionistas apoiados por eles em suas campanhas eleitorais conquistaram influência preponderante no Partido Republicano. 

Fortes no Congresso norte-americano, impediram, em diversas ocasiões, restrições a emissões de gases de efeito estufa. Barack Obama teve que impô-las por decreto. A eleição de Donald Trump e sua decisão de desmontar o legado de Obama e as regulações da agência de proteção ambiental federal norte-americana (EPA), além do anúncio de que se retiraria do Acordo de Paris (legalmente  em 2020), deu novo alento ao negacionismo, mas também à reação em sentido contrário que mobiliza como nunca governos de estados e cidades, empresas e a juventude em defesa do clima.

Negacionistas “de esquerda” também existem. No Brasil, há alguns anos, eram liderados pelo então deputado comunista Aldo Rebelo. Para eles, tudo não passava de uma conspiração imperialista para impedir países emergentes de se desenvolverem economicamente. Uma fraude, nessa versão, não dos chineses, como garante Trump, mas do bom e velho imperialismo ianque ou de ONGs estrangeiras que querem nos roubar a Amazônia (nisso coincidiam com o discurso da extrema-direita). Embora suas narrativas sejam bastante variadas, o que os negacionistas climáticos têm em comum é uma feroz hostilidade à qualquer redução emissões dos GEE que imponham restrições ou obrigações às indústrias de carvão, petróleo ou automotiva ou que impeçam o desmatamento.

É compreensível que sindicatos de trabalhadores de minas e usinas térmicas a carvão possam se identificar com os interesses dessas indústrias, da Polônia à Pensilvânia, passando pelo Rio Grande do Sul. Trump cultivou politicamente essa revolta carvoeira em nome da defesa de seus postos de trabalho, mas a verdade é que hoje a energia solar nos Estados Unidos cria muito mais empregos, sem a poluição e as terríveis condições de trabalho das minas. E o uso do carvão continuou a cair no seu governo, por razões de mercado.

É certo, no entanto, que um contingente de trabalhadores do carvão perde com a descarbonização. A mesma ameaça se antecipa na indústria do petróleo, muito mais poderosa, mas cujos limites históricos também já se perfilam no horizonte embora num prazo mais dilatado. Uma ação inteligente em defesa do clima precisa levar em conta tais realidades sociais, saber apresentar alternativas econômicas palpáveis e programas de reciclagem socioprofissional, dar-lhes um tratamento sério e respeitoso – e até uma confortável aposentadoria –, evitando o puro e simples abandono desses trabalhadores, empurrando-os para o lado dos negacionistas e da extrema-direita. É preciso também começar a discutir com as companhias de petróleo saídas financeiras para seus futuros stranded assets (recursos imobilizados) à luz da atribuição de valor econômico às emissões evitadas, uma discussão que abordarei mais adiante.

Alguns negacionistas climáticos são acadêmicos ou jornalistas em busca de seus 15 minutos de fama. A mídia em vários momentos lhes deu guarida, à guisa de “ouvir os dos lados”,  contribuindo para anos a fio de imobilismo governamental. Em diversos momentos, passou a impressão de que existiria uma real controvérsia científica. Não existem “dois lados” de uma legítima polêmica científica: mais de 98% de todos os textos publicados em revistas científicas e o consenso avassalador entre cientistas de mais de 120 países, no IPCC, atestam que o aquecimento global é provocado por poluição de gases de efeito estufa de origem humana e constitui uma ameaça existencial que ainda poderá, eventualmente, ser mitigada.

Mais recentemente, a falsa controvérsia saltou para as redes sociais onde se consegue veicular, com amplitude, todo tipo de baboseira embalada em memes com alguma frase de efeito agressiva. Os negacionistas têm companhia. Cresce na internet a família dos defensores do terraplanismo. Para eles, a chegada do homem à Lua, em 1969, com Neil Armstrong e a famosa foto da Terra vista do espaço são fakes, e é mister restaurar a verdade cristã da gloriosa Idade Média: tremei hereges, a terra é plana como um disco de frisbee!

A suposta controvérsia acaba fornecendo um álibi confortável para outros governantes: “Bem, vejo que aqui há polêmica; uns dizem uma coisa, outros dizem outra. Enquanto não houver uma conclusão, é melhor não fazer nada.” Sobretudo quando fazer algo signifique machucar o bolso de interesses aliados…

Na verdade, no entanto, o negacionismo climático não é, nem de longe, o maior obstáculo político a ser vencido. É o  insustentável peso da inércia, a longa e sinuosa distância entre a urgência de uma “descarbonização” drástica e a lentidão com que ocorrem as mudanças na economia, nas finanças, na governança e na própria sociedade em sua cultura de consumo, tanto nas democracias quanto nos regimes autoritários. O sistema econômico mundial continua essencialmente formatado para depender dos combustíveis fósseis e para financiá-los carbonizando mais e mais a atmosfera.

Isso resulta da chamada tragédia dos bens comuns, do clássico drama dos interesses difusos. O que a todos pertence, difusamente, mobiliza menos do que aquilo que afeta o interesse concentrado de alguns poucos poderosos. Na sociedade há segmentos empresariais, estatais, de classe média e de trabalhadores sindicalizados e setores automobilistas que se sentem ameaçados pelo fim do subsídio ao combustível fóssil ou pelo fechamento de uma usina termoelétrica a carvão. Isso ficou patente nas revoltas contra a taxa de carbono na Austrália e na França. Percebemos que esse problema existe até em um dos países que mais avançou em energias limpas, como a Alemanha.

A Alemanha já produz quase 30% de sua eletricidade a partir dessas fontes, mas o carvão ainda responde por 45% de sua geração elétrica. Subsistem, sobretudo na antiga Alemanha Oriental, milhares de trabalhadores em minas de carvão, linita ou jazidas a céu aberto. O país continua dependendo dele para gerar energia, sobretudo depois de ter decidido, precipitadamente, na sequência do acidente de Fukushima, antecipar o descomissionamento de suas usinas nucleares para 2022. Já em 2019, anunciou que fecharia sua última usina a carvão apenas em 2038!

O carvão  representa os primórdios da industrialização e da civilização moderna: um passado hobbesiano, cruel, da humanidade. Da vida curta, árdua e insalubre. Ainda hoje as minas de carvão apresentam uma taxa de mortandade elevadíssima. As vítimas de grandes acidentes em minas continuam a se acumular na China e em outros países. Sua forma de poluição do ar é a pior de todas. Provoca doenças respiratórias em populações inteiras. Dentre os maiores utilizadores de carvão da atualidade estão a China, Estados Unidos, Índia, Japão, Rússia, África do Sul, Coreia do Sul, Alemanha, Polônia e Indonésia.

Em 2017, as emissões de energia por queima de combustível fóssil voltaram a subir em 3%, em decorrência do uso maior por parte dos chineses das suas usinas a carvão em um ano de secas. A falta de chuva que prejudica a geração hidrelétrica tende a se tornar mais frequente no futuro, por causa da queda da vazão dos seus rios provocada pela mudança do clima. Aquilo que se esperava ter sido apenas um ano de inflexão foi seguido por um novo aumento de emissões por queima de combustíveis fósseis em 2018.

Nos Estados Unidos, onde as emissões das térmicas a carvão continuaram se reduzindo pela queda no consumo, em 2018 um considerável aumento das atividades na indústria e nos transportes acabou produzindo o primeiro aumento de emissões totais em onze anos.

O total de missões de 2017 chegou a 53,5 Gt de carbono equivalente, 49,2 Gt correspondeu à queima de combustível fóssil. Em 2018 houve um aumento de 2,7%. Em relação a 2019, os primeiros dados indicam novamente uma estabilização de emissões relacionadas à queima de combustível fóssil. Nesse ano houve forte aumento de desmatamento e incêndios florestais gigantescos na Rússia, Brasil, Indonésia e Austrália, ainda não devidamente computados quando escrevo. 

A recessão causada pela pandemia COVID 19 certamente reduzirá as emissões de CO2 por queima de combustível fóssil, em 2020. Haverá uma queda estimada, no momento, em 6% ou 7% dessas emissões. No entanto, aquelas por desmatamento podem não ser afetadas. Comparando abril de 2020 com o mesmo mês do ano anterior, ocorreu um aumento de desmatamento na Amazônia de  64%, por exemplo. (161% pelo Imazon)

30/05/2020

Descarbonário teaser1

Estou divulgando pequenos trechos do meu livro Descarbonário como teasers. O livro vai se lançado no dia 18 de junho por via virtual. 
Aqui falo sobre umas histórias à margem da Conferencia do Climate Bali, em 2007.

Kuta

Bali é um exuberante jardim à beira-mar plantado, com muitas estátuas e construções de uma arquitetura hinduísta, como é a maioria da população. Bali destoa, dissonante do resto da Indonésia, país/arquipélago de grande maioria muçulmana que estava, naquele momento, submetida à forte pressão do islã integrista. Aquelas estatuetas de deidades hinduístas – para os islâmicos, uma manifestação de idolatria –, aquele clima sensual, quase promíscuo, no ar, com as revoadas de jovens ocidentais tatuados com seus biquínis, suas bermudas coloridas e suas bandanas.

Fora, durante muito tempo, o paraíso dos surfistas australianos, gringos e brasileiros, mas, em outubro de 2002, conhecera sua noite no inferno. Naquele quarteirão apinhado de gente junto à praia de Kuta, onde, cinco anos mais tarde, eu passaria meu aniversário pegando jacaré, explodiram duas potentes bombas da Jamaah Islamya, grupo vinculado à Al-Qaeda. Mais de 202 pessoas morreram naqueles barezinhos perto da praia – para os terroristas, antros de prostituição e pedofilia dos apóstatas. No local do atentado, onde tomei uma caipirinha brasileira, havia uma placa de metal com uma extensa lista das vítimas. Era difícil imaginar aquele beco luminoso e aprazível naquela noite terrível, coberto de pedaços de corpos humanos, poças de sangue e gemidos.

O ataque prejudicou gravemente o turismo da ilha. O ressentimento dos balineses contra quem tão fortemente impactara seu modo de vida e sua principal fonte de renda ainda era o papo mais insistente dos motoristas de táxi naquele trânsito caótico, dominado pelas motos. Bali utiliza a mão inglesa, mas o volante dos carros é do lado esquerdo. Depois de quase ser atropelado duas vezes, passei a ter mais medo dos enxames de motocicletas do que dos asseclas de Osama Bin Laden. Embora alguns colegas temessem novos atentados durante a COP e ficassem cabreiros, de olho nas mochilas de rapazes de barba, eu confiava na minha boa estrela. Simplesmente não ia acontecer.

Não que a segurança indonésia, conquanto ostensiva, fosse lá grandes coisas. A caminho de Bali, no LAX, o aeroporto de Los Angeles, vi um aviso do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos advertindo que o aeroporto de Denpansar, em Bali, era inseguro e a visita dos cidadãos norte-americanos, fortemente desaconselhada. De fato, o aeroporto lembrava um pouco o antigo Galeão dos anos sessenta. A parafernália de segurança da Conferência do Clima foi acoplada a essa estrutura arquitetônica tosca que não a favorecia. A pista do aeroporto ficava a poucos metros do mar. O controle era burocrático e plácido, e os policiais, afáveis, relax.

Em diversos pontos no trajeto para o Centro de Conferências e nos hotéis, passávamos por bloqueios policiais. O táxi ficava parado naquele calor úmido de sufocar. Usavam uns detectores de metais e, em alguns casos, cães farejadores. Revistavam burocraticamente os porta-malas dos automóveis. Não pude deixar de imaginar como agiria um terrorista suicida. Chegaria limpo, teria um cúmplice no estacionamento do aeroporto com um jaleco bomba localmente fabricado. Ninguém perceberia. Nada o impediria de se explodir no bar onde servem aquelas caipirinhas legitimamente brasileiras ou na casa de massagens ao lado da rua onde ninfetas “hindunésias “ esfregavam com essências exóticas turistas australianos, vermelhos como camarões.

O lado paradoxal daquela relaxada e permissiva ilha   era, naturalmente, a política de drogas imposta por Jacarta, a ferro e fogo, para todo o arquipélago. No controle de imigração do aeroporto, havia uma placa em inglês, curta e grossa: a posse de drogas é punida com death penalty, pena de morte. Alguns anos mais tarde, dois surfistas brasileiros desavisados, com cocaína em suas pranchas, terminariam executados. Fiquei pensando que Kuta merecia um joint. Custava a crer que, de fato, se enforcassem os maconheiros. De qualquer modo, era mais prudente restringir-se à caipirinha no bar dos terroristas do que queimar um baseado ao pôr do sol na praia.

Fumaça mesmo, ali na praia de Kuta, só daquela pira fúnebre. Depois de pegar umas ondas, fui caminhar pela areia com duas jornalistas da França, uma brasileira e uma uruguaia, com quem fizera amizade. Logo nos deparamos com um grupo montando uma alta fogueira. No topo, em uma maca, cercada de muitas flores, a falecida: idosa, miudinha, de cabelos brancos, vestido azul de renda, colares e pulseiras. Os familiares e amigos, enlutados, todos bem vestidos – alguns de terno e gravata, a maioria em trajes locais –, animados, plácidos, sorridentes, aguardando. Alguém produziu um facho com o qual acenderam a base da pira. Logo, as labaredas subiram. Em poucos minutos tivemos a oportunidade de assistir a uma cremação ao vivo com direito a odor de churrasquinho queimado. A poucos metros dali, os surfistas ciscavam pela espuma das ondas.

No final, teve de tudo na Conferência de Bali. A volta não prevista do então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon; o choro de seu representante, Yvo de Boer; a vaia do resto do mundo à diplomata do Departamento de Estado norte-americano, Paula Dobriansky: sua obstrução, depois recuo; a Índia cantando de galo na última hora; e, afinal, como não poderia deixar de ser, um consenso diplomático meias-tintas consagrando o mínimo denominador comum. No mais, o folclore. Rodava por Bali um taxista holandês dando a volta ao mundo com seu esquisito carro solar. Parecia uma velha Romiseta puxando um burro sem rabo com painéis fotovoltaicos. A imagem daquele taxista solar com seu jeitão hippie permaneceu na minha memória, por alguma razão, como imagem marcante, além da pira fúnebre da velhinha de Kuta e da bronca de Al Gore no plenário da COP 13.



28/05/2020

Descarbonario apresentação sumário do meu novo livro

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Descarbonário é um livro sobre as andanças e peripécias no universo dos que lidam com um dos mais graves problemas da humanidade: as mudanças climáticas. Alfredo Sirkis é dos percursores da causa ambientalista no Brasil.  Ele explica a crise climática global e seus reflexos aqui e no resto do mundo. É uma narrativa em primeira mão de quem participou como membro da delegação brasileira e personalidade ambientalista, das diversas conferências internacionais. 

 Mas o Clima é simplesmente o pano de fundo de uma  narrativa ágil de idas e vindas, com as muitas histórias e causos do autor.  Narra episódios que viveu na política brasileira, nos últimos 30 anos, ao curso de variados governos  inclusive sua quixotesca campanha presidencial, pelo Partido Verde, em 1998. Conta suas experiências como secretário de meio ambiente e urbanismo do Rio,  “pai das cicloviais cariocas” e impulsionador dos mutirões de reflorestamento.  

 Dá sua visão sobre temas de grande atualidade: campanhas eleitorais, funcionamento do Congresso, escândalos de corrupção, a Lava Jato, questões comportamentais, ascensão e queda da esquerda, ressurgimento e vitória a extrema-direita. A abordagem é feita de um ângulo pouco convencional com uma visão fortemente independente e entremeada de causos divertidos ocorridos no Brasil e em outros países por parte de um muito viajado e experiente observador da história contemporânea.

 Adota uma posição de “centro radical” crítico aos enormes erros cometidos pelo PT mas de opositor feroz do descalabro ambiental e humano do bolsonarato. Também discute alternativas para uma recuperação econômica pós-depressão COVID19. Registra a falência do modelo de financeirização neoliberal e a necessidade de um tipo de  ação do estado que ajude a promover um novo ciclo de desenvolvimento sustentável, descarbonizante e gerador de empregos que, ao mesmo tempo, tire a burocracia opressiva de cima das empresas. Defende um mecanismo de financiamento da descarbonização produtiva na qual o menos-carbono(reduzir ou remover carbono da atmosfera) seja o “novo ouro”. 

  A narrativa nos conduz pelos subterrâneos da gelada Montreal, da quente e úmida Bali, por Varsóvia e PInsk –onde revisita sua história familiar-- , Durban, Joahnesburgo, Lima, Paris, Havana, Pequim, Xangai, Dalian, Varsóvia, Bogotá,  Bonn, Los Angeles,  Nova York e outras cidades que visita com seu olhar de repórter e agudo analista de conjunturas políticas. Há diversos episódios com os personagens mais díspares da política brasileira como Leonel Brizola, Fernando Henrique, Dilma, Marina Silva, Michel Temer e  Bolsonaro.  

 É um livro de ação e reflexão que tem o Clima como pano de fundo sobre o palco das paixões políticas dos últimos 30 anos, um balanço de tempos conflitivos de uma democracia hoje ameaçada pelo caos vindo do Planalto.  Coincide com 40 anos do lançamento do best seller e Prêmio Jabuti, de 1981,  Os Carbonários, relançado como áudio book e e-book.