26/09/2018

Montanha russa, roleta russa


A mais recente pesquisa revela uma pausa no crescimento de Bolsonaro, uma deterioração de sua posição no segundo turno e um aumento de sua rejeição. Por outro lado,  Haddad segue subindo e a perspectiva para o segundo turno continua se esboçando entre ambos. É um cenário muito preocupante pois pode conduzir, por um lado, ao auto-golpe e por outro ao golpe clássico.

 Os erros do PT, a crise econômica, a extrapolação da Lava Jato para uma dimensão histérica –responsabilidade da grande mídia--  a incompetência histórica do centro esquerda e do centro direita nos levaram de volta ao passado. Mal vindos estamos aos anos 60 ! 

 Voltamos àquela antiga polarização onde a classe média guina à direita e boa parte dela para uma direta troglodita. As velhas “vivandeiras” dos quarteis a turma da Marcha da Família assim ressuscitam,  meio século depois,  na  pele dos "indignistas".  Por outro lado o Congresso, desmoralizado e pulverizado tende a continuar como está dominado pelo mesmo tipo de gente, inclusive com ma peso ainda maior do chamado baixo clero. O Judiciário e o MP possuem alas ativistas que desejam exercer o poder. Pode estar surgido um novo estrato de militares que volte a se interessar por ele. A crise econômica, apesar de toda conversa fiada, continua massacrante. As medidas para sair dela, a medio prazo,  são todas impopulares a curto prazo, a começar pela reforma da previdência que dá grandes dores de cabeça até a um autocrata como Putin. 

 Nesse contexto uma vitória petista com Haddad servindo com um  Hector Campora de Lula abriria, de imediato, uma situação de alto risco para a democracia com perigos absolutamente clássicos que remetem a 1954 e 1964.   Não é difícil de imaginar uma pressão de setores radicalizados da classe média que possa levar segmentos do Judiciário, MP  e miliares a  qualquer pretexto – alegadas fraude das maquinetas de votar, envolvimento de novos eleitos em corrupção, nova greve de camioneiros-- a negar legitimidade a uma vitória petista (sobretudo se apertada) e provocar uma crise aguda de desfecho (aí sim!) de fato golpista.

 Haddad e o PT teriam que ter uma maturidade política e um jogo de cintura descomunal para desmontar a bomba relógio que ativa seu tic tac no momento seguinte a uma vitória no segundo turno.

 Na hipótese Bolsonaro temos claramente o perigo  do auto-golpe “fugimorista” que o general  vice já enunciou com todas as letras. Seu governo não seria de ordem mas de perfeita bagunça e torna-se fácil imaginar uma sucessão de crises e de enormes dificuldades de governabilidade e de governança .

Na área econômica a presença do ultraliberal Paulo Guedes é tão farsesca que chega a ser carnavalesca.  A direita militar brasileira jamais foi e nunca será "liberal" na economia (muito menos na política). Ela foi e será estatista, intervencionista e nacionalista --geiselista--  à imagem e semelhança dos governantes autoritários contemporâneos: Erdogan, Kaczinski, Duterte, todos arautos do intervencionismo estatal bruto e de programas assistenciais para manter uma base eleitoral junto aos mais pobres. 

 Incapaz que promover um alívio rápido na economia um possível governo assim dedicar-se-ia à caça às bruxa e outras  diversões panis et circencis mas rapidamente chegaria a impasse que o levariam a proclamar “chega dessa democracia podre, não dá pra governar essa porra desse jeito, o chefe precisa de plenos poderes” e partir para o, nas próprias palavras do general Mourão seria  “autogolpe”. 

 Com mais dificuldades ainda que o  PT,   para governar democraticamente Bolsonaro teria de mostar características de ponderação, moderação e diálogo que nunca foram as suas e muito menos da sua “base” de exaltados.

 Problemas parecidos, apenas menos agudos e explosivos,  também aguardariam Ciro, Alquimin, Marina ou qualquer outro candidato alternativo de terceira via que viesse a se materializar --miraculosamente-- nesse poucos dias.

  Insisto que o presidencialismo de coalização brasileiro está pela bola sete. Está kaput como diriam os germânicos. É urgente estabelecer o parlamentarismo, com separação entre chefe de estado e chefe de governo; com uma forma institucional, normal,  de fazer cair um governo; com a responsabilidade parlamentar pela sorte do gabinete formado pela maioria; com a possibilidade de dissolução legal do Congresso  para eleições antecipadas --uma espada de Dêmocles sobre os deputados--  e com voto distrital misto.  

Qualquer um que for eleito presidente e que tenha um pingo de juízo deveria ver nisso um elemento de sobrevivência. Uma tábua de salvação.

 Ainda há, no momento,  três cenários possíveis. O mais provável é  esse da infausta polarização  Bolsonaro x Haddad. Se Haddad estabilizar nos 22%, 23%  ainda existe uma pequena chance para Ciro na reta final.  Se Haddad subir muito mais e Bolsonaro estagnar, Alquimin passa a ter uma outra pequeníssima chance de reta final: teoricamente o voto anti-petista ainda poderia migrar para ele numa reviravolta tão surpreendente quanto improvável. 

Entraria para a História como o Milagre do Picolé Chuchu... 


 Numa situação normal essas duas hipóteses já estariam praticamente  descartadas mas na circunstância atual ainda haverá um movimento de ultima hora que poderá ser um reforço desse primeiro cenário com crescimento dos dois que lideram ou uma guinada para um dos dois outros, um ela direita outro pela esquerda. Logo saberemos se de fato Deus é brasileiro ou se anda muito distraído com uma situação menos complicada no Oriente Médio.

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